Quem sabe faz ao vivo – Por Adriana Rodrigues Xavier

Young artist sketching a figure in a Shinjuku atelier, Tokyo. Creative and focused atmosphere.

Li recentemente que um estúdio no Japão inseriu uma etapa no processo seletivo para novas contratações, exigindo que os candidatos desenhem ao vivo durante a entrevista. Essa medida foi tomada para que os profissionais tenham certeza de que os desenhos não foram gerados por Inteligência Artificial. Apesar de reconhecer que essa ferramenta pode ser utilizada em algumas situações, o estúdio em questão não abre mão que seus colaboradores de fato dominem as técnicas do desenho e tenham seu estilo próprio.

Refletindo sobre essa questão, fiquei pensando sobre Fausto Silva com seu bordão: “Quem sabe , faz ao vivo!” Essa frase ficou marcada desde o lendário programa Perdidos na Noite, exibido nos anos 80 pela Rede Bandeirantes e, posteriormente, no Domingão do Faustão da Rede Globo. Ela se referia não só a capacidade dos artistas em cantar sem playback, mas também, em como as pessoas podem resolver certos problemas de maneira criativa e espontânea, muitas vezes aproveitando os erros, transformando-os!

Existem dois pontos importantes dentro dessa reflexão à luz da Educação, do espaço da Escola, da formação, da aprendizagem, que quero trazer. Um deles é pensar em uma utilização ética das ferramentas de IA que hoje temos em mãos e, o outro ponto, é pensar sobre o que o erro significa em nosso meio educativo.

É preciso manter a mente aberta para receber as inovações e tudo de bom que a tecnologia pode nos oferecer. É claro que a inteligência artificial pode sim ajudar bastante no dia a dia em nossas vidas, como é o caso dos assistentes virtuais. Contudo, a construção dos saberes em ambiente acadêmico, deve em primeiro lugar, prezar pela busca da autenticidade dos estudantes vivendo os seus processos de autoconhecimento e olhar para o mundo. 

E tudo isso não consegue ser gerado artificialmente, é produto da experiência viva e intransferível. Cada um carrega dentro de si seus temores, suas habilidades, suas riquezas de alma, seus desafios e os educadores, na qualidade de mediadores de todo esse movimento, devem primar em garantir que as histórias dos seus alunos tenham espaço. Por exemplo, ao receberem um trabalho em que seja perceptível a presença da utilização da Inteligência Artificial, e diga-se de passagem, já temos professores que farejam essa configuração, há que se ter uma intervenção para que isso não seja normalizado, portanto, talvez os modelos de avaliação devem ser pensados para que essas entregas sejam mais diversificadas. O estudante pode se valer da ferramenta para confirmar dados rápidos, se inspirar para a produção de textos, porém, no fim das contas, as criações e realizações devem ser autorais. 

Sendo assim, a Escola, mais do que nunca, deve propor conversas sobre esses caminhos, acolhendo as dificuldades dos estudantes, os desejos, colocando as cartas na mesa e falando sobre esses recursos sem tabu, mas dando sentido a sua utilização quando necessária e de maneira pontual. E enquanto esse movimento reflexivo invade a escola, de mãos dadas com ele, os educadores podem e devem nutrir o desenvolvimento de habilidades acerca do pensar, como por exemplo a metacognição, e autorregulação, o pensamento crítico, a mobilização e associação dos saberes e outras tantas sobre as quais pode-se investir na Escola.

O outro ponto é a respeito do erro, lembram-se?  As mudanças de olhar na educação , já incorporam o erro como importante instrumento que revela sobre as aprendizagens, sobre o que um estudante sabe ou não sabe. Entre o certo e o errado, existe um espaço imenso repleto de perguntas, tentativas, caminhos que nós, seres humanos, trilhamos a fim de nos aproximarmos cada vez mais das verdades fundantes de nossa formação. É preciso valorizar mais os percursos do que as respostas prontas.

A resposta o “google” pode dar; conexões espontâneas e simples, os algoritmos podem fornecer; mas, as mobilizações mais complexas, intrínsecas ao nosso desejo de alma, de busca pessoal, isso se dá dentro da gente, naquele lugar brilhante que nos move e que às vezes passamos uma vida toda para descobrir. Sendo assim, errar é condição humana e, nas salas de aula, vamos falar sobre isso, desvendar, cuidar, acolher! E sobre o bordão do Faustão, é ao vivo, é no tablado da vida que mostramos sim, habilidades conquistadas, construídas, verdadeiras, frutos de trabalho, força, disciplina, dedicação, mas, também é sobre esse mesmo palco que erramos, que aproveitamos o erro para inovar, mudar perspectivas, encontrar novas rotas!

Essa manobra interna sofisticada da qual fazemos uso o tempo todo é o que poderíamos chamar de Inteligência Natural, que não pode ser conduzida eficazmente pela Alexa ou Siri, mas pela Dona Maria, que tem que correr de manhã para deixar seu bebê na creche e calcular o tempo de pegar duas conduções para chegar no trabalho todos os dias; ou pelo Sr. Márcio que tem uma reunião às 17h30 e quer estar presente às 19h00 na escola para assistir o jogo de futebol do seu filho. São tantas variáveis ao longo da nossa rotina, tantos desejos, tantas memórias que farão toda a diferença na formação de alguém.. e é claro que, muitas vezes, a gente pode olhar no Waze para saber em quanto tempo estaremos em nosso compromisso mediante ao trânsito, mas se o pneu fura, ou acontece um acidente, poderemos nos valer de outras ferramentas ou remarcar, adiar, pensar em outras maneiras de resolver aquele imprevisto. 

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Desejar, escolher, manejar, agir….Não há limites para nós! Não precisamos do pacote de benefícios a R$99,00 por mês. Somos mais! Eu proponho uma jornada de autoconhecimento, de autocompaixão e autocuidado para estendermos nossos desafios! E como educadora, sei que se começarmos esse caminho lá na Escola, abrindo espaços de reflexão, oportunizando lugares para que nossos estudantes sejam audazes, críticos, pensantes, nós poderemos usar o chat gpt, mas iremos desenhar ao vivo, mesmo que a gente tenha que apagar algumas linhas e continuar; iremos cantar a capela quando o playback falhar, iremos ajustar o sal no molho experimentando na ponta da língua…

Pois assim como o “meu” poeta diz:

“Tenho o privilégio de não saber quase tudo, e isso explica o resto.”

Manoel de Barros

Trago uma leitura inspiradora para estender esse olhar…

“Não coisas: Reviravoltas do mundo da vida” de  Byung-Chul Han

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