Entrevista Capa
Rodrigo Lombardi divide o tempo com a família e o trabalho

Já faz um tempinho que “Verdades Secretas” acabou, mas ainda assim permeia o imaginário de muitas mulheres, que ficaram fascinadas pelo personagem Alex, vivido por Rodrigo Lombardi. Para ele, não foi nada fácil deixar o mulherengo e sedutor para trás. Ainda mais quando a fama de galã, ganhou ainda mais destaque por causa da trama. “Muitas pessoas dizem que o Rodrigo está construindo vários galãs, mas não é assim. Poucos sabem, mas meu trabalho na televisão, vem de 12 anos pra cá. Entretanto, eu vim da comédia, do teatro de composição de personagens. Quando me colocaram nesse lugar de galã, comentaram que eu só faço isso. E, não é assim.”, diz com certo incomodo, mas afirmou que o rótulo já não o chateia mais. Mas como este mês é especial, a Revista Tudo, também aproveitou para conversar sobre paternidade. Com brilho nos olhos, Rodrigo revelou-se um excelente pai, que busca não só qualidade de vida para o seu filho, mas passar valores éticos, que aprendeu com o seu pai. “Os meus princípios são: Faça o bem, sem olhar a quem. Curta o seu espaço, o máximo que você puder, sem invadir o do outro. Mostre um mundo melhor para o seu filho. Se eu conseguir passar 1% do que o meu pai me passou, eu ficarei muito feliz.”, comenta. Com um relacionamento afetuoso com o filho Rafael de 7 anos, fruto de seu relacionamento com a maquiadora Betty Baumgarten, Rodrigo diz que acredita que a razão de estarmos aqui, resume-se a paternidade e maternidade. “Porque nós estamos aqui? Se existe uma razão e função de estarmos aqui na terra, é a paternidade e maternidade”, responde. “Eu tenho uma criança dentro de mim. Ela tenta crescer, e eu não deixo. Essa criança continua aqui. Quando ela tentou crescer novamente, eu tive um filho que a alimentou dentro de mim”, revela o ator, que faz um paralelo sobre os seus sentimentos do início de carreira. A partir de agora, prepara-se para conhecer um pouco mais sobre a história desse homem, que encarou desafios e sabe muito bem como lidar com o sucesso.

Revista Tudo - No cinema (O Olho e a Faca) você viverá um petroleiro. Como pretende compor esse novo personagem?

Rodrigo Lombardi - Esse é um filme do diretor Paulo Sacramento, em que eu interpreto o Roberto. Nós ainda estamos rodando, e vamos terminar no final de agosto, começo de setembro. Terminaremos na plataforma de petróleo, na qual ficaremos 15 dias, depois voltamos pra São Paulo. A história conta o drama de um petroleiro. O filme irá mostrar a vida desses trabalhadores. Um universo que nós não conhecemos. Mas na verdade, o personagem não é tão focado na função de petroleiro. Existe a função dele, mas a ideia é falar sobre a vida dessas pessoas, que passam metade do tempo embarcada no mar, e outra em terra firme. Quando surge um problema na plataforma, mas ele está embarcado, tudo bem. Quando está em terra e existem outras situações, ele consegue solucioná-las. O dilema é quando as coisas começam a inverter. É quando a vida dele começa a ficar mais difícil. O filme trata justamente dessa situação.

Você participou do início de “Velho Chico” e a novela está indo super bem. Nos próximos capítulos o seu personagem será bastante citado. Você tem acompanhado a trama?

Às vezes eu vejo, mas o excesso de trabalho não deixa. É o início de tudo, e a novela é muito linda. Mas quando não estou trabalhando eu procuro assistir sim. Ela está indo super bem. Eu acho que estava faltando essa mistura lúdica com realidade, e a novela tem isso, que vem na forma de esperança. Perdemos a nossa identidade com o passar dos anos e agora estamos correndo atrás do prejuízo. Nós esquecemos o que somos e essa novela vem pra resgatar. Para mostrar uma brasilidade que nós deixamos de lado. O Brasil é um país de agricultura. Sempre foi e sempre vai ser. É sobre isso que estamos falando.

É verdade que você está confirmado para a próxima novela da Glória Peres? O personagem será um novo galã?

Eu não posso falar sobre o personagem, porque ainda não sei nada a respeito. Mas posso dizer que farei o bonzinho, mas não serei galã não. Até porque não sou mais, tem uma galera de galãs chegando, uma nova geração de atores. Nós tivemos um pequeno briefing sobre o que é, mas não vou dizer, até porque, pode ser que eu erre. Mas ele tem alguns momentos, muda de função, e tem upgrade que vai ser o desenrolar de uma parte da trama. Ainda não tenho ideia, de quem fará parte do meu núcleo, mas pelo pouco que sei, tem a Paola Oliveira que será meu par romântico, e não sei mais nada. Não posso falar nada, porque está tão no início, e pode ser que as coisas mudem, e eu erre. Vamos esperar ter a primeira reunião com o elenco, com todo mundo, pra eu poder soltar o que de fato vai acontecer.

