Todo Nosso!


Antônio Fagundes bate um papo com a equipe da Tudo e deixa claro que tão breve não sai de cena.


O bate papo fluiu ali mesmo, no auditório do teatro, e não foi diferente de um grande espetáculo. Fagundes se aconchegou em uma cadeira e nós fizemos o mesmo, com o cuidado de quem não quer perder um segundo de sua respiração.
Oposto do que normalmente acontece, o entrevistado não carregava um telefone em mãos e sua atenção foi inteiramente nossa. Avesso a tecnologia, ele revela que o celular ainda é de teclas e que não está nem aí para as redes sociais. Fagundes gosta mesmo é de escorregar os dedos pelas páginas de bons livros. São pelo menos três finalizados por semana.
Ele sorri para o Manga, o designer da Tudo, com o sorriso de um amigo. Foi o Manga que viabilizou este momento por integrar a equipe de arte do espetáculo, sendo o responsável pela logo divertida da peça, que foi criada a partir da caricatura dos atores, na qual ele desenhou com o talento nato que carrega.
Antônio da Silva Fagundes Filho, 67 (ele comemora 68 primaveras agora em abril), respondeu a todas as perguntas com a sabedoria de um homem que não se intimida, enquanto jantava um quibe regado a um refrigerante zero caloria, lanchinho medíocre para quem ainda teria uma maratona pela frente; o ator contracenaria em instantes e, após a peça, seria dele a gostosa tarefa de acompanhar os fãs por um tour pelos camarins e conduzir um bate papo após o espetáculo.
Erudito e iluminado, após muitas frases faladas com a genialidade de quem coleciona 51 anos de carreira, a equipe da Tudo precisa se retirar. Fagundes disponibilizou mais tempo do que o esperado.
As luzes se apagam. O show vai começar.
Obrigada galã. Obrigada Fagundes.
Revista Tudo: A revista será distribuída no mês do seu aniversário! São 68 anos, certo?! Independente da experiência natural da vida, o que mudou e o que permaneceu no Antônio Fagundes de 50 anos, quando começou a carreira?!
Antônio Fagundes: É verdade. São 70 anos incompletos (risos). E engraçado porque, internamente, você não sente esse tempo todo passar. E isso acontece com todo mundo. A gente se fixa numa determinada idade e fica com aquela idade para o resto da vida. É quando a gente olha no espelho e se assusta. Vê que o cara refletido ali não tem a idade que imaginava. Para mim as coisas não mudaram muito não. Continuo com a mesma paixão pela minha profissão; são 51 anos dedicados a ela. O pique é o mesmo. A diferença é que eu subia a escada de três em três degraus e, agora, é de dois em dois.
Eu sou agnóstico e o agnóstico é um ateu com medo. É um ateu covarde, do tipo que não acredita, mas pensa: “Vai que existe”. Confesso que a religiosidade é algo que eu tenho, mesmo que ela seja traduzida na forma da minha profissão, por exemplo, por meio dessa vontade de comunicar, de trocar, de tocar nas pessoas. O que eu acho ruim, talvez, é a forma como as religiões surgiram e a maneira como elas estão sendo usadas. Eu diria que tenho religiosidade, mas não tenho religião.
Sim. Comecei a fazer teatro no Rio Branco. Aliás, inaugurei o teatro lá; o prédio do Higienópolis era novo. Um professor de português resolveu que era mais fácil ensinar versos alexandrinos fazendo uma peça do que explicando. A turma da classe escolheu três alunos e fizemos uma peça de Júlio Dantas. Dos três escolhidos, fui o único a continuar fazendo teatro. Era uma vocação. Saímos do Colégio, montamos um grupo de teatro amador, fiz peças infantis no Teatro de Arena (um grupo de teatro bastante politizado) e, naturalmente, os atores de lá levavam seus filhos pequenos para assistirem meu espetáculo e me conheceram como ator. Acabei de profissionalizando no Teatro de Arena em 1966.
Mais de quarenta? Nunca contei. É muito difícil falar porque estou em processo. O que estou fazendo agora é fruto do que fiz antes e uma preparação do que vou fazer depois. Estou fazendo esta peça e tenho mais dois ou três espetáculos engatilhados que já estão na minha organização. Talvez um trabalho que eu não tenha ido tão bem, tenha sido o responsável por motivar o sucesso de outros. Meu currículo é louco. Faço tudo e ao mesmo tempo. Eu realmente fico feliz quando estou fazendo as três artes ao mesmo tempo: teatro, televisão e cinema. Fico muito impressionado quando uma pessoa consegue dizer qual é o melhor livro que leu na vida. Certamente esta pessoa leu apenas cinco livros. Eu leio dois, três livros por semana; jamais conseguiria dizer qual o melhor livro da semana, quem dirá da vida.
