Além das palavras mágicas

Por Adriana Rodrigues Xavier

Soube de uma história há alguns dias que aconteceu aqui mesmo no nosso lindo bairro da Granja Viana. A filha chegou em casa e encontrou seu pai de 75 anos cabisbaixo, triste e choroso. Ao questionar sobre o que havia acontecido, ele contou com a voz embargada, que estava pronto para entrar com seu carro em um estabelecimento de uma das movimentadas ruas da nossa região quando outro motorista, impaciente e irritado por ter que esperar atrás dele, ao desviar, não se contentou em seguir seu caminho, mas se prestou a abaixar o vidro e ofender contundentemente aquele senhor. A filha indignada, consolou o pai e perguntou mais detalhes. O pai não queria repetir os xingamentos e passou o dia contrito, machucado, humilhado e constrangido.

Alguém poderia dizer que isso não é nada, que não se deve ficar ofendido por palavras soltas ao vento, ainda mais quando elas provém de alguém que nem sequer conhecemos. Somos tendenciosos a minimizar os sentimentos, claro, não devemos potencializar essa dor, sim, concordo, devemos levantar a cabeça e blá, blá blá… Mas peço a atenção de vocês para que a cada dia não nos acostumemos com nada menos do que a cordialidade, o respeito, a consideração pelo outro. Marcelo Cunha, querido educador, inspirador, escritor que trata das infâncias, disse certa vez em suas redes sociais:

“É preciso ensinar empatia, antes daquelas palavrinhas mágicas”. 

Desde cedo, ensinamos nossas crianças a pedir por favor, dizer obrigado, me desculpe, e,  muitas vezes, quando essas palavras não aparecem no discurso dos pequenos, os questionamos, dizendo algo como:

“Ah, você esqueceu da palavra mágica”?

“Como é que a gente pede mesmo? Por fa…”

As nossas crianças aprendem vivendo experiências de convivência – observando os adultos de referência – e ampliam seus vocabulários e praticam ações, tendo como inspiração os contextos cotidianos em que vivem, na escola, na família e onde quer que estejam. Crescemos e aprendemos que devemos dizer bom dia, até logo, desculpe, com licença e outras saudações, mas, vou além diante dessa premissa para que, de fato, nossas ações sejam condizentes com nosso lindo discurso, seja na fila do mercado, no trânsito, na sala de espera do médico.

Ao longo de um dia todo temos muitos encontros com pessoas queridas e amigos, mas, também passamos por outros que nem sempre enxergamos. Estou escrevendo esse artigo, com minha porta da sala aberta, ao som do varrer do simpático e solícito jardineiro do meu condomínio:

“Seu João, bom dia! Quer um copo d ‘água?

Ele sorri, tira o chapéu da cabeça, limpa o suor com o pano que estava nos ombros e responde:

“Ah muito obrigado, vou aceitar sim senhora”.

Tem um livro tão querido de uma excelente dupla, Tino Freitas e Odilon Moraes, chamado “Os invisíveis”. Em resumo, ele conta a história de uma menina que tem um dom muito especial que é enxergar as pessoas que ninguém consegue ver.
Leitura imperdível, formadora, reflexiva…

O que estamos ensinando aos nossos pequenos cidadãos? O que eles têm observado? Dentro e fora de casa?

Nosso bairro é procurado por oferecer uma vida melhor, com mais natureza, no interior, não é mesmo? E sabemos que temos tantos desafios, envolvendo inclusive, o trânsito ou questões de segurança, no entanto, vamos tentar respirar e recalcular as rotas.
Não dá mais para tolerar desrespeito, preconceito, ódio e não estou falando dos movimentos que tanto lutam, sofrem e resistem a uma sociedade cruel, como os nossos indígenas, negros, mulheres e tantos outros. Muito ainda temos que fazer e persistir para que todos possam ter dignidade, serem visíveis e valorizados. Desta vez estou falando apenas  de um senhor anônimo, comum, que ainda está lutando pelo seu sustento e da sua família.

O melhor que podemos fazer por nossos filhos hoje é ensinar empatia! Temos um lindo lugar pra viver, com pessoas incríveis e eu tenho esperança de que podemos ser melhores, mais cuidadosos, ocupar nossos  espaços com mais leveza, amor e consideração.

Vamos colecionar boas histórias do dia a dia e voltar pra casa com o coração em paz.

Aquele senhor foi visível, quem o ofendeu, fez questão de olhar em seus olhos; mas, a dor foi invisível… A lágrima presa na garganta daquele homem é um gemido de uma sociedade doente que, muitas vezes, acha que a melhor solução é desistir.

Não!

Calma… Fiquemos bem!

Deixo três dicas inspiradoras para mergulharmos nesse debate: o livro Os invisíveis, de Tino Freitas e Odilon Moraes, o livro Educação para Além da Escola, de Marcelo Cunha Bueno, e um Projeto super inspirador do querido André Soler, que amplia nosso olhar para as causas que ninguém vê.

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