Você comentou que ele é um mocinho, diria que é mais fácil para o ator?

Não, é o contrário, é muito mais difícil porque o vilão te dá muito mais oportunidade, então você surfa naquela onda. E o mocinho temos que ter cuidado, para ele não ficar chato. Nós temos que fazer com que as pessoas entendam os personagens.

Você é um ator que está sempre muito bem vestido de forma elegante. Você gosta de estar sempre na moda?

Eu sempre gostei de moda, aliás, trabalhei com moda por causa do meu pai que era representante. Nós trabalhávamos com camisaria e malharia durante muito tempo. Cresci vendo o que era um bom corte, um bom tecido, o que é tendência, o que é clássico, repaginado, o que não morre nunca. Meu pai me ensinou tudo isso. O que me ajuda bastante na hora de me arrumar. Também sou uma pessoa muito ligada a cheiro, que é importante pra mim. A minha vaidade é estar bem, feliz e confortável. Gosto de design, de perfume, enfim, mas nada que me obrigue a seguir certa tendência. Eu só uso o que eu realmente gosto.

Mas você se considera um ator muito vaidoso?

Vaidade é algo que um ator não pode ter. Muitas pessoas dizem que o Rodrigo está construindo vários galãs, mas não é assim. É muito difícil. Poucos sabem, mas meu trabalho na televisão, vem de 12 anos pra cá. Entretanto, eu vim da comédia, do teatro de composição de personagens. Quando me colocaram nesse lugar de galã, comentaram que eu só faço isso. E, não é assim. As palavras vão tomando uma proporção equivocada ao longo do processo. O grande trabalho de um personagem, é a desconstrução. Depois que esse personagem acaba, o trabalho de desintoxicação é às vezes prazeroso, ou difícil, doloroso. No caso do Alex (Verdades Secretas, 2015) foi um trabalho prazeroso, porque mexia com uma energia que eu não gostava. Mas nós precisamos acessar. Se não, perdemos a nossa função. No dia seguinte, após o termino de Verdades comecei a participar do espetáculo Urinal – O Musical. Um projeto de composição. Um trabalho de minha raiz. Algo que eu adoro. Nesse espetáculo eu ainda estava me desintoxicando. Nesse meio tempo, junto com tudo isso, começou o trabalho em Velho Chico. O processo foi rápido e foi nascendo outra coisa. O que eu quero dizer com tudo isso, é que às vezes, você constrói um personagem, ou ele vem até você.

Você ainda se incomoda quando recebe o rótulo de galã?

Já incomodou, mas hoje não mais. As coisas que as pessoas falam são delas, né? Não é o rótulo que vou usar no meu trabalho. O Luiz Fernando Carvalho (diretor) sempre fala que não podemos pensar no ibope. Não dá pra pensar no ibope, e não dá pra pensar em rótulos. A única coisa que eu quero pensar é no meu trabalho.

Você comentou sobre ter aprendido algumas coisas com o seu pai, e agosto é um mês especial. Como descreveria a paternidade?

A paternidade, é simplesmente a resposta que ninguém nunca encontra. Porque nós estamos aqui? Eu estou no mundo pra olhar pelo meu filho e talvez para os próximos, se eles vierem. Se existe uma razão e função de estarmos aqui na terra, é a paternidade e maternidade. Acredito que esse seja o motivo de estarmos todos aqui.

Que lições você gostaria de passar para o seu filho, que de certa forma aprendeu com o seu pai?

Tudo! Como dignidade, respeito, ética que são valores que nos moldam como ser humano. Os meus princípios são: Faça o bem, sem olhar a quem. Curta o seu espaço, o máximo que você puder, sem invadir o do outro. Mostre um mundo melhor para o seu filho. Se eu conseguir passar 1% do que o meu pai me passou, eu ficarei muito feliz. Em alguns momentos, eu tento melhorar muito, pra que eu me torne igual a ele. Eu quero seguir os passos que meu pai seguiu. Em outros momentos, eu tento ser melhor do que ele. Eu quero passar para o meu filho, os valores que eu aprendi. Espero que ele siga dessa forma.

Você comentou sobre os valores. Como você pretende passar pra ele?

É tentativa e erro. Não tem jeito. Procuro ensiná-lo a ser educado, como por exemplo, cumprimentar todo mundo, dar bom dia...  É isso. São pequenas atitudes que formarão o caráter dele.

E já que estamos falando de criança, recentemente você dublou um desenho infantil (Zootopia). Foi a primeira vez que você fez esse tipo de trabalho? Como foi essa experiência?

