Andréia Horta: leve como a vida tem que ser

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Introdução: Mariana Marçal
Entrevista: Ester Jacopetti

Fotos: divulgação

Quem nasce em Juiz de Fora é juiz forense. Mas também é gente boa, tem talento e exala aquele carisma mineiro que nó… não tem igual. Não teria lugar melhor para Andréia Horta ter chegado ao mundo – há exatos 38 anos – e nos ter presenteado com a generosidade da sua arte.

E quem está apaixonada pelo seu atual papel em horário nobre, acredite: foi vendendo comida que a nossa musa conseguiu sobreviver às dificuldades de um início de carreira, quando em São Paulo, aos 17 anos, veio estudar e buscar as tão sonhadas oportunidades na área artística.

Ela vendeu torta de carne – que confessou pro Jô Soares não ter dado muito certo – e bolo de laranja, que salvava as passagens de ida e volta para o teatro e ainda dava para um cafezinho.

Foi em solo paulista que ela estudou, mergulhou no palco e foi escrever poemas para continuar se sustentando. A atriz reuniu seus textos em Humana Flor – um livro de poemas – que tentava vender nas madrugadas da Rua Augusta, por R$ 7,00. Assim como os quitutes, o livro a ajudou a pagar as contas por um tempo. Saibam que uma nova edição saiu mais tarde, mais encorpada, com a ajuda de uma amiga desenhista.

Premiadíssima por interpretar a estrela Elis Regina no cinema, estreou na televisão em 2006 em uma participação como Márcia Kubitschek na minissérie JK. No mesmo ano se tornou uma das protagonistas de Alta Estação, Tatá, uma universitária temperamental e comicamente estressada.

Em 2014, viveu seu primeiro grande papel, na novela Império. A partir daí a vida artística foi ainda mais generosa com ela e os trabalhos não pararam de preencher a filmografia da atriz, que coleciona trabalhos marcantes nas telas e no palco. Até onde a gente sabe, essa leonina que nasceu para brilhar está solteiríssima. E veio até aqui compartilhar muita coisa legal com a gente. 

Podem amá-la agora, leitores.

Andréia Horta como Lara, de “Um Lugar ao Sol”

Em 2006, na minissérie JK, da TV Globo, fez sua primeira aparição na telinha interpretando a filha de Juscelino. Ela estouraria, porém, dois anos depois, na série Alice, da HBO.

Como foi para você gravar “Um Lugar ao Sol” durante a pandemia?

“Eu atuo desde criança, mas, sem dúvida, esse momento foi o mais desafiador, porque estávamos no meio de uma pandemia. Para retratarmos a relação da Lara e da Noca, por exemplo, que é de amor e de muito carinho, com abraços e beijos, nós ficamos estudando dentro do protocolo o que era o mais seguro. Ao mesmo tempo, atuar ganha outra dimensão. Muitas pessoas ainda estão em casa, o medo ainda está aí, e de repente você entende que precisa sair de casa, tem que atuar, contar histórias, falar das relações humanas, das desigualdades sociais num país como o nosso. Sair de casa com uma personagem tão íntegra, tão incorruptível como a Lara, faz tudo valer.”

Como você define a Lara e essa relação intensa que ela tem com a personagem da Marieta Severa, que interpreta sua avó na trama?

“A Lara ficou órfã ainda criança, quando os pais morreram em um acidente de carro, e foi criada pela avó materna, a Noca, personagem da Marieta Severo. A Lara é uma personagem muito bonita, com uma honra e uma integridade muito grande. Eu tenho muita alegria de estar interpretando ela neste momento da vida porque é muito leve, luminosa. A Lara e a Noca se amam e se bicam muitíssimo, porque a vó é uma perdulária, enquanto a Lara é supercertinha, supercorreta, tem valores inegociáveis. A Noca é uma personagem superousada. A Lara fez gastronomia, seguindo os passos da avó, que cozinha muito bem. A avó tem essa bandeira de reaproveitamento de alimentos, de não desperdiçar nada, tanto que elas vão virar sócias em um restaurante. Elas se amam profundamente, se aconselham, seguram a onda uma da outra e brigam também. Brigar faz parte do amor. E foi um prazer estar com a Marieta Severo. Chegou um momento em que a gente só se olhava e já sabia o que a outra estava pensando. Passamos a novela inteira juntas. Praticamente todos os capítulos têm as duas juntas.”

Vamos de spoiler: você comentou que a Lara tem uma leveza, apesar de tudo que acontece na vida dela. Depois de toda essa tragédia, como a personagem seguirá nesse reencontro com o grande amor de sua vida?

“Eu trabalhei com ela com muita delicadeza, até no sofrimento. Sempre tive personagens de temperamentos fortes, mas a Lara vem com sentimentos, talvez, inéditos para mim. Muito bom ter esses personagens para mostrar que eles existem. Ela é uma mulher corajosa. Quer muito viver aquele amor interrompido pela morte do Christian. Ela demora muito pra se levantar, se permitir a viver um amor do passado com o personagem do Danton Mello, mas quando se reencontra com o gêmeo vem tudo aquilo de novo, ela fica muito confusa.”

