Marcelo Meyer – O mundo cabe em uma quadra de tênis e ele pode provar

Granjeiros “raiz” vão lembrar.
Para quem ia ao Parque Cemucam, na década de 90, a diversão começava na rua, antes de entrar no parque, onde era normal encontrar bolinhas de tênis quicando na calçada ou caídas no meio-fio. Elas vinham da Meyer Tennis, espaço que foi referência no esporte na região liderado por Marcelo Meyer, um ícone do tênis brasileiro e treinador de grandes nomes como Fernando Meligeni.
Marido da Sonia, pai, avô, corinthiano não fanático, com uma carreira que abrange desde a formação de atletas profissionais até o ensino de amadores e a gestão de negócios no esporte, ele conta que desde criança o tênis corre nas veias. “Os clubes aqui de São Paulo proibiam as crianças de jogar tênis. Existia um mito de que um braço ficava maior que o outro, o que não deixa de ser verdade, porque as raquetes eram muito pesadas”.
O tempo passou e outras possibilidades de negócios se expandiram. A Granja ficou pequena para Meyer, que passa metade do ano no exterior. As quadras ainda são o lugar que mais gosta de estar e de onde vieram os grandes ensinamentos para que o investidor que habitava nele, voasse.
De sua passagem ao Roland Garros, torneio que compõe o Grand Slam do tênis mundial, ele conta nessa entrevista como o seu trabalho contribuiu para que o tênis decolasse no Brasil, chegando a mais de 4 milhões de praticantes, atualmente. Das quadras exclusivas de clubes elitistas, a espaços mais democráticos e com preços acessíveis, o esporte vem se transformando no Brasil e na forma como as pessoas se relacionam com ele.
Para os tenistas, amadores e profissionais, só resta agradecer por essa contribuição!
Valeu, Marcelo!

Meyer, antes de tudo, conte-nos como sua paixão pelo tênis começou.
Eu comecei a brincar de jogar tênis com 7, 8 anos de idade, no final da década de 50. Naquela época não existia raquetes para crianças ou materiais mais leves e menores; o tênis era um esporte exclusivamente de adultos. Então, eu jogava escondido, já que os clubes aqui de São Paulo proibiam as crianças de jogar. Existia um mito de que um braço ficava maior que o outro, o que não deixa de ser verdade, porque as raquetes eram muito pesadas. Meus pais eram jogadores amadores, jogavam aos finais de semana, eu pegava a raquete deles e ia bater paredão no campo do clube. Foi assim que começou a minha paixão pelo tênis e se prolonga até os dias de hoje. Sim, eu jogo até hoje, aos 73 anos de vida. Dou mentorias, treinamentos, clínicas e palestras. 

Em que momento da sua carreira você percebeu que estava ajudando a transformar o tênis no Brasil?  Como o tênis impactou sua família e sua vida pessoal?
Num determinado momento eu enxerguei e percebi a importância do meu trabalho para o esporte. Fui, no Brasil, um dos primeiros treinadores a treinar voluntariamente os melhores juvenis do tênis. Eu compartilhava minhas experiências e as oportunidades que o esporte já havia me dado. Com isso, fomos transformando a forma desses jovens treinarem e entenderem o que é o tênis de alta performance e isso permanece até hoje.
O tênis impactou muito a minha família e minha vida pessoal.
Minha esposa não joga tênis, mas quando namorávamos ela já me acompanhava em torneios e viagens; nos casamos bastante jovens. Eu tinha 22 anos e a Sonia, minha esposa, tinha 18. Logo em seguida nasceu a minha filha Tatiana e depois meu filho Dênis. Tenho quatro netos e todos jogam tênis. Os mais velhos jogam muito bem e as mais novas são bem pequenas, mas estão sempre comigo perambulando pelas quadras, brincando de jogar tênis. Essa é a beleza desse esporte, que agrega a família e faz amigos. Um esporte que vira negócio, que ensina as pessoas a terem disciplina, a ganhar, a perder, a terem humildade, a enfrentar desafios. 

