• Entrevista: Ester Jacopetti
  • Texto: Daniella Fernandes
  • Imagens: Gustavo Arrais

 

Muito antes da internet ganhar o mundo e os youtubers virarem referências dos jovens, Marina Person tinha o emprego dos sonhos, era VJ da MTV! Na época fez muito sucesso, considerada a apresentadora mais culta e descolada, alcançando voos altos, ficando conhecida e reconhecida em todo o Brasil. Formada em cinema, aos 50 anos, Marina segue “in”, com muito trabalho, disposição e uma contribuição valiosa para a nossa cultura pop. Espera aí, 50 anos? Isso mesmo, meus caros, Marina Person cinquentou, mas é totalmente “ageless”, ou seja, não aparenta nem no corpo e nem na mente ser de 1969. É zelosa com o corpo e costuma dizer que a idade pega no físico mesmo, mas que sua cabeça está sempre conectada com o novo, sempre à frente do seu tempo.

Se casou duas vezes, tem uma enteada de 14 anos, reinventou sua vida e sua carreira, apresenta um programa no canal Arte 1 e outro na Rádio Eldorado, ambos pautados no cinema. Marina se movimenta, sempre!

Formadora de opinião, contundente, tem usado as redes sociais com mais intensidade, em especial agora na quarentena, para produzir conteúdo de qualidade e promover muitas conexões.

Marina fala sobre cinema, sobre cultura, sobre história, sobre a vida!

Confira abaixo o bate-papo delicioso que tivemos com essa personalidade atemporal.

 

– Este ano comemoram-se os 30 anos da MTV, a televisão que revolucionou o universo da música, e você tem feito lives com os integrantes relembrando esses momentos, mas como tem sido recordar essa história que durou bons anos da sua vida? Lembra o primeiro dia de trabalho na emissora?

Eu passei 18 anos na MTV, os dois primeiros anos eu era só produtora. Você perguntou sobre revolucionar o mundo da música, mas eu acredito que tenha revolucionado o próprio universo da televisão, da comunicação para os jovens. Eu sinto que a emissora deixou uma herança para os jovens do Brasil e, ela não está restrita apenas ao universo da música, mas na questão fundamental do comportamento. A MTV fazia campanhas de conscientização da luta contra a AIDS, por exemplo, o uso da camisinha, falava sobre sexo quando nenhuma outra televisão falava daquela maneira, fora dos estereótipos, falava muito para a comunidade LGBT que naquela época não tinha esse nome, era GLS, lembra? Então, tinha uma questão de acolhimento dessa comunidade muito importante. Estávamos falando de um Brasil que cada vez mais a gente sabe que é um país conservador e, não era diferente nos anos 90 quando a MTV apareceu. Vamos lembrar que o primeiro beijo gay foi na MTV também. Aconteceu uma série de mudanças estruturais na sociedade que a MTV de certa maneira ajudou a mexer com os padrões, entende? E fazer essas lives após 30 anos que seria a vida da emissora pelo Brasil, só me traz essa noção, essa perspectiva histórica, esse olhar que você só pode ter quando se passa um tempo, que só foi possível agora porque quando estávamos lá não tínhamos essa noção do que significava. Eu vejo muito da MTV na forma de comunicação no Youtube através dos influencers, eles de alguma forma foram influenciados pela maneira como os VJs se comportavam e falavam com os jovens daquela época. Eu não me lembro exatamente do primeiro dia de trabalho, mas me lembro da época, lembro que estava muito feliz de fazer parte daquele time. Era uma TV jovem para jovens e feita por jovens e, pra mim era um sonho porque eu gostava de música, adorava vídeo clip, gosto até hoje e, quando fiquei sabendo que existia um canal de TV que passava música e clipe o dia inteiro nos Estados Unidos, enlouqueci, porque no Brasil quando eu era adolescente tinha pouquíssimo, era raro um programa de música, então quando a MTV apareceu foi um sonho, fiquei muito feliz quando fui trabalhar lá!

