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Ana Paula Araújo Propõe Uma Leitura Ácida, Mas Necessária Sobre Abuso

Por Ester Jacopetti
Imagens: Leo Aversa

São décadas de luta! Mas a boa notícia é que alguns direitos foram conquistados, a duras penas, é verdade, mas a mulher está cada vez mais consciente do seu lugar no mundo. Direito ao voto; direito ao divórcio; direito ao trabalho; direito a retardar ou dizer não à maternidade; direito de dizer não ao que a oprime. Ainda há muito a ser feito. No mês de março, especial por comemorar o Dia Internacional da Mulher, a TUDO preparou uma entrevista exclusiva com a jornalista e apresentadora de um dos jornais mais importantes do país, o Bom dia Brasil.
Ana Paula Araújo lançou recentemente o livro ‘Abuso – A Cultura do Estupro no Brasil’, um assunto difícil de discutir, não só para a sociedade como um todo, mas para as mulheres e crianças que passam diretamente por isso. Com uma estrutura simples, mas com uma profundidade ímpar, Ana Paula rompe o silêncio e fala com vítimas e abusadores, tudo com muita precisão para dar luz a essa discussão.
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A violência contra mulher é um problema estrutural e esse assunto diz respeito também aos homens. Investigando e falando com especialistas sobre este assunto para o livro ‘Abuso – A Cultura do Estupro no Brasil’ -, qual seria o melhor caminho, pensando num processo a longo prazo, de como reeducar os homens?
Informação. Nossa cultura é extremamente machista. Temos um conjunto de pensamentos e atitudes entranhados que acabaram criando uma sociedade onde a violência sexual é normalizada. Inclui ideias equivocadas, como a de que a vítima pediu, de que homem é assim mesmo, que não é tão grave assim, de que é fácil esquecer. É reflexo de uma cultura que dita que o homem é superior, mais importante, que o desejo dele é que tem que ser levado em conta sempre. Começa desde cedo, quando ensinamos que meninos são fortes e meninas são delicadas, que meninos devem ser agressivos e meninas ficam na retaguarda deles, que tarefas de casa e filhos são funções só das mulheres.

Foto: Leo Aversa

Em relação ao assassinato de Ângela Diniz em 1976, durante o processo, o advogado alegou que Doca Street agiu em legítima defesa da honra. Depois de 45 anos, ainda vemos homens sendo absolvidos pela justiça, que também é, na sua maioria, dominada pelo sexo masculino. Qual seria a importância de ter mulheres à frente do sistema judiciário neste tipo de crime?
Delegadas e delegados deveriam ter uma formação em violência de gênero, para entender a gravidade da violência sexual e não deixar sua atuação profissional ser contaminada pelos preconceitos que temos na sociedade como um todo. Além da falta de investigação dos crimes de estupro, não é raro uma vítima procurar uma delegacia e ser recebida com descrédito ou mesmo com deboche. Apenas sete por cento dos municípios brasileiros têm delegacia da mulher, que conta com um atendimento mais acolhedor. E, mesmo assim, a maior concentração é pelo sudeste, especialmente em São Paulo, o que significa que há verdadeiros desertos de atendimento à mulher em outras regiões do país.

“Nossas mentes estreitas sequer são capazes de compreender tudo o que poderíamos ganhar se as mulheres fossem livres para se desenvolver sem medo”. Essa frase é a abertura do seu livro.
Me sinto uma mulher mais consciente de como a violência sexual faz parte da vida de todas nós desde muito cedo e como isso tudo tira a nossa liberdade. Vivemos uma vida com medo, tentando nos proteger de ataques ou investidas inadequadas. Me tornei mais disposta a lutar para que todas nós tenhamos uma vida com mais respeito e mais dignidade.

Durante as pesquisas para o livro, você comentou que foi duro resgatar as próprias lembranças. Você diria que este projeto, de alguma forma, te ajudou a superar o que você passou na infância?
Tive que voltar para a terapia. Foi muito duro dar de cara com minhas próprias lembranças e perceber como o abuso sexual, ou a ameaça dele, influencia a vida de todas nós, mulheres. Como passamos a vida fugindo de abusadores, o medo constante, a impotência mesmo diante dos ataques menos graves, dentro do transporte público, por exemplo. Por isso resolvi escrever o livro. Porque chega!

