Entrevista Capa
Mariana Ximenes é Notícia Boa

Por Ester Jacopetti

Vamos encarar os fatos, Mariana Ximenes é uma mulher linda e chama atenção por onde passa, mas sua beleza não se resume apenas ao rosto delicado e ao corpo perfeito. Sempre muito educada e sorridente, a atriz que mantém 18 anos de carreira construídos com personagens variados, mostra que quando o assunto é trabalho, sua dedicação é mais que obrigação. Exigente consigo mesma, a entrega aos personagens acontece de corpo e alma, evidenciando uma atriz em ascensão. ‘É um processo, e eu vivo intensamente aquele momento. Quando vou criar um novo personagem, faço terapia.’, diz. Protagonista em ‘Haja Coração’, Mariana tem a difícil missão de interpretar Tancinha, um dos personagens mais marcantes da televisão brasileira, que no passado foi vivido por Claudia Raia, em ‘Sassaricando’. ‘Tem o sotaque, ensaio, figurino, caracterização, mas sobretudo tem o meu coração.’, pontua. Nos últimos dois anos que ficou longe das telinhas, a atriz estava se dedicando ao cinema. Neste ano, está previsto para estrear cinco filmes (O Grande Circo Místico, Um Homem Só, Zoom, Uma Loucura de Mulher) e ‘Prova de Coragem’ que já ocupa as salas de cinema. Durante nossa conversa, ela falou sobre como as locações proporcionam aos atores um encontro para os personagens, e também a importância de entrar como produtora associada em alguns filmes. ‘Cinema no Brasil só se faz com ajuda de todo mundo’, conclui. Confira essas e outras novidades.


Depois do sucesso em ‘Joia Rara’ (2013), você volta ao trabalho em ‘Haja Coração’ que lembrará ‘Sassaricando’ (1987). Você chegou a assistir algum capítulo da novela?

‘Sassaricando’ tem quase 30 anos, mas é bom porque vamos apresentar para uma geração que não viu muito. Eu mesma sou uma delas. É claro, que haverá nostalgia das pessoas que assistiram. A Tancinha é um personagem icônico, mas agora vem a minha Tancinha. O que posso dizer é que estou fazendo com todo o meu amor. Espero que as pessoas recebam dessa maneira. Tem a responsabilidade claro, mas estou fazendo com todo meu amor. A Tancinha é uma mulher extremamente alegre, que gosta de viver, é muito pulsante. Nós gravamos na feira, quer ambiente com mais textura, cor, sabor e alegria que esse? Ela tem vivacidade, e ao mesmo tempo uma simplicidade, que é muito bonito e gostoso. A Claudia (Raia) falou pra que eu me divertisse, que esse personagem é pra ter prazer. Estou tendo muito trabalho, não é fácil, tem muitos ensaios, composição, é um trabalho artesanal, mas quando chego no set é um deleite.

Você comentou sobre a Claudia Raia, então quer dizer que você chegou a pedir algumas dicas com ela sobre o personagem?

Muito! A Claudia é uma das minhas melhores amigas, uma pessoa que eu admiro profundamente. Quando falei com ela, pedi muito a benção, mas também pedi licença, porque farei a minha Tancinha. É sempre um risco, mas resolvi correr. A vida andou, é uma novela contemporânea, outros personagens e tramas, não é um remake. Apesar da Tancinha ser mocinha na novela, ela é muito intempestiva, explosiva, do tipo que bateu, levou. Ela é uma feirante, acorda às quatro da manhã pra trabalhar, é muito irreverente. Eu trabalhei com uma psicanalista, chamada Kátia Achcar que me ajudou muito na composição, do ponto de vista psicológico. Nós fomos criando o corpo dela, porque é uma mulher que trabalha, que vive num ambiente alto astral, muito pra cima e alegre. A sensualidade dela não é usada como instrumento, ela não se preocupa em ser sensual, simplesmente é. Ela é muito autêntica.

Em algum momento você ficou preocupada em aceitar o convite pra viver um personagem que fez muito sucesso na época? Rolou um certo medo?

Quando recebi o convite me questionei sim, mas tive muitos conselhos à minha frente, que foi o Silvio de Abreu, criador da Tancinha e o Daniel Ortiz, que está construindo essa nova mulher. A Claudia foi a personificação da primeira, e o diretor dessa versão, comentou que eu seria da segunda. Como não acreditar? Quando comecei a trabalhar, ensaiar, fui na feira da Mooca ver as meninas, fui no Brás comprar roupas e ver esse universo, cheguei de coração aberto.