– Durante uma live com a Joyce Pais, recentemente, você comentou sobre a ideia de fazer um curso online sobre mulheres no cinema. Essa ideia já está sendo preparada ou por enquanto é só um projeto?

A Joyce Pais e a Luísa Pécora já têm esse curso – Mulher no Cinema -, eu fiz uma parte, mas não consegui concluir porque é longo, super sério. Pra mim tem sido muito importante preencher uma lacuna porque na época que eu era estudante de cinema não tive acesso a essas mulheres e histórias e, agora estou correndo atrás. Eu aprendi muito sobre cinema feito por muitos homens, muitos diretores que eram nossos modelos, digamos assim, mas eu digo sempre o quanto é importante a questão da representatividade de pessoas iguais a nós, ocupando espaço de poder pra que a gente pense: “Olha, eu posso estar lá também”. Eu sempre digo isso: “Uma mulher diretora sempre abre portas para uma outra mulher trabalhar no cinema”. Porque as meninas, crianças, adolescentes que pensam em fazer cinema um dia, quando veem uma diretora de cinema trabalhando, fazendo filmes que são sucessos de bilheterias, filmes que são premiados nos festivais,  conseguem se ver naquela posição e, isso acontece na verdade, em todas as lutas identitárias. No racismo podemos falar para as pessoas negras, ou ainda para o indígenas. O mesmo acontece quando você vê um indígena ocupando uma posição de poder ou de destaque. É por isso que nós estamos fazendo este curso online, já que estamos no meio de uma pandemia. Esse curso já existe e temos um perfil no instagram @mulhernocinema que eu recomendo.

– A Cinemateca vive um momento muito delicado e a cultura vem sendo sucateada dia após dia pelo governo atual e um povo sem cultura, é um povo na ignorância. A instituição sobreviveu às mazelas da ditadura militar, mas diante do que vem acontecendo, você acredita que ainda é possível enxergar uma luz no fim do túnel?

O que eu posso dizer é que é uma situação muito delicada, muito triste porque na Cinemateca estão guardados 120 anos de histórias do áudio visual brasileiro e, a Cinemateca já sofreu incêndios, já aconteceram alagamentos e nós temos que lembrar no que se constitui essa memória áudio visual, ela constitui nossas histórias, nossos atores, nossos artistas, nossa língua, tudo registrado em película que em última estância, é a nossa memória. A cultura é muito importante para a existência de um país, mas também são os países que investem em tecnologia, em ciência, em pesquisas, esses são os países que são desenvolvidos e, o Brasil ao não fazer investimentos em educação, na ciência, pesquisa, em cultura está ficando para trás, inclusive no seu poder econômico. A Coréia do Sul é um grande exemplo disso, esse país cresceu muito economicamente porque começou a fazer investimento em cultura há 20 anos como forma de sair da crise, eles exportaram K-Pop, digamos assim. Aumentou a arrecadação com turismo, não agora em época de pandemia, é claro, mas o aumentou o número de pessoas conhecendo a Coréia do Sul, ou seja, estão incrementando o seu próprio turismo enormemente, aumentaram também pessoas querendo aprender coreano. É um país que está expandido suas fronteiras através da cultura e o Brasil está caminhando no sentido contrário, o que é muito triste.

– Já estamos há mais de 60 dias em quarentena, como você tem aproveitado esse período em casa? Está conseguindo de repente se dedicar a algo que gostaria de ter feito há um tempo, mas não conseguia por conta dos projetos?

O que tem acontecido na quarentena é que eu tenho estado muito ocupada, aconteceu esse fenômeno e, quando começou a quarentena ficou todo mundo desesperado achando que o mundo ia parar e, começamos a aceitar coisas. O que acontece é que eu realmente estou ficando cansada porque não acaba nunca. Criou-se um hábito de fazermos as coisas de casa e estarmos sempre disponível para tudo, principalmente em horários que normalmente não estaríamos disponíveis. Agora, estou na minha terceira ou quarta fase da quarentena, eu vou começar a me policiar, e colocar um horário, um limite para o tempo em que eu vou estar à disposição, simplesmente como assistir a um filme, ficar com a minha família ou conversar com os meus amigos, porque o que tem acontecido é que eu tenho feito muito mais coisas do que eu estava fazendo antes. Louco né?

