Andrea Beltrão fala de carreira, de desafios e de Donald Trump “o planeta já era”

         


Andrea é um ser humano interessante. E bota interessante nisso.
Carioca da gema, adora tagarelar sobre trabalho e até se perde no tempo. Então, é fato que o papo com a equipe da Revista TUdo foi longo, até doer a língua.
Ela respira trabalho, resultado de uma carreira consistente que comemora 40 anos e consagrada pela interpretação de personagens complexos, especialmente no teatro. Aliás, quatro décadas que lhe renderam um modo nu e cru de ver a vida.
“O tédio da plateia é um problema meu! Não é porque eles não entenderam a peça. Eu não soube contar, falar, fiz alguma coisa. Ou seja, fiz merda (risos). Fiz errado! Quando eu erro, paro, e vou novamente”, conta ela sobre o seu primeiro monólogo (Antígona) – no qual se atira de corpo e alma no fascinante mundo criado pelo dramaturgo grego Sófocles há mais de 2 mil anos - escrita no ano de 441 a.C. – A atriz contou porque demorou tanto tempo para encarar os palcos sozinha e quem lhe encorajou a seguir em frente. “É muito aflitivo ficar sozinha na imensidão do palco. Na verdade, quem me empurrou para esse abismo foi a Fernanda Torres”, revela.
O legal é que o texto é uma releitura de uma tragédia grega, levando o espectador a refletir sobre os atuais acontecimentos no mundo. “Quando estreamos a peça no ano passado, Donald Trump foi eleito o presidente dos Estados Unidos. Bateu um desespero! Pensei na 3ª Guerra Mundial, que o planeta já era, que acabou tudo e tal. ‘Um bom governante constrói pontes e não muralhas’, o Papa Francisco disse isso. Eu amo o Papa”, comenta.
Com planos traçados para o próximo ano na televisão, Andrea se prepara para viver Verônica, um filme que de tão bom vai virar uma série. “Por enquanto, no elenco sou apenas eu, mas não será um monólogo (risos)”, brinca a atriz.
Mergulhe, a partir de agora, no corajoso mundo de Andrea.
E entenda porque ele é tão corajoso.



Após 40 anos de teatro, você estreia seu primeiro monólogo, (Antígona), um texto complexo escrito por Sófocles há mais de dois mil anos. O que te fez querer contar essa história?

Eu queria fazer algo que nunca havia feito e que fosse diferente, que me colocasse fora da zona de conforto. Não que os trabalhos anteriores tenham sido fáceis, mas esse foi bastante arriscado num certo sentido. Correr risco é maravilhoso, mesmo que dê tudo errado. Quando eu comecei a trabalhar com o Amir Haddad (diretor) nessa história, não tínhamos expectativa e nem sabíamos se a história se tornaria realmente uma peça. Nós estamos experimentando. Isso trouxe liberdade e uma falta de expectativa, uma serenidade, uma coisa boa para o trabalho, muito sincera, honesta e desarmada.

Em uma de suas entrevistas, você comentou que tinha medo de estrear sozinha. Esse medo já passou ou é algo que ainda te assombra?
É muito aflitivo ficar sozinha na imensidão do palco. Uma das coisas maravilhosas do teatro é contracenar. Para mim, o teatro sempre foi estar com os outros contando histórias, a trupe, o grupo. Eu tinha muita aflição do monólogo, por isso, nunca quis fazer. Na verdade, quem me empurrou para esse abismo foi a Fernanda (Torres). Estávamos fazendo ‘Tapas e Beijos’ juntas e ela faz ‘A Casa dos Budas Ditosos’ há mais de dez anos; onde ela vai é multidão. Deve ser dificílimo ela pensar em parar de fazer. Num dia, almoçando juntas, comentei que tinha inveja dela, porque deveria ser tão gostoso. Ela comentou que eu também poderia fazer. Ela perguntou qual era a peça que eu mais gostava e eu comentei sobre ‘Antígona’. Ela me colocou em contato com a família do Millôr (Fernandes) para pegar a tradução. Pensei: ‘Agora vou ter que fazer, não tem mais volta’. De certa maneira, ela foi minha madrinha.