Mas você conseguiu circular normalmente por essa região tão popular?

Na feira eu fui com o meu pai, ele era o meu segurança do afeto (Risos). Lá o ambiente é muito familiar. Cheguei muito de peito aberto mesmo. Comentei com os feirantes, que faria uma pesquisa, porque iria interpretar uma. Todo mundo ficou feliz de ser retratado. Perguntei o que eles falariam pra vender, e eles comentaram que a fórmula é ser gentil, atencioso, cuidadoso, carinhoso, é você conhecer a freguesa. É ter olho no olho e perguntar o que ela quer. Você guarda o rosto daquela freguesa porque é um ambiente muito familiar, e tem toda semana, às vezes diárias. Você já sabe o que ela gosta, do jeito que gosta, o que vai levar. As brincadeiras de ‘não paga, mas também não leva’, ‘da minha mão é mais doce e mais gostoso’. Aprendi muita coisa. Estou aí me aventurando na comédia. Esse com certeza é um novo gênero, mas tem sido uma delícia.

A Tancinha tem um jeito peculiar de se vestir, em algum momento você se pegou com o visual dela, no seu a dia a dia?

Não está sobrando tempo, nem pra mudar o meu guarda-roupa, porque estou gravando muito. Hoje, por exemplo, nós já gravamos e amanhã às sete da manhã preciso estar no set. No que estou parecida com ela, é no jeito de falar, de gesticular e às vezes saí uma palavra errada, eu falo ‘meu Deus do céu’. É curioso, porque quando chego pra fazer uma cena, tem um certo momento, que vai bonito, sabe? É um processo, mas não que ele tenha acontecido de um dia pro outro. Comecei a preparar a personagem em janeiro, com o Tomaz Rezende. Nós começamos a gravar em fevereiro. Ficamos um mês trabalhando diariamente. Eu amo ensaiar, e quando chegamos às oito da manhã, entramos num processo, vemos a pessoa durante quatro horas, saímos para almoçar, voltamos e ensaiamos mais um pouquinho, a partir daí vamos criando uma intimidade, é natural.

Já que você comentou sobre o sotaque e também as cenas em que ela gesticula bastante. Como foi esse processo?

Eu tenho uma professora de prosódia, que trabalhou com a Claudia quando ela fez a Tancinha. Tive também uma pessoa que me ajudou muito, eu até falei o nome dela, que é a Kátia, psicanalista. Nós pensamos muito em como era essa menina, que estava com a vó, mas também com a família dela, que até fala certo. São pessoas que vivem na cidade, eles não falam errado, mas em São Paulo tem uma coisa do plural ou às vezes esquece e come algumas palavras.

Quando tem a oportunidade de ir à feira do que você mais gosta?

Ah, eu adoro pastel e caldo de cana. A feira que é montada no set é de verdade. Eles são feirantes mesmo. É bom porque eu tenho um curso, de como cortar uma fruta, como servir, como embalar, é muito legal. Tem cheiros também, porque vende peixe, camarão, caldo de cana, tapioca, queijo, pastel. Eu gosto de comida!

A Tancinha tem um lado bastante sensual e você já comentou que ela não se preocupa em ser. Como foi construí-la já que ela é uma pessoa ingênua?

Ela é sensual, mas sem pensar. Ela não usa a sensualidade, pelo contrário, até toma um susto quando é ressaltado. Ela é selvagem, mas completamente natural, simples e tem um coração gigante. Eu Mariana, quando topei o personagem disse que era meu, vou fazer com muito carinho. Tem o sotaque, ensaio, figurino, caracterização, mas sobretudo tem o meu coração. Estou colocando minha alma neste trabalho. Sei que não vai ter jeito, as pessoas farão comparações, algumas vão gostar, outras não, mas o que importa é que estou feliz. Espero que as pessoas recebam com o coração também.

Saberia dizer o que a sua Tancinha terá de diferente da Claudia?

A Tancinha da Claudia era puro coração também e doce. Não assisti muito, justamente pra não influenciar, mas procurei uma Tancinha um pouco mais doce, mais delicada (Risos).

Quanto ao triângulo amoroso, o que você pode adiantar?

Ela vai ficar toda ‘divididinha’, vai ser uma loucura, vai ficar pra lá e pra cá. Já tinha isso antes, né?! É muito bonitinho. Ela vai ficar em conflito, porque o amor com o Apolo (Malvino Salvador) é profundo e foi o primeiro.