– As redes sociais se tornaram um lugar de livre expressão, pessoal e noticiosa. Como formadora de opinião como você avalia tudo que vai publicar, o que vai expressar? Já deixou de publicar algo mesmo convicta da sua crença, para se preservar?

Eu acho que as redes sociais têm que ser usadas, mas como tudo no mundo elas têm o lado bom e ruim que pode ser muito perigoso. O lado bom é porque você não depende mais de outro veículo para se comunicar e falar o que você pensa, esse é o lado incrível da internet, você tem acesso as pessoas e informações muito mais direta sem nenhum intermediário, isso é bom. Não é muito do meu feitio entrar em debates, embates, as redes se tornaram um tribunal. Eu não tenho muita atração por isso, não é uma coisa que me instiga, eu acho que tem pessoas que gostam de entrar em embate e fazer esse papel de juiz, de quem fez alguma coisa, de cancelamento e tal, não sou muito desse tipo, não que eu não tenha feito, já fiz um pouco, mas acho que a militância está muito mais em questões maiores. Eu tenho focado muito nas coisas que realmente acho importantes como, por exemplo, reforçar o papel que a cultura tem no mundo, na pandemia e durante esse governo Bolsonaro. Fazer entender da importância da atividade cultural e, um pouco do que eu faço, acho muito importante falar sobre a Amazônia, do genocídio indígena que me preocupa e me tira o sono, a questão antirracista que está muito urgente neste momento, então, eu prefiro dedicar o meu tempo e espaço que eu tenho nas minhas redes sociais, se for pra entrar em algum tipo de embate que seja esse, não em pequenos embates que eu chamo de pequenas causas, cancelando pessoas, esse tipo de coisa.

– Depois que a pandemia passar quais serão os projetos nos quais você estará envolvida?

Eu ainda não sei o que vai acontecer depois da pandemia, a gente não sabe nem quanto tempo vai durar, eu tenho me mantido muito ocupada, com a cabeça muito focada em tentar entender o que é o presente, o que esta pandemia representa em termos de restruturação do mundo. Será que a gente vai conseguir olhar para a natureza de forma diferente do jeito que nós estamos olhando hoje? Porque se não mudarmos, não vai demorar muito para termos outra pandemia e, novamente seremos obrigados a ficar distante das pessoas para nos preservar. A natureza é fundamental. Enquanto os níveis de poluição quase no mundo inteiro caíram, aqui no Brasil aumentou justamente por causa do desmatamento na Amazônia. É muito preocupante! Espero que a gente consiga olhar de maneira diferente para as desigualdades porque é um problema com o qual podemos dizer assim: “estávamos acostumados” mas, voltou como um tapa na cara e ficou evidente pra todo mundo que não dá pra encarar a desigualdade com a mesma complacência que estávamos encarando antes da pandemia, a desigualdade da maneira como ela estava sendo negligenciada, é uma barbárie, nós temos que entender que o SUS (Sistema Único de Saúde) é muito importante, que a distribuição de renda econômica é muito importante, a gente tem que olhar para as pessoas como seres humanos e não só como números e não só como semelhante que pode ser explorado, porque nós nascemos privilegiados e tivemos acesso à educação, e moramos numa casa confortável. Natureza e desigualdade são dois temas que têm que ser urgentemente falados, refalados e revistos.

 

OLHO: Uma mulher diretora sempre abre portas para uma outra mulher trabalhar no cinema

 

Legenda: Parceiros da MTV – Didi Wagner, Daniella Cicarelli, Cazé Pecini e Edgar Piccoli

Crédito: Divulgação

 

Na direção do filme Califórnia, em 2016.

Crédito: Divulgação

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