Entrevista Capa
Viva la Revolución!


A história do Brasil nos permitindo vermos o Daniel todos os dias nas telinhas

Nem com o papel casca grossa que está interpretando na supersérie Meus Dias Eram Assim, na Rede Globo, a gente consegue ficar com uma raiva infinita de Daniel de Oliveira.
Os fãs já adiantam: “Calma gente, é só dramaturgia”. Até mesmo porque quem conhece esse cara a fundo, sabe que de bandidinho metido a conservador ele não tem nada; é mesmo um mocinho fofo sem qualquer semelhança com o personagem Victor, um direitista a favor da repressão durante a Ditadura Militar. “Temos sempre que olhar para esse período e tomar muito cuidado para não repetir, porque a história é cíclica. Apesar dos pesares, a democracia até agora é o melhor sistema”, diz Daniel que, apesar de ter ficado famoso por meio das novelas, teve sua aterrisagem triunfal para o sucesso com o filme Cazuza – O Tempo Não Para, onde interpretou fielmente o ídolo do rock brasileiro. Após o sucesso da cinebiografia do roqueiro, Daniel conquistou seu primeiro protagonista na novela "Cabocla", onde contracenava com Vanessa Giácomo, sua ex-esposa, de quem é amigo.

Completando 40 anos nesse mês de junho, ele relembra que foi na adolescência a tomada de decisão para a vida de ator, apesar do ponta pé de peso ter sido em 1988, na novela Brida, da extinta Rede Manchete.
Maduro, hoje afirma, sem delongas, dar preferência ao cinema e aos seriados. “Foi justamente aí que encontrei liberdade de dialogar”, explica à equipe da Tudo enquanto exibe os olhos azuis, fixados perfeitamente no rostinho de galã.
Parece pintura.
No cinema, três filmes devem estrear em breve: “Dez Segundos”, “Aos Teus Olhos” e “Morto Não Fala”. “São três filmes com pegadas diferentes”, comemora.
Geminiano, mineiro, torcedor fanático do galo, dublador de primeira – é dele a voz do personagem principal da animação da Disney, "O Galinho Chicken Little" – pai de três garotões e maridão de Sophie Charlotte, com quem contracena na supersérie, Daniel é mesmo o namoradinho do Brasil e querido por todos nós. 
Olhem que legal!
Aos sete anos, Daniel Oliveira mudou-se com a família para o Iraque, já que seu pai, empreiteiro, viajava o mundo em função do trabalho. 
Que susto!
O famoso acidente com um avião da TAM, em 2007, que fazia o trajeto entre Porto Alegre e São Paulo, chegou a assustar parentes do ator, já que ele estava viajando neste mesmo dia, com mesmo destino e origem. No entanto, o famoso escapou da tragédia ao optar por uma outra companhia aérea.
Ufa!

Em “Os Dias Eram Assim”, você interpreta um personagem de caráter duvidoso. Como é para você viver personagens com essa característica? Quais são os desafios?
Todos os personagens vêm com desafios. Você tem que fazer o que está escrito e isso já é um desafio, porque a composição do personagem, às vezes é mais lenta ou mais rápida. Você vai descobrindo aos poucos essa personalidade. Cada ator descobre o seu universo, e juntos organizamos tudo isso. Eu estou curtindo muito fazer o Victor. Ele tem um negócio meio pedante, com aquele cabelinho do lado. Sempre emperiquitado. Ele é obcecado pelo dinheiro, e pelo amor da Alice (Sophie Charlotte), que ele nunca vai ter, mas é também ambicioso e tem a questão a posição social. Ele quer galgar uma posição, que ainda não está. Tem uma certa agressividade, que até passa do ponto, mas depois reconhece e sabe que avançou o sinal. Ele tem uma medida, mas isso não justifica.

Para o ator é mais gostoso trabalhar esse tipo de personalidade, seja na televisão ou no cinema?
Eu fiz outros personagens também que estavam do outro lado da moeda, como o Stuart, em “Zuzu Angel” (2006), e o Frei Beto (Batismo de Sangue, 2007). E agora estou do lado corporativo, de terno e gravata, concordando com a ditadura. Temos sempre que olhar para esse período, e tomar muito cuidado para não repetir, porque a história é cíclica. Apesar dos pesares, a democracia, até agora, é o melhor sistema. Vemos exemplos vizinhos, como a Venezuela, que está passando por um momento terrível. O Nicolás Maduro (Presidente) que já está até podre, mas não larga o osso de jeito nenhum. Esse lance de ser o lado obscuro da força me atrai muito, porque você fala algumas coisas que não falaria no seu dia a dia. Graças a Deus eu sou um cara muito positivo, mas o personagem me dá a liberdade de expressar essa outra coisa, esse sentimento ruim, que ainda bem que eu não tenho.