Não, essa é a minha quinta vez. Comecei a minha carreira de ator como dublador. O meu primeiro DRT é de radialista. Mas desde quando eu comecei, a coisa evoluiu demais. Hoje é muito mais tranquilo, do que quando comecei. Antes, se errássemos o final de uma frase, tínhamos que refazer tudo novamente. Hoje não, se você fez uma parte que saiu boa e a outra ruim, dá pra ajustar. Esse trabalho, não foi moleza, pelo contrário, foi um desafio muito gostoso, porque é um universo que nós escolhemos. Poder entrar neste mundo, que participamos desde quando nascemos, ser parte afetiva dessa edificação, é muito gostoso. Muito, muito bom. O resultado foi lindo.

Na sua carreira já são inúmeros personagens com diversas personalidades. Você gosta de trabalhar essas variações?

É excelente. Por isso, escolhemos essa carreira. Se fosse pra fazer a mesma coisa sempre, eu ia trabalhar num escritório. Ia bater carimbo.

Voltando um pouco no início da sua carreira, sua primeira trama foi “O Meu Pé de Laranja Lima”, exibida na Band.  Você ainda se recorda dessa época?

A gente sempre lembra. “O Meu Pé de Laranja Lima”, é um clássico. Antes de fazer eu já tinha lido a obra, que é algo que sempre gostei. E, fazer parte dessa trama foi muito importante pra mim. Fazer a cena Gianfrancesco Guarnieri, ser dirigido pelo Henrique Martins. Aprendi bastante com eles. Inclusive o Henrique foi um grande galã no passado. O tempo vai passando e você vai juntando esses momentos, e, é isso que faz virar a história.

O que você guarda do Rodrigo do início da carreira?

A infância. Eu tenho uma criança dentro de mim. Ela tenta crescer, e eu não deixo. Essa criança continua aqui. Quando ela tentou crescer novamente, eu tive um filho que a alimentou, dentro de mim.

Falando em criança interior, é verdade que você é nerd?

Sou! Eu assisti recentemente Star Wars: O Despertar da Força. Jogo videogame, amo jogar. Meu sonho é ser um X-Men. Ser um dos vingadores. Esse universo muito me agrada em si.

Mas se tivesse que escolher entre o Wolverine e o Capitão América, qual seria o herói que você gostaria de interpretar?

Entre esses dois, eu gostaria de ser o Wolverine. Entrar nesse universo, que é onde eu nasci, que é o da construção, e volto a falar. É onde resulta tudo isso, que nós gostamos. É onde vou pesquisar e como vou transformar isso, em uma coisa mais visceral. Já é um trabalho que entra em uma outra seara. O meu trabalho de construção vem todo por aí. Eu tenho que ir para o mundo dos sonhos, mesmo que seja para fazer algo que não é nada. Eu tenho que beber dali. Caso contrário, não conseguiria fazer. Transpiramos muito, fazemos trabalho de corpo, musculação, abdominal, fazemos leituras, exercícios. Com esse trabalho de corpo, acabamos conhecendo todas as articulações. É um trabalho de você para você mesmo. É autorreflexão. É bonito. No meio do exercício, que não tem nada a ver, você começa a chorar. Começa a conhecer lugares dentro de você, que não fazia ideia. Ser ator é um trabalho muito bonito.

É fácil deixar o personagem no trabalho e voltar para a casa sendo você mesmo?

Não sei. Você acaba levando sim. Não tem jeito. Você não pode ser o personagem dentro de casa, mas essa sensação fica. Nos tornamos o que somos, ao longo da carreira, porque somos impregnados dessas sensações. Algumas abandonamos, por causa de novos trabalhos, outras revisitamos. Elas precisam ser estimuladas a todo tempo. Precisam ficar a flor da pele, para usarmos quando quisermos.

Você é uma pessoa discreta, que se mantém longe dos holofotes da mídia. Ter fotógrafos te perseguindo, no shopping, por exemplo, com o seu filho é algo que te incomoda?

Eu acho isso uma bobagem. As pessoas precisam preencher uma página por dia de notícia. Quando não tem, elas precisam fazer alguma coisa. Eu sou uma pessoa tranquila. Sou caseiro. Quando não estou gravando, gosto de ficar dentro de casa. Raramente você vai me ver em lugares passeando. Eu curto ficar em casa. Eu trabalho tanto. Por isso, construí uma casa que eu gosto de ficar.

Como você enxerga essa geração que quer ser celebridade e não artista?

Uma inversão de valores. Eu acho que é uma mistura, e é normal, porque nós não vendemos o que está fora de cena. A cena é sempre linda. Eu sempre levo algo para o estúdio, mas no meio da primeira cena, a pessoa para pra tomar café. Ela não aguenta. Não sabe o que é. Essa inversão de valores, de querer achar que nós somos só glamour. Nós somos operários. Fazemos cenas por atacado.