Quando o Estado falha, como foi no caso de Mariana Ferrer, como é possível falar para essa vítima que elas devem confiar nas instituições?
Leis não resolvem tudo e líderes não ditam as regras para todos, mas são parâmetros fortes que guiam e validam muitos dos comportamentos presentes na sociedade. O que se espera e deve ser cobrado das nossas autoridades, em todas as esferas, é a total intolerância com o crime e com o desrespeito.

Foto: Leo Aversa

Quais foram as dificuldades que você encontrou? Digo, para conseguir entrevistar, fazer com que as vítimas e criminosos falassem sobre o assunto. O que tirou o seu sono?
Concluir que a maior parte das vítimas são menores de idade foi um baque. Não esperava ter que falar de abuso sexual contra crianças, achei que era outra questão. Mas elas são as principais vítimas. E não por um surto de pedofilia, que é um distúrbio psiquiátrico relativamente raro. A maioria dos abusadores de criança não sofre de nenhum transtorno mental que possa, inclusive, servir de atenuante. São simplesmente criminosos, covardes que se aproveitam da vítima mais fraca, mais fácil de dominar, seduzir e ameaçar, e que normalmente estão dentro de casa.

Num documentário recente da Netflix – O Estripador – a imprensa local trata a morte de prostitutas com banalidade. Como você avalia a cobertura jornalística nos dias atuais?
A imprensa faz parte da sociedade e vai evoluindo junto ela. Da mesma forma que, hoje, todos nós procuramos refletir sobre a violência contra a mulher focando mais no criminoso e menos na desqualificação da vítima, que é como deve ser, a imprensa também passa por esse processo. Acho que é uma autocrítica da sociedade como um todo. E eu vejo hoje, sim, a cobertura da imprensa muito mais correta, muito mais humana e muito mais preocupada com as questões de violência de gênero.

Foto: Leo Aversa

Aos poucos as mulheres estão conquistando seu espaço. Apesar de ser um pouco distante, o Senado da Argentina aprovou, recentemente, a legalização do aborto no país. Um direito que cabe a mulher escolher sobre o seu corpo. O que você acha que falta para que o Brasil também tenha a mesma postura? Aliás, você é contra ou a favor do aborto?
Eu sou completamente a favor de que se lute para cumprir o que está na lei. Nós temos uma lei no Brasil que prevê o chamado aborto humanitário em casos de risco para a vida da mãe, em caso de bebê anencéfalo e em caso de gravidez decorrente de estupro e, somente neste último caso, há um preconceito gigantesco com relação ao aborto. É um direito das mulheres e elas têm que peregrinar para conseguir; muitas vezes, são enroladas em unidades de saúde por maus profissionais e acabam não conseguindo ter esse direito respeitado ou sofrem muito até consegui-lo. Então, antes de qualquer outra discussão, eu acho que a gente tem que, primeiro, focar em dar atendimento correto, porque nem o que está na lei a gente consegue cumprir hoje no Brasil. A nossa grande luta tem que ser para que as vítimas de violência sexual tenham todos os seus direitos garantidos, de atendimento, de acolhimento, e, inclusive, de aborto legal o mais rápido possível, quando for o caso.

Ana, da última vez que nos falamos você comentou sobre um novo livro onde pretende abordar a violência doméstica, discutir sobre a desigualdade de gênero. Como estão as pesquisas sobre o assunto? Você tem ideia do tempo que levará para fazer este livro?
É outro assunto que faz novas vítimas mulheres diariamente e precisamos falar sobre isso. Precisamos lutar para que as mulheres tenham mais proteção, apesar dos avanços da legislação. Ainda vemos muitos casos de agressão, de feminicídio, geralmente praticados por maridos e ex-maridos. Esse será o próximo livro e espero completá-lo mais rapidamente, aproveitando todo o conhecimento e a experiência que adquiri com o primeiro. Espero estar com ele em mãos em breve para podermos levantar juntos esse debate.

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