Diariamente na Escola, eu e certamente diversos educadores espalhados pelas inúmeras instituições de ensino do nosso país, têm em seus planejamentos, principalmente os que trabalham com educação infantil, atividades envolvendo as brincadeiras populares.

Ficou para o legado da escola, dar conta de manter essa cultura entre os pequenos que cada vez mais crescem defasados nesse sentido.

Recentemente em uma festinha infantil, estava eu com minha filha em meio a tantas crianças, que pareciam perdidas em um espaço em que os jogos eletrônicos dos buffets infantis não estavam à disposição. A anfitriã da festa, preocupada, conversando comigo disse: “Ah daqui a pouco o pessoal da recreação chega e brinca com a criançada.”

Pois é… todos sabem que hoje em dia há empresas e diga-se de passagem, muitas delas excelentes empresas, que têm como função, ensinar brincadeiras, promover dinâmicas interativas em festinhas de crianças pequenas.

De novo me lembro do meu tempo, em que bastava estar junto com os amigos na rua, na praça ou em qualquer lugar, um elástico no bolso, um giz, uma corda, para a brincadeira começar.

Na Escola, os convites para o brincar coletivo são puro deleite para os pequenos que ficam fascinados com toda a poética que essa cultura infantil carrega… claro, pois todo esse contexto assegura de certa forma que as crianças pertencem a algo maior, uma tradição que existe de fato, que foi vivenciada pelos seus pais, avós, enfim…por outros que vieram antes e também foram crianças um dia! Essa troca é muito rica e deve acontecer sempre, o que vem sendo desenvolvido por escolas que de fato estão comprometidas com a heróica tarefa de resistir à degradação e ao empobrecimento dessa valiosa cultura. Isso se traduz em repertório! Saber brincar, chamar os amigos e propor esta ou aquela brincadeira.

Como diz a educadora Renate Keller Ignácio:

“A criança que brinca a partir de si mesma, se acalma, respira profundamente e entra num estado de bem-estar, onde ela sente uma profunda confiança na existência. Esta confiança se transforma na idade adulta em fé na vida, em fé em si próprio e no seu destino. Esta fé é a base da resiliência.”

Não podemos perder de vista esse aspecto do desenvolvimento de nossos filhos, alunos, netos, sobrinhos…

Temo por uma geração que terá suas interações apenas nos ambientes virtuais e crescerá sem histórias pra contar…de uma infância vivida em que se  vai daqui prá ali, em meio a muitos compromissos, a maioria deles, sem sentido para a criança, que não tem tempo para desenvolver sua tarefa mais importante, o brincar!

Pode ser que você leitor, já tenha se deparado com essa reflexão, contudo, entre os educadores, essa discussão ocupa uma posição de destaque, entretanto, os dias passam e por aí afora a realidade é bem complicada, falta repertório e muitas vezes o que vemos são cenas parecidas com aquela que descrevi no início, crianças sem autonomia para brincar, sem saber começar, propor, convidar os amigos! E aqui esbarramos em um outro campo muito importante: o saber conviver!  Claro, sem brincadeira não há um convívio significativo e prazeroso para as crianças, por isso de novo é na escola que as interações acontecem, os conflitos, os embates, as conciliações, enfim…é brincando que a gente se entende!

Nutrir nossos meninos e meninas com esse alimento tão importante pode “salvá-los” num futuro próximo, em que terão que reencontrar com a criança que foram um dia! Eu tenho o privilégio imenso de no meu dia a dia, ver e ouvir as crianças brincando e assim como diz Fernando Pessoa:

Quando as crianças brincam                                                                  
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E vocês, têm visto os meninos brincarem? Entre seus pares? Com coisas simples? Aquela brincadeira boa que fica gravada na alma??

Vamos pensar sobre isso! Você quer brincar disso? “Então põe o dedo aqui que já vai fechar, não adianta chorar!”

Deixo uma dica imperdível de um filme que aborda o tema com todo o respeito e importância que ele merece: Território do brincar de Renata Meirelles!

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