Falar e estudar a história do Brasil é um assunto que sempre te interessou?
Isso sempre! Até mesmo quando eu fiz outros personagens, aprendi sobre o início do Comando Vermelho, (400 Contra 1 – Uma História do Crime Organizado, 2010), a mistura entre presos políticos e comuns, que gerou uma facção criminosa. É sempre bom aprender com os personagens. A produção deixou alguns livros para gente, e eu acabei de ler o “Tropicália” (1997) do Antônio Callado. É fascinante observar como o movimento se iniciou. É um período muito conturbado, mas interessante, e virou história porque na época imagino que deveria ser um “pega pra capar”. Deveria ser horroroso conviver num país, onde a ditadura estava predominando. As ideias estavam sendo cerceadas. Estudantes e manifestantes eram presos. O Victor é de direta, a favor da repressão. Não vê mal nenhum. Dá até para refletir nos dias de hoje. Nós temos que ficar espertos com o que passamos na história, para não repetir. Quem for atrás vai saber muito mais coisa.

Você tem se dedicado bastante ao cinema, e feito muito mais séries do que novelas. Essa é uma liberdade de escolha que você tem dentro da emissora?
Eu tenho feito muitos trabalhos no cinema sim, mas a televisão vem de uma forma bonita também. Eu faço trabalho por obra. Foi justamente aí que encontrei liberdade de dialogar melhor com a casa (Globo). Faço outros trabalhos, e tenho outros caminhos que quero, que desejo. E “Os Dias Eram Assim”, é muito interessante. Achei que seria uma boa história para ser contada. O que me atraiu nesse personagem é o fato de poder trabalhar com o Carlinhos Araújo (Diretor Artístico), com quem eu fiz “Um Só Coração” (2004), com a Suzana Vieira, Valter Carvalho. E agora poder trabalhar com a Sophie é ótimo porque dá para tirarmos férias juntos (risos).

Você comentou sobre trabalhar ao lado da Suzana, e tem também o Antônio Calloni, com quem você contracena bastante. Como é essa interação entre os atores?
Está sendo sensacional. A Suzana é muito divertida, uma gata, uma parceira de cena, e a gente troca muito. Dou muita risada, porque ela tem um senso de humor muito bom. Com o Calloni é a mesma sensação, e não só pessoalmente, mas profissionalmente. Ele é um grande ator.

Você tem feito cada vez mais séries. Como tem sido a sua rotina de trabalho?
Não tem diferença. Eu vou fazendo aquele personagem, independente do tempo que dure. Se são 88 capítulos, eu enxergo como um trabalho de 88 capítulos. Você trabalha o personagem daquela forma que você não sabe o que vai acontecer com ele. O ritmo de gravação é igual. Às vezes, vem muitas cenas de uma vez, ou menos.

Você comentou um pouco sobre a rotina, mas como tem sido com a chegada do pequeno Otto?
Ele nunca deu trabalho. É um menino bom demais, muito calmo. É um menino “bão”. É isso.

Você sabe quantas novelas você tem no currículo?
Eu não faço ideia; vou fazendo as paradas e não vou contando não. Eu tenho alguns anos de carreira; se for olhar, desde os meus 14 anos de idade. Tem um tempo, uma estrada.

Além dessa série, quais são os projetos que você pretende desenvolver ao longo desse ano?
Eu tenho a história de Éder Jofre, um filme chamado “Dez Segundos”. Esse deve ser lançado em 2018. Eu faço o lutador de boxe. Tem também “Aos Teus Olhos”, da Carolina Jabor, que já está pronto, e deve ser lançado esse ano. E “Morto Não Fala”, do Dennison Ramalho, com produção da “Casa Cinema”, do Jorge Furtado. Esse também deve estrear esse ano. São três filmes com pegadas diferentes. Da Carolina, eu faço um professor de natação chamado Rubens e a história se passa em um único dia. Ele dá aulas para crianças pequenas, e uma mãe reclama que ele deu um beijo no filho dela. A partir daí, cria-se uma polêmica, e tem as redes sociais. Você já deve ter ouvido falar no filme “A Caça” (2012), que em um único dia já se tem uma repercussão. E você não sabe se ele é culpado ou não. Fala sobre pedofilia, é um filme bastante rico, conceitualmente interessante. No filme do Dennison, eu faço um assistente de necropsia, em que eu converso com os mortos. É muito interessante também, porque o diretor é muito bom em terror, ele manda muito bem nesse tipo de gênero no Brasil. Foi muito massa! Rodei no ano passado.