Quais foram os maiores desafios de trabalhar com tênis quando o esporte ainda não era popular aqui?
O maior desafio que enfrentei – e acho que era o grande desafio do esporte na época, quando comecei – era a falta de estrutura. Era uma situação muito diferente se comparada aos dias de hoje. Nós temos esportes de diferentes segmentos, diversos canais de televisão; hoje, conseguimos acompanhar os grandes torneios nacionais e internacionais pelo youtube, acompanhar nossos jogadores. Antigamente, nem sonhávamos com isso, então, as maiores dificuldades eram a falta de divulgação, a falta de patrocínio, a falta de exposição na mídia – escrita ou televisiva. Tudo era infinitamente mais desafiador que os dias de hoje. 

Marcelo jogando

Você foi treinador de grandes nomes nacionais e internacionais como Fernando Meligeni, Dadá Vieira, Cássio Motta, Marcelo Saliolla, W. Kyriakos, O. Santos. Eles tinham algo em comum? Qual deles foi melhor ranqueado e você acha que isso aconteceu por qual razão?
Além desses nomes, outros inúmeros campeões passaram pelo meu treinamento. O que eles tinham em comum era a paixão pelo tênis. Ninguém consegue ser um tenista de altíssima performance se não tem paixão pelo jogo. O atleta tem que sacrificar muitas coisas, no bom sentido. Durante a sua adolescência, você não vai poder ir nas festas ou passar os finais de semana na praia, porque você estará sempre treinando, competindo e viajando para torneios, então, é um período muito longo o processo de formação para um tenista que vai competir nas maiores competições. E é sempre uma incógnita. Não há garantia nenhuma de que você será um grande profissional que vai viver do tênis competitivo. Precisa ter muita paixão e entrega. Dos jovens que passavam pelo meu centro de treinamento, a primeira qualidade que eu observava era isso: a paixão pelo jogo; ele pode ter o maior talento, mas se ele não tem essa paixão, ele não tem a menor possibilidade de ser um grande jogador. De todos que treinei, o Fernando Meligeni foi o melhor ranqueado, número 25 do ranking mundial, chegou à semifinal de Roland Garros; em dupla, o Cássio Motta chegou a cinco ou seis do ranking mundial; todos os outros tiveram ótimos resultados. 

 “Dos jovens que passavam pelo meu centro de treinamento, a primeira qualidade que eu observava era isso: a paixão pelo jogo; ele pode ter o maior talento, mas se ele não tem essa paixão, ele não tem a menor possibilidade de ser um grande jogador”

Você acredita que o tênis brasileiro recebe hoje o reconhecimento que merece? É ainda um esporte elitizado ou isso mudou?
Nos dias de hoje o tênis está passando por um boom impressionante no nosso país. Hoje nós temos, segundo pesquisas da Confederação Brasileira de Tenis, quatro milhões de praticantes no Brasil, um número bastante considerável. Ele está tendo o reconhecimento que merece – sem dúvida nenhuma – por conta do que mencionei anteriormente; dos canais de TV a cabo e das redes sociais; quem gosta, pode acompanhar qualquer tenista no seu dia a dia, ver o que ele está fazendo, onde está jogando.
Além disso, o esporte é menos elitizado. 
Os materiais são bem mais acessíveis, já temos algumas quadras públicas onde você consegue jogar em horários ociosos em academias ou em clubes por um preço relativamente baixo. Claro que o tênis continua tendo uma despesa e você precisa ter alguns recursos para começar a jogar, mas, é uma situação completamente diferente do passado; quando comecei a jogar década de 50, início da década de 60, em São Paulo, nós não tínhamos nem 10 clubes com quadras de tênis, então, realmente o acesso era bastante difícil, limitado, com poucas quadras e exclusivas a clubes particulares. A mudança é radical; logicamente que, no nosso país, o futebol continua sendo o carro chefe de todos os esportes, é uma paixão popular, é um esporte que uma criança pode jogar na rua, jogar num terreno baldio, com uma bola feita de meias enroladas, então, são situações completamente diferentes. 