Sobre ela ser uma mulher explosiva, como serão as cenas?

Na novela tem muita briga porque ao mesmo tempo que ela é delicada, sensual, é explosiva. Não pisa no calo dela. Ela também será atrapalhada. Nós já filmamos uma briga com a Tata Werneck, em que eu enfiei a cara da Fedora no bolo. Mas com o Apolo ela sai correndo atrás do caminhão pra dar bolsadas nele, parando o trânsito mesmo. Só nos tamancos.

Você intensificou na academia por conta de os vestidos serem mais apertados? Precisou de algum cuidado especial? Ela também usa bastante decotes...

A personagem aparece em algumas cenas dançando, então eu decidi fazer algumas aulas de balé e terminei pegando gosto pelo negócio, mas com a falta de rotina que nós atores temos, vai ser difícil manter. Estou fazendo um pouco de musculação, yoga e por aí vai...

Antes de começar a gravar, você também se dedicou bastante ao cinema, e tem alguns filmes que serão lançados este ano. Como você faz para se despedir de um personagem e engatar em outro logo em seguida?

É um processo. Quando vou criar um novo personagem, faço terapia. Eu Mariana tenho uma terapeuta, e para o personagem uma psicanalista que me ajuda a compô-lo. Trabalho com essa psicanalista há mais ou menos oito anos.

Recentemente você lançou o filme “Prova de Coragem” em que interpreta a Adria, uma artista plástica que decide ter um filho. Como foi a construção desse personagem?

Esse trabalho foi muito simbólico, mas não só pro personagem, mas pra mim também. Por ela ser uma artista plástica, existe força no trabalho dela, que acontece a partir de uma árvore que é natureza pura, que é a terra, um símbolo muito forte. Ela é uma mulher de iniciativas na vida. O relógio biológico bate, ela vê no filho uma possibilidade de segurar a relação, mas não segura e tem a questão do trabalho. É provocativo mesmo, paras as mulheres pensarem. Ela é uma potência feminina. Outra questão que eu adoro é sobre como estão as relações contemporâneas. Como atriz, eu não podia julgar muito o comportamento da Adri, o porquê de ela agir dessa maneira. A Adri é uma mulher que não faz concessões, quer tudo, tanto no amor quanto no trabalho. Mas a vida não é assim, não dá para ter controle sobre tudo. No fundo, sinto que há uma imaturidade nos dois, tanto na Adri quanto no Hermano (Armando Babaioff), e por isso eles vivem esse impasse.

Você poderia falar um pouco mais sobre o que pensa a respeito dos relacionamentos contemporâneos?

Eu comentei sobre relacionamentos entre homens e mulheres de 30 anos, que envolve um casal, como por exemplo, maternidade e paternidade. A minha personagem está com o relógio biológico apitando, mas o marido tem medo e é inseguro. Hoje em dia as mulheres com essa idade, enfrentam essas questões. O ser mãe e separar um tempo para isso, mas também tem a vida profissional. Não gosto de fechar os meus pensamentos porque está no filme. Um prato para as pessoas saborearem e a partir disso fazerem suas reflexões, sobre as dificuldades que um relacionamento tem.

E com o Armando Babaioff? Houve um trabalho de aproximação e intimidade antes de filmar?

O Armando é um ator maravilhoso, um companheiro de cena incrível. Cozinhava pra gente quase toda noite no hotel. Foi muito importante passarmos um período isolados em Porto Alegre. Os filmes de locação proporcionam a nós atores um encontro, um ajuste ideal com os personagens. Porto Alegre tem uma geografia própria, pessoas diferentes do resto do país. A melhor plateia que tive na minha última peça foi a do teatro São Pedro, na cidade. E já namorei um gaúcho, conheço bastante a cultura. Armando e eu jantávamos juntos, tomávamos vinho e íamos assim construindo a intimidade de Adri e Hermano. Logo nos nossos primeiros encontros, já tivemos aulas de escalada. A escalada traz alguns ensinamentos: não interessa chegar ao seu cume, o que interessa é a via a ser percorrida. Ao subir as montanhas, você nunca está sozinho; é preciso sempre dois escaladores juntos. A corda era um pouco como o cordão umbilical que unia aquele casal.