Recentemente “Caminho das Índias” foi reprisado. Você gosta de olhar para os seus personagens antigos?

É um pouco deprimente, me ver na televisão tão novinho, mas gostoso por rever esses momentos. Eu vejo a novela e sinto cheiros. Tudo continua muito vivo na minha memória. É algo impressionante.

Tem um ator e músico guatemalteco-americano que se parece muito com você. As pessoas já te falaram isso?

É o Oscar Isaac. As pessoas sempre falam disso. Ele é um baita ator. Adoro ele. Tem alguns filmes dele vindo por aí que são incríveis.

Aparentemente você parece ser uma pessoa tranquila, mas normalmente o que tira você do sério? Ou você é do tipo que acorda com a energia lá no alto?

Eu acordo meio querendo ficar na cama. É até clichê falar, mas o que me tira do sério é injustiça. A palavra é uma coisa que, a justiça que não foi aplicada. Ou algo que aconteceu que não poderia de forma alguma acontecer. Invasão de espaço alheio. Tudo isso é injustiça. Então, isso me incomoda.

Você costuma procurar o seu nome do google?

Eu sou nerd, mas zero geek. Eu não entendo nada de tecnologia. Aprendi mandar e-mail com foto, faz uns três meses. Não fico me procurando não. Às vezes eu tenho que entrar pra pegar uma foto de referência, ou outra, mas não fico me procurando não.

Você acredita que para um projeto dar certo, os bastidores precisam estar em harmonia?

Tem que estar em harmonia sim. O sucesso não tem receita. Se tivesse, todo mundo copiava. Eu acho que o teatro é convivência. Se você está mal nos bastidores, isso se imprime na cena.

 
Uma DIVA chamada GLÓRIA

Por Michele Marreira

Uma artista que nos emociona desde suas mocinhas antológicas e mulheres intensas às grandes vilãs históricas e contemporâneas que viveu, especialmente na TV. Glória Pires é uma estrela consagrada pelo legado que vem construindo. Com apenas cinco anos de idade, já estreava sua primeira telenovela, “A Pequena Órfã”, em 1968. Dá para acreditar que daqui dois anos a mãe de Cléo, Antonia, Ana e Bento completará meio século de carreira? Aos 52 anos, natural do Rio de janeiro, exibe excelente forma física e se diz contemplada pelo caminho profissional que segue desde a infância. “Eu considero ser atriz o melhor trabalho do mundo. A gente aprende e conhece tantas coisas! Talvez se eu tivesse outra profissão não teria essas oportunidades”, reflete. Com papeis e atuações viscerais que fizeram parte da história da teledramaturgia brasileira, difícil fazer o público não relembrar as maldades de algumas de suas crias perversas da ficção como: Maria de Fátima (Vale Tudo/1988), Raquel (Mulheres de Areia/1993) e, mais recentemente, a maquiavélica Beatriz Rangel de Babilônia (2015). Seu currículo na telinha é tão rico e vasto nas produções em que integrou que fica difícil detalharmos tudo. Contabilizamos mais de 30 trabalhos televisivos e 17 cinematográficos. E por falarmos em sétima arte, recentemente fez o Brasil se emocionar com a trajetória humanitária da médica psiquiátrica Nise da Silveira, nascida no ano de 1905 em Maceió, que, após o falecimento de seu pai em 1927, mudou-se para o Rio de Janeiro e, seis anos depois, começou um estágio numa clinica neurológica da cidade. Radicalmente contrária às formas agressivas de tratamento de sua época, utilizava-se da arte como um dos métodos de tratamento aos seus pacientes. Com direção de Roberto Berliner, “Nise - O Coração da Loucura” conta ainda com as interpretações de Fabrício Boliveira, Roberta Rodrigues, Augusto Madeira, Flávio Bauraqui, entre outros talentos. TUDO conversou com a musa, que encara os desafios de seu mais recente projeto na telinha: dar vida à juíza Andrea Pachá no quadro “Segredos de Justiça” do Fantástico. Na série ela terá a missão de julgar casos emblemáticos baseados no livro “A vida não é Justa” de autoria da própria desembargadora. Em bate papo com nossa reportagem, a atriz falou sobre sua relação com os filhos e relembra momentos marcantes do início de sua carreira. Confira.

Revista TUDO: Conte mais detalhes do novo quadro do Fantástico “Segredos de Família”.

Glória Pires: A série chama-se “Segredos de Justiça”. É uma mensagem muito relevante dessa juíza, Andréa Pachá. Um trabalho em que ficará bem visível a questão do afeto, de se colocar no lugar do outro, ter uma visão humana para com seu semelhante. Quantas vezes erramos, não por queremos, mas porque não tínhamos outras oportunidades. Sempre há possibilidade de se fazer algo melhor.