Tenho 40 anos de Globo e já parei de fazer televisão, como estou parado agora, neste momento. Eu diria que são férias. Chega uma hora que essa pausa é essencial para não “encher o saco” do telespectador.
Nada de redes sociais. Nem Facebook, nem Instagram, nem WhatsApp. Meu telefone é de tecla. O máximo de modernidade que eu cheguei foi o fax. Duvido que alguém possa ter cinco mil amigos. Não tem mesmo. Eu prefiro ter dois ou três.
Nossa! E como funciona a sua relação com os fãs?
Acho que construí porque não tenho internet (risos). Ao invés de me dedicar a milhares de pessoas na internet, dedico-me a quatro ou cinco pessoas que são a minha família.
Fazia mais de 10 anos que eu não fazia comédia e estava procurando uma. A comédia é uma coisa ingrata porque você pode rir de algo e não gostar. Você pode rir e achar uma bobagem, sair vazio ou não se envolver. Então, tinha que ser uma comédia boa. Encontrei essa, muito bem escrita e que faz você refletir pelo menos cinco minutos até o estacionamento. A Baixa Terapia é interessante, tem conteúdo e humor inteligente.
Eu venho fazendo isso há mais de 30 anos. Preocupo-me bastante com a formação de público. Uma das coisas mais importantes que a gente pode fazer como contribuição social é dar subsídios ao público, para que ele possa ver outras peças. No meu espetáculo, a plateia pode acompanhar os ensaios desde o primeiro dia de leitura, pois abrimos para o público – cerca de 800 pessoas acompanharam todo o processo de criação deste espetáculo. Nós abrimos também os bastidores e mostramos o que tem por trás da cortina; como é o maquinário, como os atores circulam por ali, como o cenário se movimenta, onde ficam as roupas. O público passa a ter uma outra visão. Fazemos bate papos com a plateia todos os dias depois dos espetáculos e oferecemos apresentações com acessibilidade, uma vez por mês, com tradução em libras e distribuição de tablets para a plateia, com a legenda em português de tudo o que é dito.
Não tenho nada a ver com o Coronel Afrânio. Foi um personagem fabuloso, mas foi mal compreendido porque as pessoas se baseiam só no estereótipo. Não entenderam que, lá dentro, existia um cara muito mais perigoso, que foi aparecendo ao longo da trama. Quanto a peruca, as pessoas se incomodaram porque adoram o meu cabelo branco.
Eu adoro essa cerveja, e recomendo. É uma cerveja muito boa. Diz que é machista quem ainda não bebeu a cerveja. Experimentem.
Dificilmente tenho tempo livre. Digo que sou um ótimo espectador. Fico até três, quatro horas da manhã vendo séries. Tenho o hábito de ler e leio bastante. Gosto muito de viajar com a família e vou sempre que posso. Alugamos um ônibus, se precisar, e partimos em 10, 12 pessoas. Adoro ir ao teatro e ao cinema, apesar de cinema estar um pouco chato por causa das pessoas, que não vão mais para ver o filme e sim para tirar foto e falar ao telefone.
Estou sendo obrigado a praticar esportes por causa de um problema na coluna, e não existe saída a não ser fazer musculação, fortalecer os músculos e emagrecer. Mas faço mesmo por obrigação. Antes, toda vez que eu pensava em praticar esportes, ficava deitado até esse pensamento passar.
Eu acho que quem faz teatro no Brasil é do tipo que não desiste nunca. Se a gente não tivesse esperança tinha parado com isso, porque é bobagem você tentar modificar a cabeça das pessoas se você não acredita. Eu ainda acredito, assim como todos os meus colegas que ainda tem coragem de produzir uma peça no Brasil, creem que esse cenário possa ser mudado. Temos muitos desafios pela frente e confio que a gente chegue lá.
Quem se lembra?
O primeiro papel de Fagundes em novelas, o Cadu de “Bel-Ami”, na TV Tupi, surgiu por causa da baixa audiência da novela. Tiraram o autor, Ody Fraga e chamaram o Teixeirinha (Teixeira Filho), que matou metade do elenco. Fagundes veio no elenco dele.
Você sabia?
Que no início da carreira, Fagundes trabalhava na TV, no teatro e ainda vendia enciclopédias de porta em porta. “O esforço e a dedicação dele me impressionaram”, disse o diretor Dennis Carvalho ao Jornal Extra. ­