Você também tem se dedicado a carreira musical. Como está o andamento desse projeto?
Estou fazendo um disco com um camarada chamado Bid, ele era da Banda Tokyo, e desde os 17 anos, faz música. É um cara extremamente importante na música atual. Ele faz trilha sonora para o cinema também, e numa dessas eu conheci o trabalho dele, e pedi para produzir o meu disco. Os anos foram passando, e eu continuei tocando a minha carreira em outras áreas, e pretendo lançar um disco que se chama “Cine-Música Particular”. Esse nome é justamente porque vou trabalhar com performance, e fiz em processos cinematográficos, durante as filmagens. Às vezes, eu pegava o violão e escrevia uma letra.

E você já sabe quando será lançado?
Ainda não tenho data, mas quero que seja esse ano, e gostaria de fazer o primeiro show em Manaus, porque foi lá que surgiu um personagem que eu interpretei, chamado Homem Lama, que estampa a capa do álbum. É um personagem que eu criei durante uma viagem na cidade, junto com o Matheus Nachtergaele.

 
Angélica solidária


A maternidade e a montanha russa da vida

 Respira, inspira.
Foi na meditação que Angélica, 43 – com corpinho e rostinho de 20 - , encontrou forças para lidar com os momentos difíceis da vida. Quem a assiste na TV - linda, leve e loura - mostrando a dentaria branca e reluzente na maior parte do tempo, e pensa que tanta alegria faz jus a uma vida perfeita, sem grandes batalhas pela frente, não sabe de nada.
A apresentadora lutou por meses contra o trauma de ter sofrido um grave acidente, em 2015, com os filhos, o marido e as babás das crianças.
O avião da família caiu e todos sobreviveram.
Um divisor de águas na história dela como mãe, mulher e ser humano.

A vida de Angélica sempre foi um livro aberto, formado por capítulos mais emocionantes e outros menos, mas que todos já leram e releram. Pegou na labuta cedo, foi da televisão para as telonas dos cinemas, gravou discos e cresceu junto com a criançada das décadas de 1980. Por opção, transformou seu programa infantil para um formato que agradasse toda a família e cresceu profissionalmente com isso. O reconhecimento aumentou e a legião de fãs se estendeu por gerações.
Bem sucedida, famosa e casadíssima há 12 anos com o apresentador global Luciano Huck, em pouco tempo, formou a sua prole de cabelos dourados, Benício, Joaquim e Eva, e comprova, diariamente, que nasceu para a maternidade, seja por escolha, seja por instinto. Está sempre com seus passarinhos protegidos embaixo das suas asas.
Natural de Santo André, flamenguista de coração e sagitariana com quase 7 milhões de seguidores no Facebook – conectadérrima – Angélica compartilha com o público momentos de trabalho e da vida pessoal, diariamente. Nunca teve dificuldades em ser autêntica e natural. Posta fotos maquiadas ou com olheiras sem qualquer preocupação. Talvez porque ela saiba que é dona de uma beleza natural e serena, conquistada, por incrível que pareça, com a maturidade, que bateu cedo em sua porta.
Prestes a completar 40 anos de carreira – já que começou com apenas quatro no programa do lendário Chacrinha – mergulha, atualmente, na proposta de conhecer de perto projetos sociais transformadores espalhados pelo Brasil, provando que os valores do ser humano estão acima de qualquer coisa, e com a meta de oferecer um rumo diferente ao seu programa, trazendo à tona temas como generosidade, amor e humanização.
Foi por essas e outras que ela foi a “nossa” estrela escolhida para estampar a capa da edição de maio da revista Tudo. A Angélica é pura inspiração. Pode crer.