A série fala de família. Na vida real como você define sua relação com seus quatro filhos?

Sou uma mãe muito aberta com meus filhos, não espero perfeição deles, pois também não sou perfeita. Não espero que eles me surpreendam no dia a dia, ainda assim, me surpreendo. Temos uma relação muito amorosa e de respeito pela individualidade de cada um deles.

De que forma seus trabalhos costumam influenciar sua vida no âmbito profissional e pessoal?

Eu considero ser atriz o melhor trabalho do mundo. A gente aprende e conhece tantas coisas! Talvez se eu tivesse outra profissão não teria essas oportunidades. Quando eu tinha 17 anos, viajei para Ilha do Bananal fazer o filme “Índia, Filha do Sol”, pude conviver com índios da minha idade ali na casa deles. Foi uma baita experiência. Esse trabalho é maravilhoso porque estamos sempre em contato com coisas inusitadas.

Anjo Mau, novela protagonizada por você em 1997, está sendo exibida no “Vale a Pena Ver de Novo”. Tem acompanhado?

Ainda não tive tempo, mas as pessoas têm comentado. Um trabalho que fiz com o saudoso Carlos Manga. Fico feliz que tenha voltado, assim como já reprisaram Mulheres de Areia e outras.

Como se deu o seu processo de preparação para entender as questões internas e externas da Dra. Nise da Silveira?

Nesse processo do filme, Roberto (diretor) e eu conversávamos muito sobre o roteiro, as sequências que faríamos no dia seguinte. Consultávamos o livro que ela escreveu “Imagens do Insciente”. É incrível. Ela analisava as obras, as descrevia reproduzindo eventualmente a fala do cliente (paciente) que estava fazendo aquele trabalho, depois ela realizava a interpretação de tudo aquilo.

Qual o sentimento te despertou diante dessas análises e pesquisas aprofundadas?

É um universo fascinante. O subconsciente, a psique humana é uma loucura, realmente. Em alguns momentos, tive a sensação também que estava indo para algum lugar e não iria conseguir voltar. Era exaustivo. Começávamos a filmar às 5 da manhã e terminávamos às 6 da tarde e, depois, discutíamos as cenas do dia seguinte.

Você segue alguma técnica durante esse processo?

Sou um pouco sistemática, antes de dormir preciso dar mais uma olhada no que farei no dia seguinte. Quando me surgiam outras questões eu retornava ao livro. Em alguns momentos eu parava para dormir e deixava para pensar melhor no dia seguinte. Esse universo é realmente fascinante.

Antes do projeto você já conhecia o legado dela?

Eu a conhecia das matérias que saiam nos jornais por ter um trabalho tão importante. Algumas relacionadas a gatos, como eu sempre fui amante de gatos (risos), eu me identificava. Algumas pessoas falam tão mal deles que ficava interessada em saber por que ela gostava tanto assim. É uma aula de vida pensar em todas as dificuldades que ela passou e a maneira oficiosa que ela levou todo aquele processo do dia a dia, 30 anos no mesmo hospital. E depois na Casas das Palmeiras e nos dois grupos de estudos que ela tinha. Um grande exemplo, uma inspiração nesses dias em que tudo é tão passageiro e imediato, se pensar a longo prazo é um aprendizado pra vida.

Qual a grande mensagem que o filme nos passa?

O filme consegue mostrar a relação deles (pacientes), nesse ambiente afetivo e criativo por conta dessa confiança. A Dra. Nise, que sempre dizia que o trabalho do terapeuta, que estava ali ao lado do cliente, trazendo a pessoa à superfície. No filme você não percebe limites parece que tudo ocorre em tempo real.

E você como intérprete fica tocada...

Mesmo tendo feito o filme eu me transporto para aquele lugar. É uma experiência inexplicável. Estou feliz por isso tudo estar na tela. Porque às vezes está tudo em nossa cabeça, mas não chega ao público. Isso é lindo nesse trabalho é o que toca as pessoas em todos os lugares que o longa já foi apresentado. Todos se emocionam. Sem palavras!

Pensando em tudo que conversamos, especialmente sobre a óptica da loucura, qual a relação que você faz com seu oficio de atuar?

Ser ator é estar em contato com essa falta de julgamento. Só dessa forma conseguimos interpretar um assassino e achar uma lógica, entender a cabeça daquela pessoa, o que a leva a ser dessa forma. E, de alguma forma, isso nos aproxima da loucura. Em alguns trabalhamos entramos em um túnel sem fim.

