Entrevista: Ester Jacopetti // Introdução: Mariana Marçal
Imagem: Gabriela Schmidt
Camila tem doçura no nome! Pitanga vem da arte! Engajada em causas que defendem os direitos das mulheres e embaixadora nacional da ONU Mulheres, Camila Pitanga é o nome artístico de Camila Manhães Sampaio, filha do ator Antônio Pitanga e da atriz Vera Manhães; Camila, assim como o irmão, o também ator Rocco Pitanga, foi criada pelo pai após o divórcio do casal.
Formada em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, sua primeira aparição aconteceu aos seis anos como figurante no filme “Quilombo”, de Cacá Diegues, no qual o pai atuou. Aos 11, tornou-se assistente de palco de Angélica no “Clube da Criança”, na TV Manchete. No ano seguinte, começou a fazer aulas de teatro e, aos 16, foi escalada para a minissérie “Sex Appeal”, quando ganhou projeção nacional. O sucesso, no entanto, se consolidou em 2000 na pele da índia Catarina Paraguaçu, em “A Invenção do Brasil”.
Um de seus papéis de maior destaque na televisão foi o da personagem Bebel, uma prostituta em “Paraíso Tropical” (2007). Tanta sensualidade rendeu um convite para a Playboy, mas ela recusou!
Mãe de Antônia, namora o professor de filosofia Patrick Pessoa há cerca de quatro anos. A atriz, que costuma manter sua vida pessoal em baixa, faz poucas publicações com o parceiro, mas já revelou em uma entrevista que os dois moravam juntos.
Hoje, no papel de Lola, um verdadeiro furacão na Novela Beleza Fatal, do canal de streaming Max, Camila volta à TV e volta pra gente!

Como foi dar vida a uma personagem tão intensa como a Lola em “Beleza Fatal” e, ao mesmo tempo, participar de um projeto que representa um novo capítulo na sua carreira, levando a novela brasileira para o mercado internacional?
Eu poderia dizer que a Lola é uma mulher perigosa, histriônica e ambiciosa, mas, ao mesmo tempo, inteligente. Ela sabe rebolar, se organizar e se equilibrar no salto alto – e estou falando tanto no sentido literal, quanto no figurado. Ela é uma mulher que corre atrás do que acredita e do que quer, sem medir esforços. Ela atropela, mata, e faz coisas sórdidas se for preciso. No entanto, tem um humor e uma vontade de viver contagiantes. Mesmo tendo esse lado mais denso e, digamos, perigoso e terrível – porque, muitas vezes, ela é bem terrível. Pelo menos eu me apaixonei por ela enquanto estava fazendo. Não sei exatamente o que é, mas acho que ela se incorporou de alguma forma no meu corpo. Depois, levei um tempo para conseguir me libertar dela. Há momentos em que a gargalhada da Lola me faz rir, e acho que acabei carregando isso comigo. É isso: uma gargalhada de quem tem prazer, mas também de quem tem ferocidade. Ela é uma mulher ferina. É um orgulho enorme estar participando da primeira novela da Max. Acho que essa novela abre um mercado, é uma aposta.
Entendo que o Brasil é um farol de criatividade, de histórias, de personagens, de atores e atrizes.
É algo que parte do Brasil para o mundo. O poder de fazer um trabalho com essa vocação, de partir de algo tão singular e rico do nosso país para alcançar o mundo, é incrível. Eu nem sabia que a gente estava sendo lançado em tantos países. Eu, que já tenho uma trajetória na televisão, sinto como se estivesse recomeçando, começando um novo capítulo na minha vida. É uma novela em que eu acredito muito, e estou louca para ver como vai reverberar nos olhos e nas telas desse Brasil e, agora, do mundo.
Lola é quase uma sátira, digamos assim. Ela deseja o amor do filho, mas não consegue; quer ser amada e não consegue.

Como você fez para construir e achar esse tom equilibrado entre o histriônico e o sofrimento?
Foi um desafio. E acho que você leu muito bem a Lola. Para mim, foi muito importante aterrissar na verdade dela. Mesmo sendo uma mulher exuberante e histriônica, que tira sarro de tudo, eu precisei encontrar o coração dela. Um filme chamado “Um Lugar ao Sol”, um documentário de 2008, foi super importante para mim nesse processo. Assistir a esse trabalho foi muito interessante, porque, no início, eu achava tudo o que a Lola falava tão absurdo, tão fora de mim.
E, de fato, é. Mas eu precisava encontrar o coração dela. Então, lendo e relendo, está tudo no texto. O Rafa (Raphael Monte, criador e roteirista) é generoso em trazer a voz dela, mostrando um pouco dos antecedentes de uma vida marcada por violência, muito sofrimento e superação.
Foi sobre encontrar esse coração, sabe? Algo que pudesse ancorá-la, colocar os dois pés no chão para que, ainda assim, ela pudesse voar nos sonhos, nos devaneios, na loucura. Porque, às vezes, ela é louca e impiedosa. O objetivo foi emprestar a minha humanidade para a Lola.
Acho que foi isso que consegui. Eu realmente fiz esse trabalho. Tudo bem, ela está sendo terrível, tratando a criança como uma empregada, mas eu buscava entender. Ela está se preocupando, e isso tem a ver com quem ela é e como foi formada. Afinal, ela foi uma menina que trabalhou em casa. Então, como não a defender? Não teria como dar veracidade à personagem se eu não buscasse um ponto de vista humano. Eu fiz o meu dever de casa, como sempre faço em todos os meus trabalhos. Por conta própria, aluguei uma sala e ficava improvisando, eu me dediquei totalmente, aproveitei cada chance de ensaiar, burilar e improvisar o passado da personagem.
Muitas coisas já estavam no texto, mas eu fiz um trabalho de pesquisa aprofundado. Eu acordava todos os dias para malhar às 6h da manhã, porque a Lola tinha todo um lance de culto a um tipo de beleza, de corpo, de imagem, sabe? Então, eu malhava para dar o corpo à personagem. Depois, ia até Osasco para bater o texto do dia.

