“As pessoas gostam de coisa boa, mas precisam ter acesso”, afirma o granjeiro Felipe Ávila

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Felipe Ávila (64) me recebeu em sua casa (virtualmente), com um café fresco de boas vindas e um sorriso no rosto. O músico trocou o caos da capital paulista pela paz e calmaria da Granja Viana há mais de 30 anos. Hoje, apesar da região ter passado por muitas mudanças, nem sempre positivas, ele afirma que não deixaria sua casa por nada.

Confira a seguir um pouco da história de Felipe; compositor, instrumentista, arranjador e também professor. Saiba detalhes sobre sua trajetória musical e suas – fortes – opiniões sobre o consumo da cultura no Brasil.

O filho caçula

Desde pequeno Felipe esteve imerso no universo musical, seus pais e os quatro irmãos mais velhos sempre tiveram um relacionamento sério com a arte.

“Na minha casa, todo mundo tocava e era “obrigado” a estudar música”, comenta. “Eu fui o único que não foi obrigado a estudar e virei músico profissional!”

Aos 11 anos Felipe já integrava uma banda, cantava na escola e em vários espaços, até em programas de televisão. Já passou por festas escolares e infantis e começou a dar aula aos 14 anos! Desde então, nunca mais fez ou trabalhou com outra coisa: a música sempre foi, e ainda é, seu maior refúgio.

Na década de 80, fez parte do grupo instrumental “Sexo dos Anjos”, ao lado de músicos como Luiz Brasil, Cid Campos, Xico Carlos, Guelo dentre outros, que marcaram o cenário vanguardista da capital paulistana. Alguns anos depois, o grupo se dissolveu, mas a relação de Felipe com a música persistiu.

Hoje, ele já tem oito CD’s lançados, seis autorais e dois de covers da homônima banda britânica The Beatles, disponíveis em todas as plataformas de streaming. Felipe participa de uma série de editais públicos que viabilizam a cultura na cidade de Cotia e no estado de São Paulo, ministra aulas de música e participa de eventos na região. O músico também mantém um canal no YouTube atualizado com suas apresentações.

Flyer de um dos shows que Felipe fez durante a pandemia – foto: SESC SP

A chegada à Granja Viana

Queremos te conhecer melhor! Quem é o Felipe Ávila? Como você veio parar aqui [na Granja]?

“Quando minha irmã casou, ela veio morar aqui, em uma chácara.. Poucas pessoas viviam na Granja Viana na época, como vinha muito para cá, acabei conhecendo a Granja”, relata Felipe.

Na época, ele morava na capital paulista, na região do Largo da Batata, e vivia rodeado de amigos e conhecidos, que apareciam na sua casa o tempo todo. Apesar de se divertir com a “muvuca“, o cantor por vezes se via sem privacidade; pois queria estudar e tocar suas músicas sozinho e nunca tinha tempo ou espaço para isso.

Quando sua irmã decidiu se mudar, surgiu a oportunidade perfeita.

“Aí eu vim morar aqui! Pensei “bom, aqui eu estou tranquilo, no mínimo alguém liga antes de vir e avisa”… Ninguém chegará de surpresa!”, conta Felipe, dando risada e finaliza: “Nunca mais voltei para São Paulo”.

Foi na Granja Viana que Felipe firmou raízes e estabeleceu sua carreira de sucesso, com uma vida mais tranquila e rodeado desta natureza exuberante.

Felipe Ávila – foto: arquivo pessoal

Marco na história da Granja

Felipe chegou às estradas de terra da Granja Viana fazendo barulho: ele foi um dos artistas a se apresentar no Cemucam, parque municipal conhecido na Granja, para um público de mais de 12 mil pessoas, em um evento que protestava contra a abertura de empresas siderúrgicas ao longo da Rodovia Raposo Tavares. Essa empresas se estabelecidas aqui, causariam grande poluição e destruiriam parte da área verde, assim como a saúde dos moradores.

“Nós tivemos o apoio de muita gente, foi um sucesso, tanto é que até hoje não tem esse tipo de empresa aqui na Raposo”, conta ele.

A Granja através dos anos

“A Granja mudou muito. Antigamente, eram pessoas mais engajadas e cultas, mais educadas”. As pessoas que vinham morar aqui queriam sossego, curtir a natureza.. Hoje o cara vem morar aqui e derruba tudo que tem de mato e árvore no terreno dele!”- afirma Felipe.

Com certa indignação e saudosismo, Felipe sente falta da “Granja raiz”, quando moradores da região se uniam para aproveitar a cultura local, incentivando comércios e artistas granjeiros. “Hoje, as pessoas vão aos lugares, mas não querem ouvir nada, ficam só conversando”, relata Felipe.

“Era gostoso se encontrar e ficar conversando… Não sinto mais aquele sabor da Granja de anos atrás. Acho que perdeu a originalidade das coisas, a educação e a gentileza”, conta ele. Felipe, porém, ainda prefere a Granja à São Paulo, e não trocaria sua casa rodeada de muito verde por lugar nenhum – e isso só a Granja oferece.

(A falta de) incentivo à cultura

Felipe conta que falta incentivo, tanto público quanto privado, que fomente a cultura nos locais. “Tem que ter estrutura, pagar o artista, conforto para o público, segurança, estacionamento adequado… É importante todo esse lado!”, conta ele. “As pessoas gostam de coisa boa, mas precisam ter acesso!”

Felipe ainda cita que faltam cachês adequados aos artistas, estrutura de palco e camarim decentes, além de som e divulgação apropriados, que comportem a qualidade do conteúdo entregue, valorizando o trabalho do artista.

Ele ainda vê um desinteresse cada vez maior do público, que já não consome conteúdo como antes. “As pessoas não querem raciocinar, pensar…querem ir no lugar em que está tendo um evento, mas ficam conversando e não curtem a cultura, o artista, a música”, relata ele.

Durante a pandemia, esse cenário se agravou ainda mais, já que as casas de shows e espaços públicos permaneceram fechados por meses a fio, impossibilitando os artistas de apresentarem seu trabalho. Felipe relata que, muitas vezes, os contratantes não oferecem pagamento pela apresentações virtuais, em formato de live. “Ninguém quer mostrar trabalho de graça”, frisa Felipe. Afinal, visualização não põe comida na mesa, não é mesmo?

Felipe Ávila quarteto em apresentação recente no SESC Consolação.

O futuro de Felipe Ávila

Para 2022, Felipe pretende continuar compondo novas músicas, mas primeiro quer trabalhar em cima de seus trabalhos recentes – como o álbum ‘Amazônia‘, gravado em parceria com Regis Gontigo. Ele planeja gravar uma segunda parte desse álbum, assim como novos CDs. “Pretendo sair tocando e fazendo shows. Quando a gente tem a oportunidade de nos apresentar, as pessoas gostam bastante”, afirma ele.

Além disso, Felipe aguarda o resultado de três editais públicos, que, caso seja contemplado, o levarão em uma turnê por vários palcos paulistas, da capital ao interior do estado.

Ele tem esperança de “dias melhores”, em especial nesse cenário de pós-pandemia, e uma maior qualidade de vida, que possibilite a ele, aos granjeiros e a todos viverem em segurança e em equilíbrio com a natureza.

Para mais informações sobre o trabalho do artista e contato para aulas particulares, acesse seu site profissional.

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