Nessa peça, são muitos personagens importantes. Como você conta a história da Antígona, já que tem Creonte, Ismênia, Édipo... Como foi o processo de transformação do texto original para um monólogo?

Quando começamos a trabalhar já era uma preocupação de como faríamos porque são muitos personagens. Nós íamos fazer a peça na íntegra? Agora sou Ismênia? Antígona? Um que pergunta e outro que responde? Seria muito maçante para o público e ninguém aguentaria. O Amir teve a sacada de voltar para o mito; antes de Sófocles existia o mito. Fomos para o primeiro antepassado de Antígona. Quando chegamos na Antígona, o Amir me deu uma tarefa que era contar a história para ele. Muita morte, assassinato, filho transando com a mãe, filho matando o pai, irmão matando irmão, era uma coisa de louco! Fizemos uma redução e criamos a árvore genealógica. Os personagens entram numa medida muito precisa para contar a história da Antígona; ela é uma pacifista, humanista, a maior de todas. Ela vai contra tudo e todos, vai de encontro com a morte, é emparedada viva porque não admite deixar que o corpo do irmão Polinice seja comido pelos abutres. É por amor que ela faz isso! Rebelde é o seu tio, o rei Creonte, que desorganiza tudo a partir de uma lei que ele inventa. Ele subverte toda a cidade e tudo acontece em volta.

O texto retrata muitas falas intensas, reflexivas. Para você, qual delas mais te impactou como ser humano?

São muitas! Cada um com a sua propriedade, imensidão, vastidão. Um dos momentos que eu mais gosto é quando Antígona está sozinha sendo emparedada viva, mas ela sabe que vai ao encontro dos seus familiares. Sua irmã Ismênia tem uma fala assim: ‘Que fim será o nosso? Muito mais miserável do que todos, se desprezarmos um decreto. Temos que lembrar primeiro que nascemos mulheres; não podemos competir com os homens; segundo somos todos dominados pelos que tendem a força. Temos que obedecer; não apenas nisso, mas em coisas bem mais humilhantes. Peço perdão aos mortos, que só a terra os oprime. Não tenho como resistir aos poderosos. Constrangida eu obedeço. Demonstrar revolta é inútil, é pura estupidez’. Uma mulher dizendo isso! São muitas falas que você tira da peça e coloca em qualquer lugar. As pessoas perguntam se nós escrevemos as falas. Não! Foi um senhor chamado Sófocles.

Essa fala é realmente muito atual. Você acredita que essa peça tenha o poder de fazer as pessoas refletirem sobre os mandos e desmandos do Creonte nos dias de hoje?
Incrivelmente, parece que esse texto foi escrito ontem, porque ele fala de tiranos, de pessoas que tenham uma coragem gigantesca pra fazer coisas que elas acreditam e que devam ser feitas. Vão até o fim de tudo por mais que doa, por mais que elas enfrentem a incompreensão dos outros. Mas vamos pular essa parte (risos); tem muito fora Temer, mas tem gente que gosta dele e estará assistindo à peça; mas o Temer é um sub Creonte. Eu penso mais no Donaldo Trump, ele sim é um Creonte. Quando estreamos a peça no ano passado ele foi eleito o presidente dos Estados Unidos. Bateu um desespero! Pensei na 3ª Guerra Mundial, que o planeta já era, acabou tudo e tal. No Rio de Janeiro e em são Paulo fizemos uma coisa muito legal, que foi a linha do tempo com vários acontecimentos como, por exemplo, quando o Brasil ganhou a copa, quando a empregada doméstica Marli Oliveira foi atrás dos assassinos de seu irmão, em 1980. Vale do Rio Doce que sofreu. Já estava na gráfica quando o Trump foi eleito e tínhamos que colocá-lo na nossa linha do tempo. Para nós, fez todo sentido. Quando começamos a fazer esse trabalho, a situação do país era totalmente diferente. Nada tinha acontecido; a Dilma (Rousseff) não tinha caído, o governo estava correndo. O Amir me questionava porque eu queria montar essa peça. Sinceramente eu não sei a razão. Num momento, olhamos um para o outro e descobrimos. Tudo o que falamos na peça é o que nós queremos falar hoje. ‘Um bom governante constrói pontes e não muralhas’, o Papa Francisco disse isso. Eu amo o Papa! Não tenho religião, mas eu o amo (risos).