A equipe da Revista Tudo chegou ao TUCA – Teatro da Pontifícia Universidade Católica uma hora antes do combinado. A ideia era tomar um café enquanto o relógio não marcava as 20 horas, horário agendado para a entrevista com Antônio Fagundes, que chegou pontualmente para atender alguns jornalistas e fãs. A peça Baixa Terapia, protagonizada por ele, e que tem emergido na mídia, marca o retorno do ator na comédia, momento significativo de sua carreira, já que estava com saudades de fazer o seu público sorrir. Fagundes prestigiou a Tudo e a equipe. “Vou atender outra pessoa primeiro e, assim, teremos mais tempo juntos”, disse ele.


Antônio da Silva Fagundes Filho.

De onde vem o da Silva e de onde vem o Fagundes?!

Silva Fagundes é uma única e tradicional família paulistana, formada por cristãos novos, vinda de Portugal e estabelecida em Bragança Paulista. Tem até árvore genealógica.

 

Você se declara agnóstico. Você segue firme nisso?! Mudou de opinião?! 

 

Você estudou no Colégio Rio Branco e foi lá que despertou para o teatro. Como foi esse processo?

 

São mais de 40 tramas pela Globo. Sabemos que esta é uma pergunta meio clichê, mas gostaríamos de saber qual foi a que mais tocou você. A mais gostosa de interpretar.

 

Você chegou a ficar alguns anos afastados da TV?! O que houve?

 

Você é internauta? É do tipo que está sempre conectado, olhando o celular? Qual a sua relação com as mídias sociais?

Procuro não ter. O fã, assim como qualquer pessoa, deve ter uma distância. Aliás, é ele que deve ter uma relação comigo.

 

Você está na peça Baixa Terapia com a Alexandra, sua namorada, com a Mara Carvalho, sua ex-esposa, e com o seu filho. Fale um pouco desta família linda e unida que você construiu. 

 

Apesar de já ter saído bastante informação na mídia sobre a peça, gostaríamos de saber a sua impressão sobre esse trabalho? O que mais atraiu você nessa história?

 

Vocês oferecem uma interação diferente com o público, certo? Conte um pouco disso: ensaios abertos, tour pelos camarins. Isso foi uma estratégia de marketing ou uma forma carinhosa de presentear o público?

 

Velho Chico foi um sucesso! É verdade mesmo que as pessoas se incomodaram com a sua peruca? O que o Antônio Fagundes tem do coronel Afrânio?

 

A gente não pode esquecer que você também é garoto propaganda das Proibida! Inclusive estão falando por aí que a marca é machista. O que você acha disso? É cervejeiro? 

 

O que curte fazer no tempo livre, em São Paulo?

 

 

Cuida da saúde? Faz dieta? Prática esportes?

 

É Lava Jato, é Carne Fraca. Qual a sua opinião sobre o atual cenário do nosso país? Você é patriota? Tem esperança? É do tipo que não desiste nunca?



 

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