Recentemente, ouvimos, estarrecidos, as notícias de suicídios de adolescentes entre as escolas mais tradicionais de São Paulo. Casos nos Colégios Bandeirantes, Agostiniano e Vértice trouxeram à tona um tema muito recorrente, mas ainda pouco falado pelas famílias, escolas e até pelos próprios adolescentes.

Mas é preciso falar!

Segundo a psicóloga e psicanalista Dra. Lúcia Amaral, uma série de fatores leva a um desfecho como esse. Ela ressalta que a primeira medida, após casos assim, é conversar com os demais. E foi isso que o Colégio Bandeirantes fez, por exemplo. Em rodas de conversa, cada turma pode compartilhar como se sentia. “O adolescente precisa ser ouvido e precisa reconhecer que essa escuta existe. O suicídio é uma maneira de se comunicar, deturpada, logicamente, mas que passa uma mensagem”, complementa. Conversar sobre o suicídio é não só sinal de acolhimento, mas também uma oportunidade de identificar possíveis problemas com outros adolescentes.

Além de conversar, é necessário não romantizar o suicídio. A comoção faz com que achemos que havia uma mensagem a ser dita e que ali há um mártir, um superherói. E não! Não há! Difícil é viver. Heroísmo é sobreviver, especialmente a períodos conturbados como a adolescência.

Nessa fase, são muitas mudanças físicas e emocionais. Lidar com tudo isso e ainda com a pressão da sociedade é um desafio e tanto! Por conta disso, é necessário sim falar sobre os tabus, sejam eles sexo, drogas, limites e até mesmo suicídio. Justamente porque todas as perguntas e contradições que um adolescente vive hoje em dia, alguém já viveu no passado, seja seus pais ou professores.

Obviamente, hoje em dia, temos o agravante das redes sociais, que expõem muito mais e, muitas vezes, acirram ainda mais a competição natural dessa fase.

Uma geração conectada e mimada

Hoje em dia, aos 8 anos de idade, às vezes até antes, as crianças já possuem um smartphone de ultima geração. E isso significa ter o mundo na palma da mão, com todas as suas dores e delícias. Dra. Lúcia explica que o advento das redes sociais acaba tornando a sociedade, como um todo, um lugar de pessoas mais solitárias. “As pessoas olham para a tela do celular e não nos olhos umas das outras”, comenta ela.

Cláudia Regina Garcia Vicentini, professora universitária e mãe da Gabriella, de 18 anos, confessa que lidar com a superexposição das redes sociais não é fácil. “Assim como é um aprendizado para eles, é para nós, pais, também”. Ela ressalta que o universo das redes sociais é um lugar onde todas as pessoas são felizes, bonitas, sorriem e viajam. E o que já é comum ao adolescente – achar que a vida do outro é muito mais interessante – se acentua de forma muito exagerada. Neste caso, cabe aos pais mostrar a vida como ela é. “Ao mesmo tempo que precisamos mostrar a realidade, também precisamos fazer um esforço para entrar, nem que seja um pouquinho, neste universo, para compreender melhor os nossos filhos”, diz Claudia. Vale abrir uma conta no Instagram, assistir um show de um cantor que nunca ouviu falar ou fazer uma maratona de séries.

O fácil acesso à informação também dá ao adolescente a sensação do fácil acesso a tudo o que ele desejar. E os pais, na ânsia de oferecer sempre melhores condições aos filhos, acabam dando muito mais do que eles precisam. Assim, ao chegar na adolescência, o menino ou a menina simplesmente não sabe lidar com a palavra não. Dra. Lucia explica que os pais facilitam tudo de tal forma para os filhos que quando eles têm alguma dificuldade, simplesmente não sabem como agir.

Outro fator importante a ser considerado é que na adolescência é a fase em que se forma o pensamento crítico. Ou seja, é nesta fase que o jovem percebe o mundo como ele é, as consequências das suas escolhas, as diferenças sociais e o tanto de injustiça com a qual somos obrigados a viver todos os dias.

E é justamente nesse momento que entra o diálogo e a parceria família-escola é fundamental na formação deste jovem.

 

Diálogo, diálogo e mais diálogo

 

Quando foi a última vez que você perguntou ao seu filho como foi seu dia? E você, quando contou aos seus pais como foi na escola? Se não se lembra a resposta a essas perguntas, pare, reflita e corrija! Dra. Lúcia explica que conversas em família são fundamentais e necessárias. “Olhar nos olhos, fazer uma refeição juntos, dar risada”, diz. O adolescente precisa sentir-se acolhido e os pais, por sua vez, precisam sentir-se próximos a ponto de notar quando algo não vai bem.

Se existe diálogo, questões como bullying, bebidas e drogas podem entrar na pauta e prevenir uma série de situações-limite. Claro que não é fácil. Mas é importante tentar e insistir. É importante que a família reconheça que ali há um outro ser humano, cheio de dúvidas e incertezas, e validar os sentimentos do filho. Parar com essa coisa de que tem um “aborrecente em casa”. Como em qualquer relação de convivência, não irão concordar com tudo, mas sentar e conversar sobre isso já é um grande avanço e pode prevenir problemas graves.

E a escola?

Tão importante quanto o convívio familiar, a escola tem papel de destaque na formação dos adolescentes. Claudia explica, na condição de professora, que muitos alunos chegam às universidades sem saber exercer seu papel de cidadão. Ou seja, há alunos brilhantes, com muito conteúdo, mas que não sabem atravessar a rua sozinhos, que não sabem tomar um ônibus se precisarem, que não sabem quais decisões tomar diante da quantidade de informação que têm contato diariamente.

Ela alerta ainda que as escolas e os professores precisam, o tempo todo, refletir sobre e reciclar suas metodologias de ensino. “É incompatível que no mundo em que vivemos hoje, com as respostas ali, na tela do celular, um professor entre em sala de aula como o detentor da verdade”.

Desta forma, o diálogo e somente ele salva as relações. É no momento da conversa que o adolescente percebe que, assim como ele, os pais e professores também têm frustrações, problemas, decepções. E que tudo fica bem. Desmistificar e não romantizar os problemas faz parte do processo. Enfrentar a vida juntos, contando um com o outro, sem desvalorizar ou superdimensionar nada. Encarar as coisas como elas são. Ou seja, como diz a música, mais amor e menos drama.

Dra Lucia Amaral – Psicóloga/Psicanalista – 4551-3051/ 9 5020-2221

 

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