Fernando Meligeni e Marcelo

O que você acha do João Fonseca e Bia Haddad, os dois maiores jogadores brasileiros da atualidade.
João Fonseca e Bia Haddad são impressionantes. A Bia foi um meteoro; a maneira como num espaço muito curto de tempo chegou a ser a número 10 do ranking mundial, fez semifinal de Roland Garros, é algo impressionante; como consequência ela trouxe para o mercado tenístico um grupo de mulheres e meninas jogando tênis que é um absurdo. Dificilmente, hoje, um menino ou uma menina consegue vaga numa escolinha de um clube pra ter aula, pelo fato da demanda ter crescido nesse segmento. O João Fonseca veio na sequência e complementou esse boom que aconteceu e continua acontecendo. Ambos são fora da curva. A Bia está numa fase não muito boa, o que é muito normal em atletas de alta performance; estamos na torcida para que ela recupere a grande fase que ela já teve. O João Fonseca é inexplicável. Aos 19 anos de idade, ele tem um futuro enorme pela frente; como atleta, está em franco desenvolvimento e agora só o tempo vai dizer. O tênis é muito ingrato; como eu sempre digo, às vezes, uma unha encravada acaba com a carreira; um namorado ou uma namorada errada pode prejudicar a carreira como pode ajudar também, enfim, o tempo vai dizer o que o que vai acontecer, mas que o João Fonseca é um produto extraordinário, disso eu não tenho a menor dúvida. 

Meligeni e Marcelo, em Winbledon, em 1994

O que mudou no perfil dos atletas brasileiros desde o início da sua carreira?
Hoje em dia, eles conseguem sonhar, desde muitos jovens, em poder viver do tênis profissionalmente. As progressões são excelentes em vários níveis; o atleta pode ganhar muito dinheiro se está entre os 50 melhores do mundo. Quem está entre os 200 melhores do mundo, já consegue ser bem remunerado. Se o atleta consegue permanecer no circuito – o que é a média – por 10 a 15 anos,  dá pra fazer um bom pé de meia, completamente diferente do passado, obviamente. 

Com Luciano do Valle

Qual foi o momento mais emocionante da sua trajetória dentro das quadras?
Foram muitos. Mas eu gostaria de relembrar um que não foi exatamente dentro das quadras, mas foi do lado da quadra; eu estou falando da quadra central de Roland Garros quando eu, juntamente com o narrador, Rui Viotti,  fui o comentarista da final do torneio, quando Guga foi bicampeão. Realmente você estar lá, ao vivo, falando através de uma TV aberta para todo o Brasil, na época era TV Record, o país nos vendo e ouvindo e eu podendo compartilhar aquela vitória foi um momento marcante na minha trajetória; e depois, quando ele foi tricampeão, eu tive essa mesma oportunidade, só nós fizemos a cobertura das partidas finais do Guga aqui do estúdio em São Paulo.  

Marcelo e Meligeni

Você teve na Granja Viana um dos maiores complexos de tênis que nossa região já teve. Conte- nos sobre sua relação com o bairro e sobre esse projeto. Por que decidiu vender e seguir outra carreira?
Falar sobre a Granja Viana é, praticamente, falar de uma grande parte da minha vida. Eu moro aqui há mais de 30 anos, no condomínio São Fernando Golfe Clube. Atualmente, eu passo a maior parte do ano fora do Brasil, mas mantenho esta casa e quando estamos no Brasil é aqui que residimos. Aqui, tenho grandes amigos, grandes parceiros de negócios. Eu devo muito à Imobiliária Proinvest, do meu amigo Helio Alterman e do Antonio Chein Massud, com quem faço negócios há mais de 30 anos, antes de vir para a Granja.
E o meu grande centro de treinamento, que foi um sonho realizado, foi inaugurado em 1992. Minha academia ficava ali onde hoje é um condomínio em frente o SESI; não existia nada naquela época. Eu não tinha nenhum plano para vender a Meyer Tennis mas quando as grandes incorporadoras começaram a abrir capital no Brasil,  isso em meados de 2007, comecei a receber propostas, oferecendo algum tipo de negócio para comprar a minha área, que era considerado uma área nobre, um terreno muito bonito, do lado do Parque Cemucam, muito próxima da Raposo Tavares. E aí, a Proinvest, num determinado dia, me trouxe uma empresa que eu nem conhecia na época, estava chegando em São Paulo, que é a MRV, hoje talvez uma das maiores do Brasil, e veio uma proposta muito boa. Eu já estava cansado; comecei com aulas, dar treinamentos, trabalhar com academias muito precoce, com 18, 19 anos de idade, então, é como eu sempre digo, em negócios a gente não pode perder as oportunidades. Com a venda, eu passei a me dedicar paralelamente ao tênis, que está no meu sangue e é a minha paixão, mas dei continuidade em algumas coisas que eu já vinha fazendo no mercado imobiliário, no mercado de alimentação e em outros segmentos. 

