No meu tempo de escola, a gente tinha aqueles estojos com 36 cores que se abriam sobre a mesa, como uma espécie de porta-lápis. Eu me lembro do cheiro, do cuidado para equilibrar a caixa aberta na carteira e escolher as cores para o desenho mimeografado que a professora da 1ª série nos dava para pintar. Num dia em especial, o tema era a Festa junina e havia bandeirinhas, barracas e dois caipirinhas para colorir. Não costumávamos desenhar muito, apenas colorir. Coisas da Educação dos anos 70/ 80. Naquele tempo, céu tinha que ser azul, árvore deveria ter a copa verde, o tronco marrom e o que fugisse desse padrão merecia atenção especial: “Adriana, por que você pintou a calça do Chico-Bento de roxo, você sabe que é azul.” – Certa vez me chamou a atenção a professora.
Também era muito comum os alunos falarem em voz alta:
“Me empresta o lápis
cor de pele?”
“Eu não tenho essa cor, ela acabou porque pintamos as pessoas dos desenhos.”
Crescemos assim, inclusive muitas marcas traziam gravado no próprio lápis o nome “pele”, para cores rosadas e tons de bege. Isso sem falar dos livros didáticos e das histórias infantis, que costumeiramente carregavam representatividades da raça branca nas ilustrações de famílias e de maneira geral. O tempo passou e eu estou agora em minha sala de aula como educadora, quando um menino vem até mim e diz:
“Adri, eu quis fazer a minha cor de pele parecida de verdade, então misturei alguns tons, dá uma olhada.”
Eu observei vários pequenos rabiscos de diversas cores, tais como, marrom, bege, laranja e rosa. Ele continuou, enquanto tentava comparar o tom da sua pele àquela criada no papel: “Ficou parecido, Adri?”
Enquanto isso, outras crianças produzem suas criações com céus avermelhados, estrelas coloridas, copas de árvores cor-de-rosa, troncos amarelos, meninas de cabelo azul, casas com paredes lilás etc, etc, etc… Seguimos adiante em busca de expressarmos tantos vieses interpretativos da nossa visão de mundo e hoje os pequenos têm esse espaço.
Estamos respirando, refrigerando nosso entendimento, retomando séculos de dor, exclusão e falta de senso, mas esse percurso de conversão é desse tempo, é reflexão da nossa época, por meio de custosos esforços de gente que desbravou esses caminhos aqui e ao redor do mundo. Nesse sentido, todos somos “alfabetizandos”! Estamos destrinchando uma “cartilha” juntos, buscando encontrar maneiras de pisar nesse chão devagar, com zelo e respeito. São dores que a ancestralidade carrega em meio a uma história de preconceito, exclusão e discriminação. A cada dia, ao sairmos de nossas casas, temos que saber que o mundo se abriu, que nossos óculos, elaborados à luz de um racismo estrutural, que não parte somente de ações individuais, mas de todo um contexto de sociedade, em todas as suas esferas, que o reproduzem, agora deve receber novas lentes. Esse novo olhar em primeiro lugar precisa assumir a condição de que de alguma forma ou de outra, somos responsáveis por reproduzir o racismo. Em segundo lugar, deve haver condutas preentivas às situações que envolvem todo esse preconceito e por fim, focar em ações efetivas de tratamento de qualquer tipo de preconceito e marginalização, implementando assim, principalmente dentro dos ambientes educativos, uma cultura verdadeiramente antirracista.
E vou além, chamando a atenção para outras formas de rejeição do ser humano de maneira geral, por qualquer motivo, como por exemplo a intolerância religiosa, gordofobia etc.
Mas quem me conhece sabe que tudo o que coíbe, oprime, seja de qualquer forma, pode despertar um outro lado mais cruel ainda, então em minha opinião, a solução está no cuidado, na reflexão, no acolhimento. Os extremos não funcionam, o bom senso e o amor sim! Dia a dia, em uma peregrinação por essas veredas frescas, vamos encontrar nossos repousos, ao mesmo tempo em que cuidamos de nós, exercitando a autocompaixão e a empatia.
A prefeitura de São Paulo elaborou um documento que vale a pena ser lido, consultado, o Protocolo de Prevenção e Enfrentamento ao racismo e a xenofobia na educação. Acesse – https://acervodigital.sme.prefeitura.sp.gov.br/wp-content/uploads/2025/12/Protocolo_Prev_Enfrent_Racismo_Xenofobia.pdf – para ler e baixar o documento.
A caixa de lápis de cor, tem agora outros tons de pele! De tantas peles! Há esperança! Está acontecendo, não é utópico, nem tampouco distópico, é real!
Proponho, no entanto que mergulhemos na diversidade!
Dicas literárias para adultos e crianças:
Pequeno manual antirracista
Djamila Ribeiro
Companhia das Letras
Amoras
Emicida
Companhia das Letrinhas
Meu crespo é de rainha
bell hooks
Boitatá
A terra dos mil povos
Kaká Werá Jecupé
Editora Peirópolis
Trilogia do Amor
bell hooks
Editora Elefante



