A beleza e simplicidade da atuação de Juan Paiva, o menino prodígio

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Entrevista: Ester Jacopetti
Introdução:
Mariana Marçal
Fotos:
Macio Farias
Stylist:
Paulo Zelenka
Make up:
Daianne Martins

Ator desde os 8 e pai da Analice aos 16. Tudo aconteceu muito rápido na vida de Juan Paiva. Talvez seja por isso que, aos 23 anos, consagrou-se como a grande promessa da televisão brasileira.

O sonho de ser um médico pediatra por conta das crises de asma que enfrentou quando criança, deu lugar ao talento, ao palco, à arte. Deu um lugar ao Sol, literalmente.

Foram alguns personagens até que Ravi pudesse conquistar o público do horário nobre e ser considerado um ator de representatividade. Jovem negro, pobre, criado na favela, filho do garçom Celso e a empregada doméstica Jacira, Juan e os dois irmãos mais novos cresceram em uma casa com parede chapiscada, com muita poeira e pouco recurso.

Depois de personagens em ‘Malhação’, ‘Totalmente Demais’ e outros trabalhos no cinema com destaque, claro, Juan Paiva cresce com Ravi em ‘Um Lugar ao Sol’ aos olhos do público que gosta de acompanhar a saga do bom moço, que ao lado do ator Cauã Reymond criaram uma atmosfera de uma amizade bonita, mas cheia de conflitos. Cria do Vidigal, como ele mesmo declara, Juan sabe da importância de comemorar e aproveitar a ótima fase, mas mantém os pés no chão e aprendeu que tudo na vida é passageiro.

Mesmo com a fama, continua morando na mesma comunidade e não pretende sair de lá tão cedo. “O Vidigal é um lugar superimportante na minha construção. Eu sou muito feliz em morar aqui”, conta.

Foi para perder a timidez que, aos 8 anos, Juan ingressou no curso de teatro no grupo Nós do Morro, no Vidigal, de onde saíram nomes como Thiago Martins, Babu Santana, Jonathan Azevedo e Roberta Rodrigues

Confira a entrevista que o ator concedeu à Revista TUDO com exclusividade.

Juan, eu gostaria de conhecer a sua história, sua infância com a família, em que momento da sua vida você se deu conta de que seguiria a carreira de ator e qual foi a reação dos seus pais/irmãos com a notícia?

Eu sou cria do Vidigal; comecei a fazer ‘Nós do Morro’ com oito anos de idade e foi, na verdade, para perder a timidez. A minha mãe queria que eu ocupasse a minha mente, queria que eu fizesse atividades depois da escola e me deu algumas opções como futebol, luta e teatro. Eu escolhi o teatro, de início, para me divertir e brincar. Até que, com dez anos, eu fiz o meu primeiro filme, ‘Cinco Vezes Favela – Agora por Nós Mesmos’ (2010) que foi quando comecei a acreditar que essa diversão poderia ser um trabalho. Os meus irmãos eram muito novos para entender, mas os meus pais sempre me apoiaram, mesmo antes de surgir o primeiro trabalho. Eu já tinha feito práticas de montagens, peças de teatro de fim de ano para a família, e os meus pais sempre estiveram presentes.

Para complementar essa pergunta, muitos atores recebem “nãos” no início da carreira; como foi esse processo com você, como você lidou com os desafios da profissão?

Eu nunca me frustrei. A minha mãe e o meu pai sempre estiveram comigo me dando apoio. “Se não rolar esse, vai rolar outro; relaxa; serve de aprendizado; é assim que funciona; se prepara para o próximo”. Em algumas situações eu ficava chateado, mas era momentâneo; em outros eu entendia melhor e talvez não estivesse realmente preparado para aquilo. E seguia para o próximo, sem problema nenhum. Sempre rolou desse jeito, sempre rolou um diálogo entre mim e a minha família.

Falando um pouco sobre a sua infância no Vidigal, no Rio de Janeiro, de que maneira a comunidade moldou a sua identidade e te influenciou a ser quem você é hoje e a maneira como você pensa e se comporta?

A vivência na comunidade já traz um pé no chão, uma humildade. Eu fui criado brincando na rua, estudando no morro, com todo mundo se conhecendo. Foi importante para minha construção como pessoa, para eu entender quem eu sou. Essa vivência de brincar na rua, de pique-pega, jogar taco com os amigos, de ir à casa da tia que mora ali, de fazer um favor pra mãe, de comprar pão na padaria, isso ajuda muito na relação com as pessoas. O Vidigal é um lugar superimportante na minha construção. Eu sou muito feliz em morar aqui.

Como artista você deve assistir TV com um olhar diferente do telespectador. Como é esse olhar e o que você aprende observando o trabalho de colegas?

Eu tenho um olhar muito crítico sobre mim. Sempre busco aprender coisas novas; observar o trabalho dos colegas é um detalhe que faz toda a diferença. Eu adoro assistir o trabalho deles porque eu vou me alimentando e pegando um caminho que eu não tinha pensado ainda e, quando a gente conhece o outro e se encontra, a gente fala: ‘Pô cara, você me inspirou nisso; você levou uma cena para tal caminho que eu não tinha pensado antes que seria válido e interessante’. É uma troca de ideias. Eu estou sempre aberto para aprender, dialogar. O caminho é esse. Estar sempre aberto para discutir, opinar, observar e ensinar.  Eu sou bastante crítico comigo mesmo, mas estou sempre aprendendo e buscando o que pode ser bom para a minha construção e o que posso fazer de diferente.