Por que escolheu esse lugar pra viver? O que gosta de fazer por aqui? Como lida com o crescimento acelerado da região e com os grandes problemas enfrentados como o de mobilidade?
Pra mim, este é o melhor lugar nas proximidades de São Paulo que existe para morar. São várias coisas que eu gosto aqui, principalmente do verde; eu gosto dos restaurantes que nós temos, dos amigos que eu criei, jogo bastante tênis por aqui, temos várias opções.
Obviamente, o maior problema que temos é o crescimento acelerado da região; a mobilidade é uma coisa assustadora. Há 30 anos que eu estou aqui e ouço falar em projetos para a Raposo, em transporte público melhor e, infelizmente, nada acontece É só projetos, lançamentos, reuniões, mas de objetivo, praticamente, desde que eu estou aqui, dá pra contar numa mão o que saiu do papel.
Eu estou sempre na esperança e fico na torcida porque é uma região maravilhosa e as pessoas que vivem e trabalham por aqui realmente merecem mais respeito e melhorias nesta parte de mobilidade, que é o que dificulta a nossa vida. 

“Pra mim, este é o melhor lugar nas proximidades de São Paulo que existe para morar. São várias coisas que eu gosto aqui, principalmente do verde; eu gosto dos restaurantes que nós temos, dos amigos que eu criei, jogo bastante tênis por aqui, temos várias opções. Obviamente, o maior problema que temos é o crescimento acelerado da região; a mobilidade é uma coisa assustadora”

Você é um grande investidor hoje. Fale um pouco da sua vida profissional nos dias atuais e em que o tênis influenciou nisso. 
Hoje em dia eu atuo em vários segmentos, principalmente no ramo de alimentação, no mercado imobiliário e em alguns outros pequenos investimentos e negócios. O tênis me ensinou a ser um bom observador, ter paciência, saber a hora de atacar e se defender e a hora de controlar um momento difícil dentro de uma partida, o que é exatamente o mundo dos negócios. É como eu sempre digo, às vezes eu estou numa mesa de negociação para comprar ou para vender alguma coisa e é como um jogo; tem horas que você tem que atacar, horas que você tem que defender, tem horas que você tem que esperar ou ser mais agressivo. É basicamente tudo o que desde criança um tenista passa dentro de uma quadra, principalmente, um tenista de competição. Então, eu diria que tudo que eu aprendi para minha vida profissional foi dentro de uma quadra de tênis. 

Dadá Vieira, Marcelo e Meligeni
Meyer Tennis, na Granja Viana

Em 2004, no Clube Hebraica SP, aconteceu o Lançamento do 1º Livro do Marcelo Meyer – Tênis, Muito Mais Que Um Jogo.

Um evento muito importante para Hélio Alterman, da Proinvest, pois o seu falecido irmão, Berel Alterman, foi quem cuidou naquela época, de toda a diagramação, capa e projeto gráfico do Livro. “Marcelo Meyer é mais que um cliente da Proinvest, é um amigo que tenho o privilégio de conviver até os dias de hoje”, afirmou Hélio. 

Sonia e Marcelo Meyer, Berel e Helio Alterman no lançamento do livro: Tênis, muito mais que um jogo

Conte-nos sobre seu primeiro livro “ Tênis: muito mais que um jogo” e sobre o livro que está saindo do forno.
Escrevi esse livro há exatamente 21 anos. Não é uma biografia, mas um livro das histórias que o tênis me proporcionou.
Relatei também histórias que os meus jogadores que viajaram comigo, tanto os profissionais quando os infanto-juvenis, relataram, com as nossas experiências. Um livro de muito sucesso e, imaginem, 21 anos depois depois de muitos pedidos e sem estar muito motivado para fazer mais um livro para contar basicamente as mesmas coisas, eu tive uma ideia: durante décadas e décadas dando palestras, cursos e clínicas de tênis, eu recebi tantas perguntas que decidi fazer uma coletânea delas, então, nesse livro, eu coloco 111 perguntas que eu recebi e coloco as respostas destas perguntas neste livro. São histórias reais, de tênis, de vida pessoal, de vida de negócios, de alegrias e tristezas. Espero que vocês gostem, aproveitem e aprendam com experiências reais. Na próxima semana já estará à venda na Amazon, no Mercado Livre e na Pró Spin.
Livro: Bate-bola com Marcelo Meyer 

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