Já que você tomou coragem em fazer seu primeiro monólogo, existe a possibilidade de você trabalhar outros textos?

Tem um que eu já entreguei para o Amir, mas ele ainda não leu porque trabalha muito. É um romance. Chama-se ‘O Primeiro Homem’, de Albert Camus. É maravilhoso, mas, não sei se vai dar certo; talvez a gente descontrua e o guarde na gaveta e, daqui uns 40 anos, a gente monte (risos). Mas é uma ideia.

Existe um crescente número de atores novos na televisão, mas sem formação no teatro. Comente.

As vezes chega uma pessoa que nunca fez e tem fome e sede; é espantoso. Depende da coragem porque no teatro você tem que deixar se devorar e estar disposto a perder tudo. De repente, 40 anos de estrada não quer dizer nada para aquele que tem seis meses, mas é doido suficiente. Muitas vezes, nós também ficamos engessados na vida.

Você faz muita expectativa do que as pessoas possam achar desse novo trabalho?

Nenhum! É um papo, uma conversa. Nós não esperamos nada! Nós fazemos! Aproveitamos o palco, o lustre, a parede, a gente faz! A mensagem seria uma pretensão, uma blasfêmia. Não temos mensagens. Está tudo ali sendo dito.

Mas quando você está encenando, qual a sensação e a resposta da plateia? Como você se sente?

Que eu não estou sozinha e todo mundo está no mesmo barco. O tédio da plateia é um problema meu! Não é porque eles não entenderam a peça. Eu não soube contar, falar, fiz alguma coisa. Eu lido de maneira crua e fria. Ou seja, hoje eu fiz merda (risos). Fiz errado! Quando eu erro, paro e vou novamente. O texto fica em cena, porque se me der branco, peço desculpas.

Como você avalia a evolução dos palcos na sua carreira?

Eu não sei avaliar porque sempre fiz; não consigo me ver de fora. Gosto de todos os teatros. Esse teatro, que o Amir me ensinou a fazer, é o teatro que hoje me sinto mais inteira, onde eu não tenho medo de ter branco, de escorregar, me sinto mais livre. Eu fiz uma peça chamada ‘A Prova’ (2003) em São Paulo que era teatro realista, americana, bacana, eu amava fazer. Tenho saudades dessa peça, do personagem. O meu gosto é muito variado. Agora, esse lugar é o mais interessante para mim. Pode ser que no ano que vem eu resolva fazer outra coisa.

E já que você comentou sobre o próximo ano, o que vem de bom por aí?
Para manter o meu teatro no Rio de Janeiro preciso fazer televisão e muitos outros trabalhos. Nós temos o patrocínio da Petrobrás, mas tem também o da Marieta Severo há onze anos. Pretendendo fazer um seriado chamado ‘Verônica’, uma história que se originou do filme, onde eu interpreto uma professora. Já estão escrevendo os primeiros episódios e é voltado para o debate num panorama para discutirmos a questão da educação no Brasil, nas escolas públicas, sobre as dificuldades, a violência. Para isso, temos uma equipe de redatores e uma diretora de escola muito importante no Rio de Janeiro, chamada Eliane. Ela conseguiu transformar a escola num modelo. Esse assunto tem uns oito ou dez anos. Eu e o Maurício Faria, com quem sou casada, estamos mexendo, recortando, fazendo reuniões. Por enquanto, no elenco sou apenas eu, mas não será um monólogo (risos).

Em São Paulo, existe uma variação grande de público e os musicais ganharam mais espaço. Para você é muito difícil concorrer com essas grandes produções?

Não! Não me sinto confortável em classificar o público porque eles vão onde tem uma boa história. Claro que tem mil apelos, essa é outra questão, mas os musicais são bons também. Tem para todos os sabores e cada um faz o teatro que ama, que gosta, que se identifica. E a plateia vai atrás. Gosto de ver os talentos e aquelas atrizes com as pernas lá na PQP. É sensacional. Às vezes a história não me toca, mas admiro. Quanto mais teatro tiver, melhor para todo mundo.



 

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