A cultura tem sofrido não só com os efeitos da pandemia, mas com a falta de comprometimento por parte do governo. Como você avalia este cenário?

“Essa é uma pergunta que eu faço para todos os cineastas que estão representando o cinema brasileiro. Eu acho que a minha resposta é a que eu acredito. Não existe uma sociedade sem arte e estaremos sempre envolvidos com ela porque estaremos expondo temas, discutindo assuntos, levantando desconfortos. Estamos num momento muito grave, atravessando este período há muito tempo e num momento em que o Brasil estava filmando demais; tínhamos todos os gêneros com filmes brilhantes no recanto baiano, em Minas Gerais, em Porto Alegre, no Pará, no nordeste; filmes feitos no Brasil com narrativas distintas, uma riqueza grande, mas, devido às impossibilidades de filmar, sem dinheiro, sem condições, sem políticas públicas (…).”

“O cinema sempre ressurgiu. Já passamos por momentos difíceis, mas, depois da avalanche, eu tenho certeza de que quando este inferno passar, vamos ter novas narrativas.

Precisamos olhar para o cinema brasileiro como quem olha para o próprio país, como quem olha para os seus núcleos familiares, para si próprio, porque é isso que o cinema faz. É uma construção de todos nós.

Essa treva pela qual atravessamos vai render muita narrativa, ainda que não literalmente sobre a pandemia, mas o que se passa com a gente neste momento. Desejo que unamos as nossas forças, a imprensa, a classe artística, os fazedores de cultura deste país. Que sigamos trabalhando em ações concretas para não deixar se apagar a cinemateca brasileira, pois temos muitas coisas graves acontecendo e precisamos agir, né?”

“Não existe uma sociedade sem arte e estaremos sempre envolvidos com ela porque estaremos expondo temas, discutindo assuntos, levantando desconfortos.”

Falando um pouco sobre cinema, seu último trabalho acabou de ser lançado, “O Jardim Secreto de Mariana”. Neste filme tem algumas cenas de nudez que, para atrizes, são sempre mais delicadas. Como foi pra você realizá-las?

“Sempre que estou diante dessas cenas, lendo o roteiro, me pergunto a serviço do que vamos colocar o corpo e a voz? Na verdade, de qualquer trabalho. Essas cenas estavam muito bem inseridas no que é a vida e o natural das coisas; elas estavam à serviço do fluxo natural da vida daqueles personagens, portanto, o corpo nu é um ato de amor. Era óbvio que precisava acontecer e nós conversamos muito com a direção, foi tudo muito confortável, muito seguro. Eu estava segura ao fazer. Foi de uma tranquilidade incrível. E trabalhar com o Sérgio (Rezende – diretor) – foi uma experiência maravilhosa, foi leve. Um convite para uma conexão com a natureza e o tempo.”

Lara (Andréia Horta)

Voltando um pouco à sua trajetória, um dos filmes que marcou muito a sua carreira foi ter interpretando Elis Regina, tanto no cinema como numa série para a TV aberta. O que você trouxe desse universo?

“Foi um divisor na minha carreira; eu penso muito sobre o que eu vou fazer quando digo sim para um personagem e questiono o que esse personagem pode me trazer. A coragem de ser quem eu sou e o entendimento de que se a gente não for quem a gente é, a gente vai ser quem? Eu acho que a Elis recusou – desde sempre – se encaixar em qualquer coisa que não fosse honesta a ela mesma. Esse foi um dos maiores aprendizados que ficaram deste trabalho. Vem uma admiração infinita, uma gratidão do universo em ter me permitido realizar um dos maiores sonhos da minha vida.”

No começo de fevereiro você vai estrear a quinta temporada de “O País do Cinema”, sendo a sua terceira temporada no comando do programa no Canal Brasil. Como tem sido essa experiência como apresentadora?

“É maravilhoso porque é muito rico, não só por ter que assistir aos filmes que eu já tinha visto, mas por poder assistir com um olhar para conversar com os organizadores, então, alarga muito a visão. Você passa a observar a direção de arte, a fotografia, o roteiro, a direção; me possibilitou conversar com os realizadores, com a galera que está fazendo o primeiro filme, uma galera da nossa geração, uma galera mais nova, uma galera de uma geração posterior a minha; conversar com diretores como o Júlio Bressane, Sergio Rezende e diretores que estão dirigindo o primeiro filme. É libertador fazer perguntas, é melhor do que ter que responder (risos).”

Novidade!

Andréia Horta vai interpretar Dona Araci, mãe de Chitãozinho e Xororó, na série As Aventuras de José e Durval, do Globoplay. A produção vai narrar a trajetória da dupla sertaneja desde a infância humilde. Na fase adulta, os protagonistas serão vividos, respectivamente, por Rodrigo Simas e Felipe Simas, que também são irmãos na vida real.

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