BAB 2026: biomas que refletem o jeito de morar do brasileiro
Projetos selecionados apresentam a conexão entre materiais, cultura e sustentabilidade
A Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB) que aconteceu no Parque Ibirapuera, em São Paulo, de 25 de março a 30 de abril de 2026, teve o propósito de reposicionar a arquitetura no imaginário cultural brasileiro. A mostra realizada no Pavilhão da Cultura Brasileira (PACUBRA) foi composta por ambientes inspirados nos biomas do país, reunindo interpretações contemporâneas sobre o morar em diferentes territórios e propondo uma relação mais cotidiana, sensível e cultural com os espaços.
Confira abaixo algumas das propostas e veja com qual você se identifica.
. CEARÁ/BIOMA CAATINGA: “É o Mar”, do escritório Ark Arquitetura e Interiores
A arquiteta Larissa Lima projetou uma instalação de 100 m² que recria uma moradia contemporânea completa e convida o visitante a percorrer os espaços como quem atravessa uma casa real a partir da relação do povo cearense com o mar. Essa referência aparece na luz natural, na fluidez dos ambientes, na escolha dos materiais e na forma como a casa se organiza, criando uma arquitetura guiada pelo clima e ritmo do litoral. “Pensei em ambientes claros e acolhedores. Se eu tivesse que escolher uma casa para morar, seria uma que fizesse sentido na rotina e trouxesse aconchego no dia a dia. Quis trazer um pouco do mar, dessa simplicidade e organização que a arquitetura pode oferecer”, resume Larissa.
É nesse contexto que surge a “Casa de Maria”. O nome representa as mulheres cearenses, figuras centrais na construção do lar e na transmissão de saberes. Aqui, essa relação com o território se traduz no cotidiano, no cuidado e na forma de habitar, conectando o conceito do projeto à vida real.
Com varanda, salas de estar e jantar, cozinha, escritório, quarto com suíte e área de serviço, o projeto revela como o contexto influencia o modo de viver. A arquitetura incorpora soluções adaptadas ao clima, como ventilação cruzada, sombreamento e o uso de materiais naturais, criando espaços mais frescos, fluidos e alinhados à rotina.
. GOIÁS/BIOMA CERRADO: “A casa de Amélia”, por Bendito Traço Arquitetura (Mara Sandra e Luyara Godoy)
A forma como escolhemos os materiais define não só a estética, mas a atmosfera, o ritmo e a experiência do espaço. É na textura, no peso, na cor e na maneira como cada elemento se encontra que o projeto ganha corpo e coerência.
As arquitetas se inspiraram na trajetória de uma mulher que, ao chegar jovem ao Estado, construiu sua vida a partir do cuidado e do afeto. A proposta traduz em espaço a simbologia da cozinha como lugar de encontro. É ali que o gesto cotidiano ganha significado: a panela como extensão das mãos, o doce como linguagem e o compartilhar como forma de permanência. O projeto reconhece o fogo como elemento estruturador, não apenas físico, mas também sensorial e cultural.
A materialidade desta proposta foi traduzida através dos revestimentos, dos itens decorativos de barro, que remetem a terra e ao caráter seco do cerrado, assim como do painel inspirado na taipa, que atravessa toda a lateral do espaço. A proposta se completa com a inclusão de obras de diversos artistas e designers goianos, trazendo uma diversidade de produções locais para o projeto.
. MARANHÃO/BIOMA CERRADO: “Raiz e Trânsito – Casa Pedro Neves”, por Larissa Catossi e Guilherme Abreu.
O projeto engloba arquitetura, arte e sinalização, ancestralidade e o potencial cultural do Maranhão em uma atmosfera acolhedora e calorosa, criando a sensação de um lar, um arco de refúgio, presença e permanência.
A paleta cromática se ancora no azul e no vermelho, cores da bandeira do Maranhão, que percorrem o espaço como símbolos de identidade e pulsação. O azul, em nuances que dialogam com o mar, o céu e os azulejos de São Luís, remetem a travessia, fluidez e herança cultural. O vermelho intenso e vibrante traz energia, ritmo e vitalidade, evocando as manifestações populares a força coletiva que marca este Estado.
No centro da sala de estar está uma grande escultura-instalação que se estabelece como o coração simbólico do espaço. Inspirada nas matracas do Bumba Meu Boi, a obra reinterpreta o instrumento popular numa linguagem contemporânea.
O aço inoxidável, em contraste com o barro, surge como uma metáfora da contemporaneidade e da migração. O encontro entre materiais distintos não provoca ruptura, mas coexistência, revelando a beleza que emerge do contraste.
No banheiro há uma máscara de Mestre Zimar, que atua como um guardião simbólico, estabelecendo uma ligação direta com a cultura popular, a ancestralidade das narrativas coletivas que atravessam o mesmo espaço. Nas paredes, as obras originais de Pedro Neves exploram a geometria.

. MINAS GERAIS/BIOMA CERRADO: “Casa Adélia Prado, Minas Gerais como poesia”, por Marina Reis Arquitetura e Design
Inspirado na obra e no olhar da poetisa, a “Casa Adélia Prado traduz a delicadeza do simples, a força do silêncio e a beleza do que é vivido todos os dias. Aqui, o extraordinário mora no ordinário.
O projeto da Casa partiu da seguinte pergunta: como seria transformar a poesia de Adélia em arquitetura?
O visitante foi convidado para uma imersão no jeito mineiro de morar: a caminhar sem pressa, observar texturas, luz e sombras e reconhecer o afeto nos detalhes. Assim poderia se sentir em casa. Cada escolha — do material ao mobiliário — carrega intenção, narrativa e pertencimento.
O partido do projeto surgiu do que Adélia mais valoriza, a cozinha como o coração da vida, o pátio como silêncio fértil, o lugar da palavra como espaço de fé e introspecção. A arquitetura é térrea, acolhedora, sensorial.
A luminosidade é outro ponto de destaque, como um fio condutor de toda a proposta. Aqui os cobogós favorecem a ventilação natural do espaço. ”O vento passa, a sobra abraça, a matéria respira”, como define Marina Reis.
Cada ambiente foi desenhado como um verso. Na cozinha, o fogão a lenha – que tanto representa a culinária mineira – está no centro da Casa, onde a vida acontece devagar. O pátio interno é o lugar do encontro, das conversas ao pé do ouvido, onde a luz toca a terra e tudo fica em silêncio. O quarto e o espaço da escrita acolhem o corpo e a palavra. Revestimento de terra, cerâmica artesanal, madeira pintada de azul, cobre e pedra sabão convivem em um contraste suave entre o rústico e o contemporâneo. É uma casa que não se impõe, mas que acompanha o ritmo do dia. É uma declaração de afeto ao cotidiano, uma homenagem à Adélia, às mulheres mineiras, à poesia que mora nas pequenas coisas. É um lembrete de que habitar também é sentir e que a arquitetura também pode ser abrigo, memória e poesia.
Legenda foto abre: A mostra foi composta por ambientes inspirados nos biomas do país
Silvia Celani é jornalista e especialista em arquitetura
Cel.: (11) 98411-9575