Após 11 anos à frente de um programa para toda a família, você surge com uma nova proposta, que é falar sobre os projetos sociais espalhados pelo Brasil. Como tem sido essa experiência?
São várias coisinhas que gente vai captando. Os pequenos gestos que vão te marcando, como é o caso de não desperdiçar comida. Nós gravamos em um projeto, em que vimos o reúso de flores de casamento que são desperdiçadas; eles pegam, tratam e fazem doação para asilos. Eu passei a ter um olhar sobre as coisas, e o “Estrelas Solidárias” é isso. Estar ali praticando um ato solidário, como o voluntário, e aprendendo a viver denovo também. O caminho mais bacana para seguirmos é ajudar ao próximo, porque o mundo está muito confuso, vemos muito desamor. Poder incentivar as pessoas a olharem para o lado, e verem que tem alguém ali e que elas podem ajudar, é o máximo.

Você diria que essas atitudes influenciam no seu dia a dia?
Procuro passar isso para os meus filhos. Chego em casa e conto onde eu fui, e o que aconteceu. É a minha forma de tentar viralizar, em casa, o meu sentimento. Dá pra perceber que as pessoas que são voluntárias hoje, tiveram muito incentivo em casa, ou às vezes, os pais já faziam voluntariado. Se a gente começar a formar uma geração de pessoas mais solidárias, o mundo pode, daqui há algum tempo, ser diferente.

Em que momento você sentiu que era necessário mudar o formato do programa?
O programa vai fazer 11 anos no ar, e ele merecia este presente; e o público do “Estrelas” merecia algo novo. Era uma vontade minha, e da nova equipe que entrou no programa. Fico muito feliz por isso, porque temos que estar sempre renovando. A solidariedade é muito interessante para se despertar nas pessoas. Já me perguntaram se tinha a ver com alguma coisa que eu vivi, e não. Acho que nada é por acaso; nós acabamos atraindo coisas que são importantes, e eu acabei atraindo esse projeto sem ter programado.

O programa também atrai a terceira idade, e percebe-se que você tem uma certa empatia por eles.
Asilo é um negócio que me marca, porque sempre gostei muito de estar com idosos. Acho uma loucura nesse país não existir atenção com o idoso. As pessoas trabalham tanto e, às vezes, no fim da vida, ficam lá jogadas; é uma coisa que não consigo entender. Mas eu atraio as crianças também. O interessante desse novo formato é que me possibilita ir até o público. Eu parei de fazer programa com plateia desde o fim do “Vídeo Game”, há 4 anos, e eu nunca tinha ficado sem fazer programa de auditório antes. Estou revivendo esse contato, de estar junto das pessoas. Gravamos numa instituição com 700 crianças e tive a oportunidade de estar junto, ouvir o que elas querem, o que elas esperam. Eu sentia falta disso.

Então você está gostando desse contato com o público novamente?!
É um barato. É muito gostoso porque todo mundo parece que já te conhece. Eu uso crachá com o meu nome, porque as crianças não sabem quem sou de verdade, afinal, não faço programa pra criança há muito tempo, mas é muito confortante ser recebida como se fosse parte da família.

Eles têm muita curiosidade sobre a sua família?!
Eles perguntam muito. As crianças adoram o Luciano, e me pedem pra mandar beijos; as vovozinhas também, e falam dos meus filhos, e dizem que eles são tão bonitinhos. É diferente do contato que sempre tive com a plateia, porque é uma conversa ao pé do ouvido.

Diante desse novo desafio, você também terá que passar mais tempo longe da família, viajando. Você pretende levar os filhos?
Eu os carrego comigo quando dá e, atualmente, no período escolar, não tem como. Quando fazíamos o “Estrelas” de férias em janeiro e julho, eles iam comigo; de qualquer forma, agora são viagens bem mais curtas, em que eu consigo ir e voltar no mesmo dia. Não incluo meus filhos nos programas. Por enquanto, eles estão só observando. Esse projeto que visitei as crianças, que eu comentei, me arrependi de não os ter levado, porque eles iriam adorar. Se tiver oportunidade e tempo, vou levá-los porque é importante o exemplo. Espero que o programa deixe uma mensagem bacana para o público e para os meus filhos.