A Adri é uma artista plástica que trabalha com madeira e materiais orgânicos, um pouco como o Franz Krajcberg. Você fez algum tipo de pesquisa antes das filmagens? Conversou com artistas plásticos?

Sou uma grande admiradora de artes plásticas. O Adrian Cooper, nosso diretor de arte, colocou os troncos e galhos de árvore bem no meio do quintal da casa para que eu começasse a manusear. Foi importante poder pegar naqueles troncos, dar as machadadas, sentir que estava fazendo aquele trabalho. Como referência, lembrei muito de uma exposição do [pintor e escultor alemão] Anselm Kiefer que vi no Grand Palais em Paris. O Kiefer trabalha muito com pedaços de barro, de galho.  Fui atrás de livros sobre ele para me inspirar.

Neste filme, você entrou também como produtora associada. Como foi esse trabalho?

Tentei, da melhor forma possível, ajudar a viabilizar o projeto. Ajudei muito nos figurinos, consegui uma barriga de grávida para a Adri. Enfim, fui lutando junto com a Monica (Shmiedt, produtora), o Roberto (Gervitz, diretor) e toda a equipe para as coisas acontecerem. Cinema no Brasil só se faz com ajuda de todo mundo, né?

 
DÉBORA BLOCH “Tento dar uma educação humanista aos meus filhos”

POR MICHELE MARREIRA

“Filho de peixe, peixinho é”. O conhecido ditado popular se aplica muito bem à atriz Débora Bloch, que, ainda na infância, acompanhava seu pai, Jonas Bloch, nos ensaios do consagrado texto de William Shakespeare na peça Hamlet. Na ocasião, aos sete anos de idade, viu uma luta de esgrima entre ele e o saudoso Walmor Chagas na construção de seus personagens na montagem brasileira. Cresceu encantada com o universo das artes cênicas. Não poderia ser diferente. Tinha na própria casa um dos maiores mestres da dramaturgia. No final da adolescência chegou a passar em dois vestibulares: História e Comunicação. Entretanto, após realizar um curso de teatro, percebeu que sua real vocação era mesmo nos palcos. Foi então que estreou profissionalmente no ofício em 1980 no espetáculo Rasga Coração, substituindo Lucélia Santos na época. No mesmo ano fez sua estréia em televisão numa participação na novela Água Viva. Logo em seguida viveu a personagem Lívia em Jogo da Vida conquistando o prêmio de atriz revelação pela Associação Paulista de Críticos de Arte daquele ano.  Em Sol de Verão, na pele de Clara, contracenou com nomes de peso como Tony Ramos, Jardel Filho e Irene Ravache. O tablado sempre a instigava e nesse período já integrava o grupo teatral Manhas e Manias que misturava humor, circo e música. “O teatro é um lugar de muita intimidade artística e humana”, pontua.  Apaixonada pelo oficio sempre transitou muito bem por linguagens distintas e gêneros como drama e comédia. Sendo esse ultimo marcando sua trajetória com a inesquecível série TV Pirata, dando um show de versatilidade em esquetes e quadros fixos. Mãe de dois filhos, Júlia (22) e Hugo (18), define-se como verdadeira coruja e bem próxima de sua prole conversando sobre diversos temas com ambos. “Nenhum assunto é tabu”. Atualmente você pode encontrá-la de sexta a domingo encenando “Os Realistas” de autoria do americano Will Eno em São Paulo. “Esse texto é preciso, não tem piloto automático, difícil decorar, sempre o passamos antes de começar a peça. Apesar de conhecer bastante a personagem estou sempre descobrindo coisas”, esclarece. Depois de finalizar ano passado o folhetim Sete Vidas como uma das protagonistas da história, Débora está em processo de estudo e construção de sua futura cria da ficção, na série Justiça, prevista para estrear no segundo semestre na Rede Globo. TUDO bateu um papo franco e descontraído com a artista.

Vamos falar de família e maternidade. Como você se define como mãe: ciumenta, protetora ou desencanada com seus dois filhos, Júlia e Hugo?

A Júlia está fazendo faculdade nos Estados Unidos há três anos morando lá. O Hugo fez 18 anos e já está se preparando para entrar numa universidade também. Eles estão grandes. É um momento diferente de quando eram pequenos. Naquela época eu era àquela mãe que coloca regras, limites e horários. É saudável quando se é criança. Ao mesmo tempo sou uma mãe que conversa muito com eles sobre todos os assuntos com bastante diálogo. Tento dar uma educação humanista aos meus filhos. Nenhum assunto é tabu. Isso cria uma proximidade entre nós.