Juan, você tem apenas 23 anos de idade, está no auge da sua carreira e fazendo um sucesso enorme com o Ravi em ‘Um Lugar ao Sol’. De que maneira você encara essa nova realidade, de ser reconhecido nas ruas, de ter o trabalho reconhecido?

Eu fico muito feliz; estou adorando esse momento; as pessoas conversam comigo na rua e é engraçado quando elas não sabem diferenciar o ator do personagem. Uma moça me parou na rua e começou a criticar a personagem da atriz Lara Tremouroux, a Joy. Ela disse: “Poxa Ravi, manda aquela mulher embora cara, ela é assim e assado, você não merece isso” (…) Eu falo: ‘poxa, mas não sou eu, é o Ravi (risos), é só uma história’ (…) A gente começa a rir e se divertir e comentar sobre a novela. Esse carinho do público, essa relação com as pessoas que, em sua maioria, eu nunca vi na vida, imediatamente a gente estabelece uma relação, uma conversa. É muito bacana, mas muito novo pra mim, quer dizer, eu já passei por situações assim, mas cada trabalho é um trabalho, né? Com este é diferente pela história do personagem mesmo. A galera sente as dores do Ravi e isso é muito bacana. Eu fico feliz com o que vem acontecendo que é uma consequência do meu trabalho. Eu entendo que tudo é passageiro, momentâneo. Eu gosto dessa relação, dessa conexão; acho bacana e estou feliz pra caramba.

O Ravi foi desenhado como um bom moço, mas assim como todo mundo, ele também tem seus defeitos que ainda não apareceram. Como você acha que as pessoas irão reagir quando ele cometer os primeiros deslizes, já que o telespectador confunde muito o ator do personagem?

Eu não sei cara, mas eu acho que as pessoas, vendo que ele está com esse papel de bom moço, pode ser que talvez se decepcionem, mas acho que é entendível que todos os personagens são seres humanos e todo mundo está exposto ao erro o tempo todo; são os erros que nos levam a aprender. Eu acho que as pessoas não irão pesar a mão nele não. Irão procurar entender, se esse momento chegar na trama. Tudo que o Ravi faz tem um propósito, nada é em vão, nada é para sacanear; ele faz mais para se defender.

A sua parceria com o Cauã [Reymond] tem sido impressionante, a gente acredita nessa amizade e nesse amor incondicional que vocês dois estabeleceram em cena. Mas eu gostaria de entender de que maneira vocês trabalharam fora das telas para que isso fosse possível?

O Cauã é muito gente boa, um cara que eu admiro pra caramba. Ele foi muito generoso comigo, de cara rolou uma conexão muito bacana, um jogo de cena interessantíssimo; no primeiro dia fizemos um improviso que valeu muito a pena. Somos amigos até hoje, mandamos mensagens um para o outro, ligamos, conversamos muito. Ele é um cara muito inteligente, muito sábio, de muita experiência de vida. Foi muito maneiro trabalhar com ele, curti pra caramba.

Falando sobre essa amizade, na vida real você também tem um amigo como o Renato? Um que você tem uma história de vida?

Eu tenho um amigo que cresceu comigo no teatro e até hoje nos falamos. Ele é o meu vizinho, um cara que eu confio, um ser humano incrível que eu admiro muito pela personalidade. A vida, às vezes, leva a gente para outros caminhos e nos afastamos das pessoas, mas depois a gente se reencontra e a conexão continua sendo a mesma.  

Sobre paternidade. O futuro dos filhos é uma preocupação constante, ainda mais com problemas como: violência, intolerância, falta de empatia e etc. Como você se sente sendo responsável por passar não só amor, mas valores éticos para a sua filha que já tem sete anos de idade?

Cara, eu procuro sempre dar amor, carinho e afeto para estabelecermos um lugar de confiança, assim, quando ela estiver nos momentos de fragilidade, se sentir fraca ou na solidão, saberá que eu estou aqui, que a mãe dela está aqui e que estamos todos juntos. É explicar como a vida é; que existe sim a violência, a intolerância, mas que tudo isso não pode deixar ou impedi-la de viver a vida. Entender que é um passo de cada vez e que as muralhas vão aparecer, mas que servem para nos tornarmos mais fortes, crescer e amadurecer.

Quais projetos você planeja para este ano? Já pensou em estrear uma peça, um filme no cinema ou quem sabe um novo personagem em uma nova trama na TV?

Na verdade, tem alguns trabalhos em vista no cinema. Mas neste momento estou de férias. Estou procurando dar um tempo para mim e para a minha família, pra quando eu voltar às atividades, voltar com força, descansado e pronto para o trabalho. Obrigada pela oportunidade de poder falar, fico feliz pra caramba. ‘Tamo junto‘!

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