E como tem sido a sua participação em relação aos projetos escolhidos? Você tem colocado a mão na massa?
É o que mais estou gostando de fazer. Claro que nós temos que mostrar o projeto, conversar, fazer entrevistas com as pessoas, mas o mais legal é ser voluntário. É legal poder fazer, carregar a caixa, e sentir na pele o que as pessoas fazem. É interessante observar alguém sair de casa, doar o seu tempo e o seu suor por uma pessoa que nem conhece. As instituições são muito especiais, mas quando tem idosos, fico mais sensibilizada. Gravamos em duas diferentes: uma mais carente e outra um pouco menos. Me chamou a atenção a solidão dos idosos, independente da condição financeira, e fiquei refletindo sobre isso. A instituição que visitamos, e falamos sobre o desperdício de alimentos, também me tocou, porque você se dá conta de que aquela maçã, que você só comeu um pedaço e jogou fora, pode ser a única refeição de alguém.

Você sempre esteve envolvida com esse tipo de projeto, ou é a primeira vez?
Eu sempre estive envolvida com campanhas, mas nunca tinha participado de algum trabalho assim, colocando a mão na massa. E estar ali doando meu tempo está me motivando muito. Nas redes sociais vemos muitas campanhas, e a gente ajuda às vezes sem falar que está ajudando, porque as pessoas acabam julgando, falando que estamos querendo aparecer. Sempre tem um espírito de porco pra tumultuar a campanha, mas o importante é ajudar o outro sem se importar com o que as pessoas vão achar.

Você comentou que sempre teve vontade de fazer esse tipo de programa, quem são as pessoas que te inspiraram?
Eu me inspiro vendo pessoas boas, me inspiro nos meus filhos. Eles inspiram a gente a querer um mundo melhor, e fazer mais pelo outro. Às vezes, assistindo ao jornal, a gente perde um pouco a esperança, mas ao vermos pessoas que tiram o pouco que tem para dar ao outro, pensamos: “Poxa, o futuro dos meus filhos vai ser legal, porque existe gente boa, mas às vezes dá medo, e você se questiona de que forma será o futuro deles”.

Você e o Luciano são pessoas muito bem-sucedidas. Por conta da violência, em algum momento vocês pensaram em sair do país?
Olha, a nossa vida é toda aqui. Confesso que quando viajamos com as crianças, e normalmente é para fora do Brasil, fazemos para ter uma vida mais tranquila e tal. Percebemos a diferença, que é grande, principalmente com algumas questões como cidadania e educação como, por exemplo, das pessoas atravessarem a rua tranquilamente e as outras respeitarem. Isso tudo mexe um pouco com a gente, mas é um pensamento que vem e vai embora. Somos brasileiros e moramos aqui, os nossos filhos serão criados aqui, nosso trabalho é aqui. Nós temos que tentar ser melhor, porque aqui é o nosso país; no entanto, temos a oportunidade de viver dois meses por ano essa outra realidade.

Quando você diz que fica mais tranquila quando viaja, é porque você também gosta desse anonimato?
Eu adoro! E gosto principalmente também, pela convivência com os meus filhos. Por ver eles soltos na rua, poder andar e brincar, porque aqui não tem a menor condição. Não por serem conhecidos, e nem são na verdade, mas pela violência mesmo. Se você vai ao shopping, tem medo de ser assaltado no estacionamento. É uma coisa que nem parece real. Por mim, tudo bem porque eu nasci e cresci nessa coisa das pessoas me conhecerem, então tanto faz, mas pra eles eu vejo que faz muita diferença.

Em 2018, a Grande Rio vai homenagear o Chacrinha, e nós sabemos que ele fez parte da sua vida. Você pretende voltar a desfilar?
Total! Eu gosto de assistir, mas pela televisão. Durante muitos anos, eu saía, às vezes, em duas escolas. Eu acho lindo, maravilhoso, tem muita energia, mas confesso que eu ando com um pouco preguiça. Mas é claro que se me chamarem, pelo Chacrinha eu vou.







 
Todo Nosso!


Antônio Fagundes bate um papo com a equipe da Tudo e deixa claro que tão breve não sai de cena.