É impressionante a semelhança física entre Júlia e você. Fica orgulhosa quando falam que se parecem tanto? Qual o sentimento?

Somos muito parecidas mesmo (risos). Dá um orgulho sim, é legal ver a nossa continuação, é bonito. Sou uma mãe bem coruja apaixonada pelos meus filhos.

Débora, você está cada dia mais bela no auge de seus 53 anos. Apesar dessa constatação positiva, em algum momento nessa transição, passou pela crise dos 50?

É uma passagem importante essa “dos 50”, realmente é um divisor. É um marco, estamos entrando em outra fase. Não é fácil. É preciso saber o que isso traz de bom e aceitar que é o início do envelhecimento. Lutar contra é uma batalha perdida. Quando temos saúde tudo se torna mais fácil.

A experiência traz mais segurança no decorrer da vida?

Quando temos mais experiência adquirimos mais consciência dos riscos. Quando se é jovem nos atiramos sem medo. Por outro lado, com o tempo, temos mais ferramentas e recursos conhecendo mais o processo. Já sabemos que iremos passar pelo medo, mas o superamos e talvez soframos menos. Isso também não quer dizer que estejamos mais seguros.

Sua ultima novela, Sete Vidas, foi um projeto que caiu nas graças do público e critica, pelos temas abordados e as atuações intensas no horário das seis. Como foi integrar o folhetim no qual era uma das protagonistas?

Esse é o grande barato da nossa profissão é sempre um aprendizado a cada texto, autor e personagem.

Você trabalhou com o Emilio de Mello e o Guilherme Weber na série Queridos Amigos, exibido pela Rede Globo em 2008. A partir daí surgiu a vontade de trabalharem juntos no futuro em um espetáculo teatral?

O legal de cada trabalho é fazer novos amigos ao final. É sinal que aquele projeto nos transformou de alguma maneira. Em “Queridos Amigos” tivemos o prazer de trabalharmos juntos e, não necessariamente, já estávamos pensando nessa peça, porém ficamos bem próximos, fiz outros projetos com Emílio inclusive.

E essa afinidade é primordial nesse momento na peça “Os Realistas”?

É tão importante a relação que temos com as pessoas na coxia (bastidores) quanto no palco. O teatro é um lugar de muita intimidade artística e humana. É um processo intenso e profundo. Não há superficialidade, por isso é importante eu estar com pessoas que eu admire e confie.

Vocês ficaram três meses em cartaz com a peça no Rio de Janeiro e em abril estrearam em São Paulo no Teatro Porto Seguro. Dá para sentir-se confortável vivendo a personagem Pônei uma vez que você já vem fazendo-a um bom tempo?

A palavra conforto nesse caso precisa ser entendida. É um mal sentido de estagnação que pode acontecer no teatro. Fica parecendo que você morreu... Nesse caso se estivermos muito confortáveis quer dizer que não estamos tão vivos, sem motivação para buscar o novo.

Vamos falar mais sobre a Pônei... Quem é essa mulher?

Ela é bem estrambelhada e um tanto ingênua (risos). Pônei é uma mulher que envelheceu e não amadureceu. Tudo pra ela é “quase”, “meio”, “tipo”... São palavras do seu vocabulário. A sua dificuldade de lidar com a realidade a torna frágil e divertida. Esse texto fala das nossas fraquezas, medos. Existe a história dos dois casais que falam sobre seus relacionamentos nos casamentos, mas fala também como compartilharmos nossas fragilidades. Ela tem humor é uma personagem tocante bastante diferente de mim, está sendo uma alegria fazê-la.

Como tem sido se apresentar ao público de São Paulo?

Fizemos uma temporada bem legal com teatro cheio todos os dias no Rio, tivemos uma resposta até surpreendente, a peça se comunica muito com o público. Aqui, em São Paulo, estamos em um espaço diferente, maior, muda um pouco. Teatro é algo vivo nunca sabemos como é. Esse texto é preciso, não tem piloto automático, difícil decorar, sempre o passamos antes de começar a peça. Apesar de conhecer bastante a personagem estou sempre descobrindo coisas.

Após seu ultimo espetáculo “Brincando em cima daquilo” (2008), embora você tenha excursionado com a peça por algumas cidades, por que ficou alguns anos longe dos palcos? O que te motivou nesse texto a ponto de produzi-lo também?