 

 
Mariana Ximenes é Notícia Boa

Por Ester Jacopetti

Vamos encarar os fatos, Mariana Ximenes é uma mulher linda e chama atenção por onde passa, mas sua beleza não se resume apenas ao rosto delicado e ao corpo perfeito. Sempre muito educada e sorridente, a atriz que mantém 18 anos de carreira construídos com personagens variados, mostra que quando o assunto é trabalho, sua dedicação é mais que obrigação. Exigente consigo mesma, a entrega aos personagens acontece de corpo e alma, evidenciando uma atriz em ascensão. ‘É um processo, e eu vivo intensamente aquele momento. Quando vou criar um novo personagem, faço terapia.’, diz. Protagonista em ‘Haja Coração’, Mariana tem a difícil missão de interpretar Tancinha, um dos personagens mais marcantes da televisão brasileira, que no passado foi vivido por Claudia Raia, em ‘Sassaricando’. ‘Tem o sotaque, ensaio, figurino, caracterização, mas sobretudo tem o meu coração.’, pontua. Nos últimos dois anos que ficou longe das telinhas, a atriz estava se dedicando ao cinema. Neste ano, está previsto para estrear cinco filmes (O Grande Circo Místico, Um Homem Só, Zoom, Uma Loucura de Mulher) e ‘Prova de Coragem’ que já ocupa as salas de cinema. Durante nossa conversa, ela falou sobre como as locações proporcionam aos atores um encontro para os personagens, e também a importância de entrar como produtora associada em alguns filmes. ‘Cinema no Brasil só se faz com ajuda de todo mundo’, conclui. Confira essas e outras novidades.


Depois do sucesso em ‘Joia Rara’ (2013), você volta ao trabalho em ‘Haja Coração’ que lembrará ‘Sassaricando’ (1987). Você chegou a assistir algum capítulo da novela?

‘Sassaricando’ tem quase 30 anos, mas é bom porque vamos apresentar para uma geração que não viu muito. Eu mesma sou uma delas. É claro, que haverá nostalgia das pessoas que assistiram. A Tancinha é um personagem icônico, mas agora vem a minha Tancinha. O que posso dizer é que estou fazendo com todo o meu amor. Espero que as pessoas recebam dessa maneira. Tem a responsabilidade claro, mas estou fazendo com todo meu amor. A Tancinha é uma mulher extremamente alegre, que gosta de viver, é muito pulsante. Nós gravamos na feira, quer ambiente com mais textura, cor, sabor e alegria que esse? Ela tem vivacidade, e ao mesmo tempo uma simplicidade, que é muito bonito e gostoso. A Claudia (Raia) falou pra que eu me divertisse, que esse personagem é pra ter prazer. Estou tendo muito trabalho, não é fácil, tem muitos ensaios, composição, é um trabalho artesanal, mas quando chego no set é um deleite.

Você comentou sobre a Claudia Raia, então quer dizer que você chegou a pedir algumas dicas com ela sobre o personagem?

Muito! A Claudia é uma das minhas melhores amigas, uma pessoa que eu admiro profundamente. Quando falei com ela, pedi muito a benção, mas também pedi licença, porque farei a minha Tancinha. É sempre um risco, mas resolvi correr. A vida andou, é uma novela contemporânea, outros personagens e tramas, não é um remake. Apesar da Tancinha ser mocinha na novela, ela é muito intempestiva, explosiva, do tipo que bateu, levou. Ela é uma feirante, acorda às quatro da manhã pra trabalhar, é muito irreverente. Eu trabalhei com uma psicanalista, chamada Kátia Achcar que me ajudou muito na composição, do ponto de vista psicológico. Nós fomos criando o corpo dela, porque é uma mulher que trabalha, que vive num ambiente alto astral, muito pra cima e alegre. A sensualidade dela não é usada como instrumento, ela não se preocupa em ser sensual, simplesmente é. Ela é muito autêntica.

Em algum momento você ficou preocupada em aceitar o convite pra viver um personagem que fez muito sucesso na época? Rolou um certo medo?

Quando recebi o convite me questionei sim, mas tive muitos conselhos à minha frente, que foi o Silvio de Abreu, criador da Tancinha e o Daniel Ortiz, que está construindo essa nova mulher. A Claudia foi a personificação da primeira, e o diretor dessa versão, comentou que eu seria da segunda. Como não acreditar? Quando comecei a trabalhar, ensaiar, fui na feira da Mooca ver as meninas, fui no Brás comprar roupas e ver esse universo, cheguei de coração aberto.

Mas você conseguiu circular normalmente por essa região tão popular?

