Tendências do morar: a casa como espaço de cura – Por Silvia Celani

Os principais eventos do segmento de arquitetura, design e habitação movimentaram o primeiro semestre do ano: Expo Revestir, DW!, CASACOR e Haus Decor. Os projetos, conceitos e produtos apresentados sinalizaram novos caminhos para o comportamento dos moradores neste ano e nos próximos — movimentos que merecem ser observados com atenção, segundo a WGSN, uma das principais referências mundiais em pesquisa de tendências.

Ambiente Brastemp por Marcelo Salum

NOVAS NECESSIDADES

As marcas precisam ampliar o olhar sobre as necessidades dos consumidores, desenvolvendo produtos e serviços capazes de atender a diferentes usos, perfis e contextos, em vez de se restringirem a nichos demográficos.
Sobrecarregado, ansioso e inseguro, o consumidor tende a se aproximar de marcas que atuem com empatia e ofereçam soluções capazes de transmitir acolhimento, confiança e estabilidade.

Outro aspecto importante dessa tendência é a valorização do autocuidado e do cuidado com o outro, movimento que afeta diretamente a relação com a casa. Se, durante a pandemia, o lar se consolidou como lugar de refúgio, agora passa a assumir também o papel de espaço de cura. Nesse contexto, flexibilidade e adaptabilidade tornam-se atributos cada vez mais valorizados nos produtos destinados ao morar.

Spa Raízes: o espaço acolhe com delicadeza, como se a arquitetura pudesse, por alguns momentos, reorganizar o ritmo interno

O tema da CASACOR deste ano, “Mente e Coração”, caminha justamente nessa direção. Em meio a rotinas aceleradas, excesso de estímulos e relações cada vez mais mediadas pela tecnologia, o morar ganha uma dimensão mais profunda. Os ambientes apresentados em São Paulo valorizaram o silêncio, o conforto, a convivência e a possibilidade de criar pausas dentro da própria rotina.

Essa percepção aparece em espaços mais acolhedores, áreas integradas e atmosferas que favorecem o bem-estar. As salas convidam à conversa, enquanto varandas, jardins e outros ambientes externos tornam-se extensões da vida dentro de casa. A sofisticação passa a surgir da escolha de texturas que aquecem, da iluminação bem posicionada, da circulação fluida e, sobretudo, da sensação de conforto.

No loft de Felipe de Almeida com ares de celeiro, os janelões do casarão, as tesouras no teto, a marcenaria escura e os papéis de parede florais sublinham o jeito campestre sem renunciar a um quê contemporâneo

NOVOS OLHARES

Ajudar as pessoas a sentir mais também pode ajudá-las a se sentir melhor. Produtos e ambientes sensoriais ganham importância ao proporcionar prazer, diversão e momentos capazes de recarregar as energias e favorecer o cuidado consigo mesmo e com o outro.
A proposta é pensar menos e experimentar mais: conforto, alegria, surpresa e prazer. Entram em cena soluções que estimulam os sentidos — olfato, paladar, visão, tato e audição — e até a intuição, criando uma relação mais emocional com os espaços.

Uma mulher madura que honra a própria história é a moradora imaginária do loft de 84 m2 dotado de releituras contemporâneas da tradição francesa, como as boiseries e molduras nas paredes. Ambiente Paula Neder

Elementos decorativos clássicos também voltam a ganhar espaço, impulsionados pelo retorno dos tecidos e da estamparia. Estéticas românticas, ornamentação mais exuberante e, principalmente, atenção aos detalhes aparecem como direcionamentos importantes para 2026. Entre os destaques estão espelhos de formatos criativos, novas soluções de iluminação e releituras de referências litorâneas e náuticas, especialmente nas coleções de verão.
Na paleta de cores, a tendência aponta para uma combinação de tons vibrantes, naturais e terrosos, além de tonalidades calmantes e cores primárias. Arenosos, empoeirados e queimados ganham força. Segundo a WGSN, esses pigmentos também refletem a busca por formas mais sustentáveis de produzir cores, utilizando desde resíduos de café e cacau até corantes de origem mineral.

Cresce ainda a valorização do feito à mão, da arte brasileira e de peças que carregam história. Objetos afetivos, trabalhos autorais e materiais que preservam suas imperfeições naturais ajudam a criar ambientes menos padronizados, mais singulares e conectados à identidade de quem vive ali.

ELEMENTOS NATURAIS

A natureza se mantém como uma das referências mais fortes da arquitetura e do design de interiores. Jardins, espécies nativas, madeira, pedras, fibras e superfícies táteis aproximam os espaços de uma experiência mais orgânica e humana. A vegetação passa a dialogar diretamente com a arquitetura; os materiais revelam textura e memória; e os projetos valorizam cada vez mais a relação com a luz, a ventilação e as vistas para o exterior.

Nesse contexto, a luz natural ganha ainda mais protagonismo, seja pelo desenho das sombras, pela maneira como evidencia os materiais ou pelas diferentes percepções que cria nos ambientes ao longo do dia.
A arquitetura passa, assim, a valorizar o que permanece: o conforto de uma sala bem iluminada, a tranquilidade de um quarto protegido da luminosidade externa quando necessário e a sensação de estar em um espaço que transmite autenticidade.

O design se aproxima de uma ideia mais duradoura de luxo, menos relacionada ao excesso e mais conectada à qualidade, ao tempo, à sensibilidade e à liberdade de viver a casa de maneira genuína.

No living, uma estante ocupa o pé-direito duplo com livros e fotografias de pai e filho – para alcançar a porção mais alta, há um mezanino, acessível por uma escada helicoidal pintada de roxo. Ambiente: Nildo José

TOP TRENDS

Paleta de cores e estética

  • Neutros quentes: o branco frio abre espaço para bege amanteigado, areia quente e off-white.
  • Tons da natureza: verde oliva, azul acinzentado e terracota suave trazem serenidade aos ambientes.
  • Pontos de drama: ameixa, violeta profundo e toques de vermelho acrescentam personalidade.
  • Madeiras escuras: acabamentos em café, tabaco, nogueira e grafite substituem o visual excessivamente claro dos últimos anos.

Materiais e revestimentos

  • Superfícies táteis: painéis verticais, como lambris contemporâneos, boiseries e acabamentos texturizados ganham destaque nas paredes.
  • Formas orgânicas: móveis de linhas arredondadas, sofás volumosos e peças com aparência esculpida à mão reforçam a sensação de acolhimento.

Sustentabilidade

  • Materiais conscientes: cresce a busca por opções recicladas, de baixo impacto ambiental e com procedência rastreável.
  • Conforto prático: pisos vinílicos e pedras naturais são valorizados por aliarem desempenho térmico e acústico à facilidade de manutenção.

Estilos em alta

  • Maximalismo aconchegante: misturas cuidadosas privilegiam conforto tátil, tapetes espessos e texturas macias, em vez do simples excesso visual.
  • Vintage e afetivo: peças de herança familiar, couro envelhecido e metais escovados ajudam a contar histórias e imprimir identidade aos ambientes.
  • Cozinhas com alma: ilhas de desenho mais descontraído, armários tipo vitrine e paginações gráficas de azulejos tornam o espaço mais pessoal e acolhedor.

Uma mudança que considero especialmente importante foi “a casa como elemento de cura” → “a casa como espaço de cura”. A segunda formulação soa mais natural e conversa melhor com toda a ideia desenvolvida na matéria: o lar como lugar de acolhimento, pausa, bem-estar e recuperação.

Silvia Celani é jornalista especializada no mercado de habitação
Contato: (11) 98411-9575

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