Eu estava muito ocupada com outros trabalhos. É difícil encontrar um texto onde eu possa dizer “esse eu quero fazer”, que me bata ao coração. Há dois anos eu tinha um projeto de uma peça, nesse período tentei montar esse espetáculo, mas nada fluiu na produção...  E aí apareceu o texto do Will Eno. Porém, entre querer fazer e estrear leva-se pelo menos dois anos. Está cada vez mais difícil produzir, isso faz com que fiquemos cada vez mais longe do palco.

Além da peça você está reservada para algum projeto na TV Globo?

Farei uma série chamada Justiça, texto da Manuela Dias e direção de José Luiz Villamarim. Será bem interessante estou bastante estimulada. Começamos a gravar em maio e acredito que a previsão de estréia seja no segundo semestre desse ano.

 
O Mundo De Rodrigo Santoro

Intenso, apaixonante e impiedoso. Estamos falando de Afrânio, personagem de Rodrigo Santoro, que após 13 anos longe das novelas brasileiras, está de volta em “Velho Chico”. Sobre este trabalho ele disse: “É um personagem que viverá emoções fortíssimas. Não é necessariamente um bom exemplo. Não recomendo para as crianças que estão assistindo em casa. O Afrânio tem uma série de conflitos. Ele é colocado numa situação, e a forma como ele lida, é muito particular”. Para viver este personagem, Rodrigo precisou viajar para algumas regiões do Nordeste, e se surpreendeu com a beleza das terras brasileiras. “Tive um encontro absolutamente fabuloso com a região”, comentou eufórico. Nesta entrevista, ele também fala sobre o envolvimento com o diretor Luiz Fernando Carvalho, e a chance de trabalhar pela primeira vez, um texto supervisionado por Benedito Ruy Barbosa. “Eu sempre admirei as novelas dele, que particularmente me tocam, porque eu também fui criado no campo, e a temática do Benedito sempre foi essa”. Mas Santoro além de emprestar mais que suor ao personagem, teve a oportunidade de conhecer uma comunidade indígena, na qual segundo ele, foi a parte mais emocionante durante as gravações. “Depois de um dia intenso, eu tomei banho da mangueira de um caminhão pipa, com as crianças em Raso da Catarina, uma comunidade pequena, no sertão da Bahia. É algo que eu nunca irei me esquecer, mas ao mesmo tempo, foi tão doloroso, ver a alegria daquelas crianças ao verem a água.”, lembrou. Com tempo contado, Rodrigo finaliza as gravações da primeira fase da novela, e já pensa em retornar para os Estados Unidos, para terminar as gravações de “Westworld”, de J. J. Abrams. Mas, por enquanto, podemos nos deliciar com sua representação, e como ele mesmo disse, nos emocionar com este trabalho que toca algumas questões, como o Rio São Francisco e também faz uma crítica social. Confira!

Tudo - Não faltaram convites para você voltar às novelas no Brasil, mas decidiu aceitar participar de “Velho Chico”. Por que?

Quando eu li o texto de “Velho Chico”, eu disse: “Uau, a história é linda”. Eu me emocionei lendo, o que é muito difícil de acontecer. Eu tenho uma série de elementos que constituem essa resposta. Começando pelo parceiro que eu admiro muito, que é o Luiz Fernando (Carvalho, diretor da trama), com quem trabalhei no seriado “Hoje é Dia de Maria” (2005). Sempre fiquei com muita vontade de voltar a trabalhar com ele novamente. Também a ideia de eu trabalhar com um texto do Benedito (Ruy Barbosa). Eu sempre admirei as novelas dele, que particularmente me tocam, porque eu também fui criado no campo, e a temática do Benedito sempre foi essa. O que me fez aceitar este convite, é a própria história e a personagem que é muito interessante, muito rica. O Afrânio se transforma em cada capítulo, vai amadurecendo. É um personagem que viverá emoções fortíssimas. Não é necessariamente um bom exemplo. Não recomendo para as crianças que estão assistindo em casa. O Afrânio tem uma série de conflitos. Ele é colocado numa situação, e a forma como ele lida, é muito particular. É muito interessante de se fazer, porque representa algo muito mais importante na história do nosso país. Falamos sobre as origens do coronelismo, que provém da tradição patriarcal brasileira, e nós vamos tocar numa série de questões, além do Rio São Francisco, do amor e nós temos também uma crítica social sendo feita. O meu personagem representa muito mais que isso.