Na feira eu fui com o meu pai, ele era o meu segurança do afeto (Risos). Lá o ambiente é muito familiar. Cheguei muito de peito aberto mesmo. Comentei com os feirantes, que faria uma pesquisa, porque iria interpretar uma. Todo mundo ficou feliz de ser retratado. Perguntei o que eles falariam pra vender, e eles comentaram que a fórmula é ser gentil, atencioso, cuidadoso, carinhoso, é você conhecer a freguesa. É ter olho no olho e perguntar o que ela quer. Você guarda o rosto daquela freguesa porque é um ambiente muito familiar, e tem toda semana, às vezes diárias. Você já sabe o que ela gosta, do jeito que gosta, o que vai levar. As brincadeiras de ‘não paga, mas também não leva’, ‘da minha mão é mais doce e mais gostoso’. Aprendi muita coisa. Estou aí me aventurando na comédia. Esse com certeza é um novo gênero, mas tem sido uma delícia.

A Tancinha tem um jeito peculiar de se vestir, em algum momento você se pegou com o visual dela, no seu a dia a dia?

Não está sobrando tempo, nem pra mudar o meu guarda-roupa, porque estou gravando muito. Hoje, por exemplo, nós já gravamos e amanhã às sete da manhã preciso estar no set. No que estou parecida com ela, é no jeito de falar, de gesticular e às vezes saí uma palavra errada, eu falo ‘meu Deus do céu’. É curioso, porque quando chego pra fazer uma cena, tem um certo momento, que vai bonito, sabe? É um processo, mas não que ele tenha acontecido de um dia pro outro. Comecei a preparar a personagem em janeiro, com o Tomaz Rezende. Nós começamos a gravar em fevereiro. Ficamos um mês trabalhando diariamente. Eu amo ensaiar, e quando chegamos às oito da manhã, entramos num processo, vemos a pessoa durante quatro horas, saímos para almoçar, voltamos e ensaiamos mais um pouquinho, a partir daí vamos criando uma intimidade, é natural.

Já que você comentou sobre o sotaque e também as cenas em que ela gesticula bastante. Como foi esse processo?

Eu tenho uma professora de prosódia, que trabalhou com a Claudia quando ela fez a Tancinha. Tive também uma pessoa que me ajudou muito, eu até falei o nome dela, que é a Kátia, psicanalista. Nós pensamos muito em como era essa menina, que estava com a vó, mas também com a família dela, que até fala certo. São pessoas que vivem na cidade, eles não falam errado, mas em São Paulo tem uma coisa do plural ou às vezes esquece e come algumas palavras.

Quando tem a oportunidade de ir à feira do que você mais gosta?

Ah, eu adoro pastel e caldo de cana. A feira que é montada no set é de verdade. Eles são feirantes mesmo. É bom porque eu tenho um curso, de como cortar uma fruta, como servir, como embalar, é muito legal. Tem cheiros também, porque vende peixe, camarão, caldo de cana, tapioca, queijo, pastel. Eu gosto de comida!

A Tancinha tem um lado bastante sensual e você já comentou que ela não se preocupa em ser. Como foi construí-la já que ela é uma pessoa ingênua?

Ela é sensual, mas sem pensar. Ela não usa a sensualidade, pelo contrário, até toma um susto quando é ressaltado. Ela é selvagem, mas completamente natural, simples e tem um coração gigante. Eu Mariana, quando topei o personagem disse que era meu, vou fazer com muito carinho. Tem o sotaque, ensaio, figurino, caracterização, mas sobretudo tem o meu coração. Estou colocando minha alma neste trabalho. Sei que não vai ter jeito, as pessoas farão comparações, algumas vão gostar, outras não, mas o que importa é que estou feliz. Espero que as pessoas recebam com o coração também.

Saberia dizer o que a sua Tancinha terá de diferente da Claudia?

A Tancinha da Claudia era puro coração também e doce. Não assisti muito, justamente pra não influenciar, mas procurei uma Tancinha um pouco mais doce, mais delicada (Risos).

Quanto ao triângulo amoroso, o que você pode adiantar?

Ela vai ficar toda ‘divididinha’, vai ser uma loucura, vai ficar pra lá e pra cá. Já tinha isso antes, né?! É muito bonitinho. Ela vai ficar em conflito, porque o amor com o Apolo (Malvino Salvador) é profundo e foi o primeiro.

Sobre ela ser uma mulher explosiva, como serão as cenas?

Na novela tem muita briga porque ao mesmo tempo que ela é delicada, sensual, é explosiva. Não pisa no calo dela. Ela também será atrapalhada. Nós já filmamos uma briga com a Tata Werneck, em que eu enfiei a cara da Fedora no bolo. Mas com o Apolo ela sai correndo atrás do caminhão pra dar bolsadas nele, parando o trânsito mesmo. Só nos tamancos.

Você intensificou na academia por conta de os vestidos serem mais apertados? Precisou de algum cuidado especial? Ela também usa bastante decotes...