Como a colaboração com Mônica Albuquerque e a equipe impactou seu desenvolvimento como atriz e produtora executiva?
Acho que, entre os personagens icônicos e populares que são o coração desta novela, a Giovanna (Antonelli) é um pilar fundamental. Quando entendemos que ela faria parte da trama, foi um golaço! Que golaço quando a Mônica me deu essa notícia. Preciso externar minha gratidão a ela por essa nova etapa da minha vida. Foi ela quem me trouxe pela primeira vez para falar sobre a novela, sempre apostou em mim e enxergou que eu tinha, sim, vocação como atriz, mas também poderia usar minha expertise para outros voos, também como produtora executiva. Ela sempre me incentivou, me deu liberdade e respeito. Senti que a voz da Mônica valorizava minhas ideias e me permitia ter uma troca tão bonita como a que venho tendo nesta companhia. Preciso falar disso porque a gratidão pela vida se transformou em uma grande amizade. Ela é, absolutamente, o coração deste trabalho, deste projeto e desta chama que é Beleza Fatal.

O que tornou esse projeto tão especial para marcar o seu retorno às novelas e como foi trabalhar com a diretora Maria Médicis?
Se tem uma coisa que eu mais ouço por aí é: “Camila, quando você vai voltar às novelas?” Eu também estava esperando um projeto que realmente fizesse sentido para mim. Mas esse chamado, de entrar no táxi, de estar na praia ou na rua e ouvir as pessoas dizendo: “Cara, a gente tem muita saudade de você!” foi muito forte. Poder voltar com um trabalho que me desafiou, que me exigiu e que me fez feliz é incrível. Foi uma experiência divertida e respeitosa, com um diálogo e uma interlocução que são o coração da selva. Estar novamente com minha grande amiga, a diretora Maria, foi fundamental; sem ela, essa novela não teria acontecido. O profissionalismo, a garra, a alegria e a ousadia dela foram essenciais, porque essa novela é muito ousada, graças ao Raphael. Ele não tem medo de impactar e surpreender. É uma novela que realmente faz a ponte entre o folhetim tradicional que amamos e a modernidade, com 40 episódios sem enrolação, onde a trama avança e os personagens nos surpreendem de maneiras inesperadas. A modernidade que ele traz nas temáticas também é notável.

Como foi trabalhar com a Camila Queiroz neste projeto e de que forma essa parceria ajudou a construir a relação intensa entre as personagens na novela?
Quando reencontrei a Cami, ela me olhou nos olhos, senti vontade de chorar, porque isso me remeteu ao nosso primeiro encontro. Eu já conhecia Camila Queiroz, uma atriz talentosa e linda, mas estávamos improvisando em uma sala no Jardim Botânico, enquanto ainda engatinhávamos na nossa compreensão do trabalho. Ela estava gravando outra novela. Nossa, não sei como ela deu conta disso, porque estava fazendo três coisas ao mesmo tempo. Ela é essa mulher que é assediada por ser talentosa, por brilhar, essa pessoa que a gente gosta de mirar, de olhar. Ali, as duas estavam despojadas, sem maquiagem, de roupa de ensaio. Quanta coisa aconteceu nesse dia. Isso me deu uma confiança enorme por ter uma atriz que me apoia e uma pessoa que eu falo para todos os cantos. Desculpa me alongar nisso, mas eu sou movida pelo afeto; o afeto me leva, sabe? Então, quando tivemos esse encontro, ela me deu essa confiança por estar ali, porque é isso que a gente faz na novela: somos inimigas, mas enfim, ela é uma personagem chave pra mim. Sei que tem o elenco inteiro e toda essa constelação é muito importante, mas estou do lado de dois atores que me inspiraram. Sou muito grata por essa troca e por tudo que vivi. Eu li e sou da geração Jurássica, né? Faço parte do elenco da novela desde o início, e quando comecei a ler, não parei. Foi como uma torrente. Queria entender para onde aquilo ia, porque não dava para entender; você não sabe para onde vai em uma novela dessas, nem mesmo a Lola.
Como foi o processo de preparação e colaboração com seus colegas para alcançar esse nível de entrega e construção do trabalho no set?
Eu estava preparada para chegar com o texto decorado e jogar tudo de forma tranquila nesse processo braçal, que é decorar e internalizar o texto. Preciso agradecer às pessoas que me ajudaram antes de eu chegar ao set de gravação. Contracenando com os meus colegas, que foram verdadeiros parceiros de pesquisa e trabalho, percebo que nada vem de graça. Tudo é fruto de muita labuta, de esculpir o trabalho, de pensar estratégias.