Os principais eventos do segmento de arquitetura, design e habitação movimentaram o primeiro semestre do ano: Expo Revestir, DW!, CASACOR e Haus Decor. Os projetos, conceitos e produtos apresentados sinalizaram novos caminhos para o comportamento dos moradores neste ano e nos próximos — movimentos que merecem ser observados com atenção, segundo a WGSN, uma das principais referências mundiais em pesquisa de tendências.

NOVAS NECESSIDADES
As marcas precisam ampliar o olhar sobre as necessidades dos consumidores, desenvolvendo produtos e serviços capazes de atender a diferentes usos, perfis e contextos, em vez de se restringirem a nichos demográficos.
Sobrecarregado, ansioso e inseguro, o consumidor tende a se aproximar de marcas que atuem com empatia e ofereçam soluções capazes de transmitir acolhimento, confiança e estabilidade.
Outro aspecto importante dessa tendência é a valorização do autocuidado e do cuidado com o outro, movimento que afeta diretamente a relação com a casa. Se, durante a pandemia, o lar se consolidou como lugar de refúgio, agora passa a assumir também o papel de espaço de cura. Nesse contexto, flexibilidade e adaptabilidade tornam-se atributos cada vez mais valorizados nos produtos destinados ao morar.

O tema da CASACOR deste ano, “Mente e Coração”, caminha justamente nessa direção. Em meio a rotinas aceleradas, excesso de estímulos e relações cada vez mais mediadas pela tecnologia, o morar ganha uma dimensão mais profunda. Os ambientes apresentados em São Paulo valorizaram o silêncio, o conforto, a convivência e a possibilidade de criar pausas dentro da própria rotina.
Essa percepção aparece em espaços mais acolhedores, áreas integradas e atmosferas que favorecem o bem-estar. As salas convidam à conversa, enquanto varandas, jardins e outros ambientes externos tornam-se extensões da vida dentro de casa. A sofisticação passa a surgir da escolha de texturas que aquecem, da iluminação bem posicionada, da circulação fluida e, sobretudo, da sensação de conforto.

NOVOS OLHARES
Ajudar as pessoas a sentir mais também pode ajudá-las a se sentir melhor. Produtos e ambientes sensoriais ganham importância ao proporcionar prazer, diversão e momentos capazes de recarregar as energias e favorecer o cuidado consigo mesmo e com o outro.
A proposta é pensar menos e experimentar mais: conforto, alegria, surpresa e prazer. Entram em cena soluções que estimulam os sentidos — olfato, paladar, visão, tato e audição — e até a intuição, criando uma relação mais emocional com os espaços.

Elementos decorativos clássicos também voltam a ganhar espaço, impulsionados pelo retorno dos tecidos e da estamparia. Estéticas românticas, ornamentação mais exuberante e, principalmente, atenção aos detalhes aparecem como direcionamentos importantes para 2026. Entre os destaques estão espelhos de formatos criativos, novas soluções de iluminação e releituras de referências litorâneas e náuticas, especialmente nas coleções de verão.
Na paleta de cores, a tendência aponta para uma combinação de tons vibrantes, naturais e terrosos, além de tonalidades calmantes e cores primárias. Arenosos, empoeirados e queimados ganham força. Segundo a WGSN, esses pigmentos também refletem a busca por formas mais sustentáveis de produzir cores, utilizando desde resíduos de café e cacau até corantes de origem mineral.
Cresce ainda a valorização do feito à mão, da arte brasileira e de peças que carregam história. Objetos afetivos, trabalhos autorais e materiais que preservam suas imperfeições naturais ajudam a criar ambientes menos padronizados, mais singulares e conectados à identidade de quem vive ali.
ELEMENTOS NATURAIS
A natureza se mantém como uma das referências mais fortes da arquitetura e do design de interiores. Jardins, espécies nativas, madeira, pedras, fibras e superfícies táteis aproximam os espaços de uma experiência mais orgânica e humana. A vegetação passa a dialogar diretamente com a arquitetura; os materiais revelam textura e memória; e os projetos valorizam cada vez mais a relação com a luz, a ventilação e as vistas para o exterior.
Nesse contexto, a luz natural ganha ainda mais protagonismo, seja pelo desenho das sombras, pela maneira como evidencia os materiais ou pelas diferentes percepções que cria nos ambientes ao longo do dia.
A arquitetura passa, assim, a valorizar o que permanece: o conforto de uma sala bem iluminada, a tranquilidade de um quarto protegido da luminosidade externa quando necessário e a sensação de estar em um espaço que transmite autenticidade.
O design se aproxima de uma ideia mais duradoura de luxo, menos relacionada ao excesso e mais conectada à qualidade, ao tempo, à sensibilidade e à liberdade de viver a casa de maneira genuína.

TOP TRENDS
Paleta de cores e estética
- Neutros quentes: o branco frio abre espaço para bege amanteigado, areia quente e off-white.
- Tons da natureza: verde oliva, azul acinzentado e terracota suave trazem serenidade aos ambientes.
- Pontos de drama: ameixa, violeta profundo e toques de vermelho acrescentam personalidade.
- Madeiras escuras: acabamentos em café, tabaco, nogueira e grafite substituem o visual excessivamente claro dos últimos anos.
Materiais e revestimentos
- Superfícies táteis: painéis verticais, como lambris contemporâneos, boiseries e acabamentos texturizados ganham destaque nas paredes.
- Formas orgânicas: móveis de linhas arredondadas, sofás volumosos e peças com aparência esculpida à mão reforçam a sensação de acolhimento.
Sustentabilidade
- Materiais conscientes: cresce a busca por opções recicladas, de baixo impacto ambiental e com procedência rastreável.
- Conforto prático: pisos vinílicos e pedras naturais são valorizados por aliarem desempenho térmico e acústico à facilidade de manutenção.
Estilos em alta
- Maximalismo aconchegante: misturas cuidadosas privilegiam conforto tátil, tapetes espessos e texturas macias, em vez do simples excesso visual.
- Vintage e afetivo: peças de herança familiar, couro envelhecido e metais escovados ajudam a contar histórias e imprimir identidade aos ambientes.
- Cozinhas com alma: ilhas de desenho mais descontraído, armários tipo vitrine e paginações gráficas de azulejos tornam o espaço mais pessoal e acolhedor.
Uma mudança que considero especialmente importante foi “a casa como elemento de cura” → “a casa como espaço de cura”. A segunda formulação soa mais natural e conversa melhor com toda a ideia desenvolvida na matéria: o lar como lugar de acolhimento, pausa, bem-estar e recuperação.
Silvia Celani é jornalista especializada no mercado de habitação
Contato: (11) 98411-9575