Tudo - Agora que sabemos que o convite partiu do Luiz Fernando, e a sua admiração pelo diretor, quais pontos a história mais te tocou? Você disse que se emocionou lendo...

Eu queria fazer um trabalho mais substancial. Não importava se era longo, curto, filme, série ou novela. Queria um belo trabalho! Neste caso, nós tivemos profissionais incríveis fazendo a reconstrução, até mesmo o próprio Luiz Fernando, que é muito cuidadoso com tudo. A ideia de estar numa novela, me agradou muito, porque o folhetim possibilita o diálogo com grande público, de uma forma única. Até mesmo pelo horário que é exibido. Estava com vontade de chegar mais perto das pessoas. Fazia muito tempo que eu não tinha esse contato. Senti muita falta. Acho que o artista realmente, sem demagogia, precisa dessa proximidade, porque alimenta a alma. Estou muito feliz! Satisfeito! Cansado, muito cansado (Risos), mas um cansaço que dá uma sensação boa, sabe?! Sinto-me realizado e grato por este trabalho, por fazer parte dessa novela e de estar com essas pessoas.

Tudo - Você comentou sobre o Afrânio ser um personagem rico. O que necessariamente você precisou de laboratório para poder interpretá-lo?

O lugar em que você está, neste momento, em que nós estamos sentados, é um solo sagrado. Não porque ninguém aqui é especial, mas porque nós sacralizamos este galpão com o nosso amor, com o nosso respeito que temos pela nossa profissão. É um ambiente de criação. É muito interessante passar por aqui mais uma vez.

Tudo - Durante as filmagens vocês visitaram lugares maravilhosos, como o Rio Grande do Norte. Como foi essa experiência com o Nordeste?

Eu já conhecia as praias, mas como turista, e sinceramente eu tinha outra imagem de lá. Dessa vez, estive no interior. Tive um encontro absolutamente fabuloso com a região. Andamos por várias partes e acho que tive uma oportunidade muito especial, de conhecer as entrelinhas do sertão. Uma experiência inesquecível. O que mais me chamou a atenção foram as pessoas que eu encontrei. São tantas emoções, histórias, que fica até difícil escolher uma. Tudo encheu os meus olhos e meu coração. Quando você se depara com um sertanejo, e pergunta as horas, ele olha para o alto e te diz: “são quatro e quinze”. Ele vê pelo sol, não pelo relógio. Esses detalhes, acabam nos colocando onde nós deveríamos estar. Quis entender um pouco da alma do povo do sertão. Pude chegar bem próximo disso. Espero que dê pra ver na telinha também.

Tudo - Você comentou que já conhecia a região, mas durante os intervalos das gravações, você conseguia manter contato com os regionais?

Quando eu tinha um pouquinho de tempo, entre uma gravação e outra, eu procurava me relacionar com as pessoas. É aí que você começa a se aproximar mesmo da vida deles, como eles se relacionam com a natureza, e até mesmo uns com os outros. O que me deixou muito tocado, foi a força deles. Quis entender de onde ela vem, entender porque essa alegria quase inverossímil pra quem vive tanta miséria, passa por tantas dificuldades.

Tudo - Desse contato com a população, que momento mais te marcou?

Nós gravamos em alguns lugares que parece que o tempo não passou. Trabalhamos em vários estados do Nordeste. Começamos pelo Rio Grande do Norte, depois Bahia, Alagoas, Sergipe, enfim...  Nós passamos por vários lugares, e eu vi coisas que me comoveram muito. Depois de um dia intenso, eu tomei banho da mangueira de um caminhão pipa, com as crianças em Raso da Catarina, uma comunidade pequena, no sertão da Bahia. Quem nunca ouviu falar deste lugar, vale à pena pesquisar. É incrível! É algo que eu nunca irei me esquecer, mas ao mesmo tempo, foi tão doloroso, ver a alegria daquelas crianças ao verem a água. Ali existe uma aldeia de descentes de índios. E, não tem água. Quando nós chegamos, os seguranças da emissora, foram armando um esquema de segurança. A produção ficou preocupada com a questão do assédio, mas eles não estavam nem aí. O caminhão pipa é que era a grande estrela. Foi muito marcante. Alguns me conheceram. E, me trataram com muito carinho. Eles estão conectados com a vida de verdade. Com a natureza, com o que realmente é valioso. Não estão preocupados com a roupa que você está vestindo, com quem você falou, ou com quem você está namorando. Eles querem lhe conhecer. Querem olhar nos seus olhos e saber como você é. Foi uma experiência muito bonita.

