Por Michele Marreira e Mariana Marçal

Regina Casé é um ser nada convencional, longe de se enquadrar à imposição dos padrões sociais. Aos 65 anos, no quarto casamento e com dois filhos, Benedita, 30, e Roque, 6, ela aceitou de alma e coração – e depois de quase 20 anos sem atuar – o desafio de interpretar, em horário nobre, a nordestina Lurdes, uma mulher pobre, trabalhadora, sem vaidades, que ama os quatro filhos mais que a própria vida e voltou ao Rio em busca do quinto filho que foi vendido pelo marido.

Na vida real não é diferente.

Regina é maluca pelos seus e pelo neto Brás, de apenas dois anos.
Se há 24 anos ela era uma mãe super protetora e apavorada – Benedita veio ao mundo em um parto complicado, onde mãe e filha quase morreram e isso criou um vínculo absurdo entre elas – hoje, mãe do pequeno Roque, Regina lida com a maternidade de forma mais segura. “Sou uma mãe muito melhor para ele”, conta.

Roque foi adotado e Regina teve uma “gestação” de 96 meses, já que oito anos se passaram após ter dado início aos procedimentos de adoção, até o meninão de cinco meses chegar ao braços dela e do marido, Estevão Ciavatta.

Aliás, falando em maternidade, vale relembrar aqui que foi só no ano passado que ela e a filha desabafaram pelas redes sociais sobre a surdez severa de Benedita, que nasceu ouvinte, mas perdeu a audição ainda nos primeiros anos de vida quando teve que tomar remédios ototóxicos.

Ano passado, no Programa do Bial, a filha de Regina Casé falou sobre o tema e revelou os medos que a acompanharam por toda a vida. Sim, ela falou. Apesar do problema, Benedita se comunica muito bem, trabalha com audiovisual e busca, dia após dia, sua reabilitação auditiva.

Regina é mãe, mas também é filha. Nascida e criada em Botafogo, é a mais velha de três filhas de Heleida Barreto e do escritor Geraldo Casé, que foi diretor do Sítio do Pica Pau Amarelo. Os pais se separaram cedo e Regina ficou com a mãe e as irmãs no Rio, mas, por pouco tempo. Heleida se casou de novo e foi embora para Portugal com as filhas mais novas. Ainda menina, ficou morando com as tias-avós Maria Amélia e Julinha, que incentivaram sua carreira no teatro.

Nascia, então, a atriz e apresentadora Regina Casé, que revolucionou a forma da televisão brasileira se comunicar.

Uma mulher na terceira idade ser protagonista em horário nobre é uma quebra de padrão estético e de idade. Regina Casé é isso. Quebra tudo!

Após uma pausa enorme, qual a sensação do retorno às novelas?

Está sendo tão bom. Quando eu gravo novela nunca assisto no monitor, senão começo a achar vários defeitos. Me jogo. É lindo ver pessoas que eu vinha acompanhando de outros trabalhos, se jogando, querendo a mesma coisa. Penso que a ficção, na atualidade, é uma maneira suave de chegar e conversar com as pessoas, que estão muito arredias. Elas não conseguem se ouvir e, por meio da emoção, contando com minha atuação, acho que é mais fácil ser uma ponte entre diferenças, algo que sempre fiz.

Fale um pouco do processo de construção de sua personagem, Lurdes.

É uma personagem que não pode ter nenhum momento racional. Ela é pura emoção e coração. Uma mulher como a maioria das brasileiras e nordestinas, que trabalha e defende seus filhos. Ela tenta dar a eles dignidade, princípios, exemplos de honestidade. Fiquei muito feliz com o resultado, não só do meu trabalho, mas também dos meus colegas.

Quais foram suas referências e inspirações durante esse processo?

Seria injusto me inspirar especialmente em alguém, eu pensaria em umas cem (risos). A personagem é tão rica, complexa e bonita. A qualidade do texto é maravilhosa, assim como a fotografia do Walter Carvalho e a direção artística do José Luiz Villamarim. É uma surra de emoção. Eu leio uma cena e fico ansiosa para gravar logo porque quero ver aquilo acontecer. Estava morrendo de saudades de voltar a atuar, mas deixar meu antigo trabalho, deixar de viajar o país como apresentadora… precisaria ser uma personagem como esta para eu ter coragem de largar tudo e me jogar de novo como atriz.

Deu um friozinho na barriga quando topou o convite?

Eu confesso que estava morrendo de medo sim, não convivia com isso há anos. Quando eu tinha meu programa, era a atração da Regina, com o maquiador da Regina; aqui é outro jeito de trabalho em equipe, com muitos profissionais em volta; eu estava com medo da readaptação. Está sendo um sonho; fui recebida da maneira mais carinhosa possível.