A personagem aparece em algumas cenas dançando, então eu decidi fazer algumas aulas de balé e terminei pegando gosto pelo negócio, mas com a falta de rotina que nós atores temos, vai ser difícil manter. Estou fazendo um pouco de musculação, yoga e por aí vai...

Antes de começar a gravar, você também se dedicou bastante ao cinema, e tem alguns filmes que serão lançados este ano. Como você faz para se despedir de um personagem e engatar em outro logo em seguida?

É um processo. Quando vou criar um novo personagem, faço terapia. Eu Mariana tenho uma terapeuta, e para o personagem uma psicanalista que me ajuda a compô-lo. Trabalho com essa psicanalista há mais ou menos oito anos.

Recentemente você lançou o filme “Prova de Coragem” em que interpreta a Adria, uma artista plástica que decide ter um filho. Como foi a construção desse personagem?

Esse trabalho foi muito simbólico, mas não só pro personagem, mas pra mim também. Por ela ser uma artista plástica, existe força no trabalho dela, que acontece a partir de uma árvore que é natureza pura, que é a terra, um símbolo muito forte. Ela é uma mulher de iniciativas na vida. O relógio biológico bate, ela vê no filho uma possibilidade de segurar a relação, mas não segura e tem a questão do trabalho. É provocativo mesmo, paras as mulheres pensarem. Ela é uma potência feminina. Outra questão que eu adoro é sobre como estão as relações contemporâneas. Como atriz, eu não podia julgar muito o comportamento da Adri, o porquê de ela agir dessa maneira. A Adri é uma mulher que não faz concessões, quer tudo, tanto no amor quanto no trabalho. Mas a vida não é assim, não dá para ter controle sobre tudo. No fundo, sinto que há uma imaturidade nos dois, tanto na Adri quanto no Hermano (Armando Babaioff), e por isso eles vivem esse impasse.

Você poderia falar um pouco mais sobre o que pensa a respeito dos relacionamentos contemporâneos?

Eu comentei sobre relacionamentos entre homens e mulheres de 30 anos, que envolve um casal, como por exemplo, maternidade e paternidade. A minha personagem está com o relógio biológico apitando, mas o marido tem medo e é inseguro. Hoje em dia as mulheres com essa idade, enfrentam essas questões. O ser mãe e separar um tempo para isso, mas também tem a vida profissional. Não gosto de fechar os meus pensamentos porque está no filme. Um prato para as pessoas saborearem e a partir disso fazerem suas reflexões, sobre as dificuldades que um relacionamento tem.

E com o Armando Babaioff? Houve um trabalho de aproximação e intimidade antes de filmar?

O Armando é um ator maravilhoso, um companheiro de cena incrível. Cozinhava pra gente quase toda noite no hotel. Foi muito importante passarmos um período isolados em Porto Alegre. Os filmes de locação proporcionam a nós atores um encontro, um ajuste ideal com os personagens. Porto Alegre tem uma geografia própria, pessoas diferentes do resto do país. A melhor plateia que tive na minha última peça foi a do teatro São Pedro, na cidade. E já namorei um gaúcho, conheço bastante a cultura. Armando e eu jantávamos juntos, tomávamos vinho e íamos assim construindo a intimidade de Adri e Hermano. Logo nos nossos primeiros encontros, já tivemos aulas de escalada. A escalada traz alguns ensinamentos: não interessa chegar ao seu cume, o que interessa é a via a ser percorrida. Ao subir as montanhas, você nunca está sozinho; é preciso sempre dois escaladores juntos. A corda era um pouco como o cordão umbilical que unia aquele casal.

A Adri é uma artista plástica que trabalha com madeira e materiais orgânicos, um pouco como o Franz Krajcberg. Você fez algum tipo de pesquisa antes das filmagens? Conversou com artistas plásticos?

Sou uma grande admiradora de artes plásticas. O Adrian Cooper, nosso diretor de arte, colocou os troncos e galhos de árvore bem no meio do quintal da casa para que eu começasse a manusear. Foi importante poder pegar naqueles troncos, dar as machadadas, sentir que estava fazendo aquele trabalho. Como referência, lembrei muito de uma exposição do [pintor e escultor alemão] Anselm Kiefer que vi no Grand Palais em Paris. O Kiefer trabalha muito com pedaços de barro, de galho.  Fui atrás de livros sobre ele para me inspirar.

Neste filme, você entrou também como produtora associada. Como foi esse trabalho?

Tentei, da melhor forma possível, ajudar a viabilizar o projeto. Ajudei muito nos figurinos, consegui uma barriga de grávida para a Adri. Enfim, fui lutando junto com a Monica (Shmiedt, produtora), o Roberto (Gervitz, diretor) e toda a equipe para as coisas acontecerem. Cinema no Brasil só se faz com ajuda de todo mundo, né?

 
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