Tudo - Mas em algum momento a equipe sentiu dificuldades durante as gravações, em lugares mais remotos?

Foi difícil também! Muito calor! Estávamos no auge do verão. Na Bahia a umidade é muito grande. Ainda mais quando o personagem está vestido com os figurinos de época. As pessoas vão perceber que em muitas imagens, eu estou transpirando. Aquilo não é maquiagem. Todo o suor que as pessoas virem na tela, é real. Posso dizer que este trabalho foi suado mesmo! Literalmente! Nós tivemos uma situação, em que estávamos gravando no carnaval na Bahia e pedimos a algumas pessoas para darem uma segurada na música. Havia um bloco de rua e tudo mais! Você acredita que na Bahia, o camarada segurou o tambor? Foi de muito respeito. Eu fiquei emocionado!

Tudo - Outro detalhe interessante do seu personagem é o visual e as pessoas gostaram bastante. O que foi necessário para fazer essa mudança?

O Luiz Fernando que definiu o visual do personagem, e eu fiquei com aquela ideia na cabeça. Um dia eu fui dormir e acordei assim (Risos). Foi uma piada! Esse é um trabalho de caracterização da novela. Esse cabelo é uma mistura. Não vou contar o segredo do Papai Noel (Risos). Essa caracterização demora algumas horas por dia, da equipe de produção da trama. Meu visual tem tudo a ver com o personagem. Bem selvagem. Como se diz lá no Nordeste, Afrânio é arretado e destemperado.

Tudo - Nós sabemos que nesta novela você fará apenas a primeira fase, mas ficou a vontade de participar de todo o projeto?

Agora não será possível. Estou trabalhando no seriado “Westworld”, nos Estados Unidos, e este foi o momento, em que eles deram uma pausa nas gravações. Nós já temos prontos seis episódios, e eles foram retrabalhar os últimos. Eu tive um hiato, como eles chamam. Foi então que surgiu o convite, e foi absolutamente perfeito. Por enquanto, estou terminando de gravar “Velho Chico”, mas assim que eu acabar, volto imediatamente para os Estados Unidos.

Tudo - Recentemente você participou do programa “Domingão do Faustão” e em alguns momentos era clara a sua emoção...

Eu já estava com saudades de interpretar na minha língua materna. Posso lhe dizer que aquela emoção no programa, foi uma síntese da alegria que estou sentindo. Do prazer de estar trabalhando em casa novamente, de ter esse carinho, e ser recebido como fui pelos colegas de profissão e dos novos que fiz nessa trama. Nós temos um elenco incrível! Nós, seres humanos, não conseguimos definir as nossas emoções, porque somos complexos demais. Por isso, posso lhe afirmar que aquela foi absolutamente espontânea, não controlada. O dia em que nós conseguirmos controlar, aí acaba.

Tudo - Você comentou sobre voltar a interpretar, falando na sua língua materna. Mas em breve volta para Hollywood. Como você se sente?

Sempre foi muito difícil me dividir, entre trabalhar lá fora e por aqui. Na verdade, considero que tudo isso, faz parte da mesma estrada. É um único caminho e estou seguindo por ele. Quanto ao futuro, não sei exatamente. Talvez não faça trabalhos muito maiores, porque são mais difíceis de estruturar, pela dinâmica que a minha vida tomou hoje. Agora, por exemplo, vou entrar em um trabalho nos Estados Unidos, que vai me permitir ficar mais por aqui. Uma série com começo, meio e fim, mas tudo depende dos trabalhos, das coisas que surgirão pelo caminho.

Tudo - Saberia dizer qual trabalho mais te satisfaz? Seria no Brasil ou nos Estados Unidos?

É como você comparar um filho. Você tem filho? Eu também não, ainda. Como você fala: “Você prefere o seu filho mais velho ou o mais novo?”. Então, eu não comparo uma coisa com a outra. É difícil você falar, fazer comparações.

Tudo - Logo mais seu personagem será interpretado pelo ator Antônio Fagundes. Vocês chegaram a se falar? Como tem sido essa parceria?

Nós não chegamos a fazer uma preparação juntos. Ele foi até a Bahia quando estávamos gravando. Eu também fiz um filme (A Dona da História, 2004), em que o Fagundes me interpretava mais velho. Eu tenho muito orgulho de entregar esse personagem pra ele. É lisonjeador!


 
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