Além de exímia atriz, você também é uma excelente apresentadora. O público te cobra para retornar com seu programa de TV?

Me cobra bastante! Em alguns lugares, como na Bahia, eu quase apanho (risos). Sempre pedem para voltar com o Esquenta.

Você foi premiada no cinema pelo filme Três Verões. O que achou deste trabalho?
O filme Três Verões vai ser lançado muito próximo à novela e nele eu faço uma mulher do povo; me orgulho muito disso. Não é à toa que me escolhem para este tipo de papel. Esse filme ganhou um prêmio no primeiro festival que participou e isso me deixou feliz.

Qual o balanço você faz de sua trajetória artística?

Eu sempre trabalhei com profissionais maravilhosos. Para se jogar em cena sem maquiagem, sem pentear o cabelo, você tem de ter confiança em quem te cerca. Você precisa pegar todas as suas emoções que estão guardadas e colocar para fora. Minha carreira sempre foi assim, seja no teatro, no cinema e na televisão.

Como tem feito para conciliar as gravações com os cuidados com seu filho pequeno?


Tem sido brabo, mas, me programei muito. Foi tudo pensado. Eu estava com um novo programa engatilhado, quase pronto para entrar no ar em outubro do ano passado, quando fui convidada. Eu fiz esta escolha, quis me dedicar a isso e conversei em casa que iria sumir (rs).

Como é criar um filho pequeno no mundo de hoje?

O mundo me deixa mais apavorada. Como será o mundo do Roque, que tem apenas seis anos? Isso se tivermos um mundo ainda para ele viver. Hoje sou uma mãe muito melhor para ele – ficando mais velha – do que fui para a Benedita, quando eu tinha muitos medos e inseguranças. Ser mãe mais velha é bem mais legal.

Sua personagem tem um ponto em comum com você que é a adoção…
Sim, sempre digo que amor de mãe é uma droga poderosíssima que você pode ver e sentir coisas que você não sentia antes. Ser uma mãe por adoção é o contato direto com o mistério. É como colocar um plug no sagrado. Eu não conhecia aquela pessoa em um dia e, no outro, eu o amava tanto quanto amo a Benedita. Era igual. Eu achava que seria uma construção, mas não foi. É um troço estranho que vem de um lugar maluco.

E como é a Regina avó?

Nem queira saber! Fico apaixonada pelo neto e pela filha. Vê-la virar mãe é uma maravilha. Não sou do tipo de avó que deseduca, que dá doces escondidos; sou firme e brinco muito com ele. A gente tem uma relação de brincadeira e proximidade muito grande. Eu já tinha experimentado o amor de mãe, mas descobri que o amor de avó é muito mais barra. Já meu filho está numa fase difícil, acha que tem 16 anos. Dias desses, ele sumiu no churrasco da Mangueira, disse que tinha ido ao banheiro. Perguntei por que ele não me chamou e ele respondeu: ‘senão eu teria que ir ao de mulher e eu queria ir ao de homem, então, fui sozinho lá longe’.

Regina se viu sozinha no Rio de Janeiro, em plena década de 70, quando a mãe se mudou com as irmãs para Portugal. Regina foi morar com a Tia Julinha, que tinha quase 80 anos. Ao invés da tia cuidar dela, foi ela quem cuidou da tia, que a apoiou e acolheu o seu grupo de teatro, Asdrúbal Trouxe o Trombone, fazendo de sua casa em Ipanema o ponto de encontro da turma.

Tina Pepper, da novela Cambalacho, foi uma personagem criada especialmente para Regina Casé

Regina é conhecida como a apresentadora do povo, que levou a cultura das periferias para a televisão. Palco de artistas populares, o Esquenta foi a primeira atração de estúdio liderada por ela. Programa Legal, Brasil Legal, Muvuca e Central da Periferia eram gravados nas ruas e nas casas das pessoas pelo Brasil afora.Regina Casé batizou o filho Roque em diferentes religiões. Ele foi batizado por um rabino, uma pastora, uma monja budista, um babalorixá e um padre, amigo da família.


Que horas ela volta?
Regina Casé interpreta Val, uma empregada doméstica de Recife que mora há mais de uma década em São Paulo, na casa dos patrões. Dentro deste amplo lar de classe média-alta, Val é considerada “quase da família”, tendo criado os filhos dos patrões como se fossem os próprios, mas ela ainda faz as suas refeições em uma mesa separada, dorme no quartinho dos fundos e jamais colocou os pés na grande piscina onde os outros se divertem. A empregada doméstica foi o símbolo escolhido para ilustrar a condescendência de certa elite que “acredita sinceramente ter sido feita para ocupar tal posição”, como diriam os sociólogos Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot.

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