Há algo de profundamente curioso, para não dizer tragicômico, no comportamento da fauna fashionista durante as semanas de moda ao redor do mundo. Não, não estou falando das passarelas. Estou falando do espetáculo paralelo, aquele que acontece na calçada, na porta do desfile, na fila do café superfaturado e, claro, no feed do Instagram: o teatro das roupas inexplicavelmente “conceituais”.
Porque vejamos: se você já é fashionista, teoricamente já chegou lá, não? Já tem o carimbo invisível da aprovação estética. Já entende de corte, caimento, referência, tendência e, o mais importante, sabe diferenciar um arquivo vintage de uma peça que parece-vintage-mas-foi-comprada-ontem-por-um-valor-obsceno. Então, por que, em nome de todos os tecidos nobres, surge essa necessidade quase espiritual de se vestir como um experimento social ambulante?

A resposta curta: atenção.
A resposta longa: atenção, mas com uma camada generosa de validação, ego inflado, algoritmo e um leve tempero de desespero criativo.
Existe um paradoxo delicioso aqui. O fashionista trabalha (ou finge trabalhar) para marcas que passam meses definindo tendências, estudando comportamento, refinando coleções para serem desejáveis, usáveis, vendáveis. E então, no grande momento “o desfile”, ele aparece vestido como se tivesse perdido uma aposta com o próprio guarda-roupa.
É como se dissesse: “Sim, eu ajudei a criar isso tudo… Mas, pessoalmente, prefiro parecer um conceito abstrato.”
Há uma lógica nisso? Estranhamente, sim.
No universo da moda, ser visto é tão importante quanto entender. E, convenhamos, um look perfeitamente elegante raramente viraliza. Já um casaco que parece ter sido costurado a partir de uma cortina barroca em crise existencial… Esse sim, tem potencial. O exagero virou linguagem. O estranho virou estratégia. “O que é isso?” virou elogio.

Mas há também um certo cansaço silencioso pairando no ar (e não é só o salto 15). Porque, no fundo, muitos desses looks não são expressão: são performance. Não comunicam estilo pessoal, comunicam esforço. E esforço demais, na moda, quase sempre denuncia insegurança disfarçada de ousadia.
A grande ironia é que o verdadeiro estilo, aquele que atravessa décadas, inspira sem gritar e permanece elegante mesmo fora do hype, nunca precisou berrar por atenção. Ele sussurra… Ele se sustenta! Ele não depende de um casaco inflável ou de uma bolsa que claramente não cabe absolutamente nada, exceto a própria ideia, ou, no caso das maxi-maxi bolsas, o ego.

Então, sim: é perfeitamente possível ser fashionista sem parecer que você caiu dentro de um moodboard em colapso.
Aliás, talvez isso seja o novo luxo.
Vestir-se bem, com inteligência, com humor, com personalidade, sem precisar transformar cada aparição pública em uma instalação artística ambulante, é quase um ato de rebeldia hoje. É dizer: “Eu entendo a moda o suficiente para não precisar provar isso o tempo todo.”
No fim das contas, a pergunta não é por que os fashionistas usam roupas esquisitas. A pergunta real é: quando foi que parecer confortável na própria estética se tornou menos interessante do que parecer interessante a qualquer custo?
Talvez, no próximo desfile, o look mais revolucionário seja justamente aquele que não precisa explicar nada.
E isso, convenhamos, seria um verdadeiro escândalo.
Quer falar com o colunista?
[email protected]