O bate papo fluiu ali mesmo, no auditório do teatro, e não foi diferente de um grande espetáculo. Fagundes se aconchegou em uma cadeira e nós fizemos o mesmo, com o cuidado de quem não quer perder um segundo de sua respiração.
Oposto do que normalmente acontece, o entrevistado não carregava um telefone em mãos e sua atenção foi inteiramente nossa. Avesso a tecnologia, ele revela que o celular ainda é de teclas e que não está nem aí para as redes sociais. Fagundes gosta mesmo é de escorregar os dedos pelas páginas de bons livros. São pelo menos três finalizados por semana.
Ele sorri para o Manga, o designer da Tudo, com o sorriso de um amigo. Foi o Manga que viabilizou este momento por integrar a equipe de arte do espetáculo, sendo o responsável pela logo divertida da peça, que foi criada a partir da caricatura dos atores, na qual ele desenhou com o talento nato que carrega.
Antônio da Silva Fagundes Filho, 67 (ele comemora 68 primaveras agora em abril), respondeu a todas as perguntas com a sabedoria de um homem que não se intimida, enquanto jantava um quibe regado a um refrigerante zero caloria, lanchinho medíocre para quem ainda teria uma maratona pela frente; o ator contracenaria em instantes e, após a peça, seria dele a gostosa tarefa de acompanhar os fãs por um tour pelos camarins e conduzir um bate papo após o espetáculo.
Erudito e iluminado, após muitas frases faladas com a genialidade de quem coleciona 51 anos de carreira, a equipe da Tudo precisa se retirar. Fagundes disponibilizou mais tempo do que o esperado.
As luzes se apagam. O show vai começar.
Obrigada galã. Obrigada Fagundes.
Revista Tudo: A revista será distribuída no mês do seu aniversário! São 68 anos, certo?! Independente da experiência natural da vida, o que mudou e o que permaneceu no Antônio Fagundes de 50 anos, quando começou a carreira?!
Antônio Fagundes: É verdade. São 70 anos incompletos (risos). E engraçado porque, internamente, você não sente esse tempo todo passar. E isso acontece com todo mundo. A gente se fixa numa determinada idade e fica com aquela idade para o resto da vida. É quando a gente olha no espelho e se assusta. Vê que o cara refletido ali não tem a idade que imaginava. Para mim as coisas não mudaram muito não. Continuo com a mesma paixão pela minha profissão; são 51 anos dedicados a ela. O pique é o mesmo. A diferença é que eu subia a escada de três em três degraus e, agora, é de dois em dois.
Eu sou agnóstico e o agnóstico é um ateu com medo. É um ateu covarde, do tipo que não acredita, mas pensa: “Vai que existe”. Confesso que a religiosidade é algo que eu tenho, mesmo que ela seja traduzida na forma da minha profissão, por exemplo, por meio dessa vontade de comunicar, de trocar, de tocar nas pessoas. O que eu acho ruim, talvez, é a forma como as religiões surgiram e a maneira como elas estão sendo usadas. Eu diria que tenho religiosidade, mas não tenho religião.
Sim. Comecei a fazer teatro no Rio Branco. Aliás, inaugurei o teatro lá; o prédio do Higienópolis era novo. Um professor de português resolveu que era mais fácil ensinar versos alexandrinos fazendo uma peça do que explicando. A turma da classe escolheu três alunos e fizemos uma peça de Júlio Dantas. Dos três escolhidos, fui o único a continuar fazendo teatro. Era uma vocação. Saímos do Colégio, montamos um grupo de teatro amador, fiz peças infantis no Teatro de Arena (um grupo de teatro bastante politizado) e, naturalmente, os atores de lá levavam seus filhos pequenos para assistirem meu espetáculo e me conheceram como ator. Acabei de profissionalizando no Teatro de Arena em 1966.
Mais de quarenta? Nunca contei. É muito difícil falar porque estou em processo. O que estou fazendo agora é fruto do que fiz antes e uma preparação do que vou fazer depois. Estou fazendo esta peça e tenho mais dois ou três espetáculos engatilhados que já estão na minha organização. Talvez um trabalho que eu não tenha ido tão bem, tenha sido o responsável por motivar o sucesso de outros. Meu currículo é louco. Faço tudo e ao mesmo tempo. Eu realmente fico feliz quando estou fazendo as três artes ao mesmo tempo: teatro, televisão e cinema. Fico muito impressionado quando uma pessoa consegue dizer qual é o melhor livro que leu na vida. Certamente esta pessoa leu apenas cinco livros. Eu leio dois, três livros por semana; jamais conseguiria dizer qual o melhor livro da semana, quem dirá da vida.
Tenho 40 anos de Globo e já parei de fazer televisão, como estou parado agora, neste momento. Eu diria que são férias. Chega uma hora que essa pausa é essencial para não “encher o saco” do telespectador.
Nada de redes sociais. Nem Facebook, nem Instagram, nem WhatsApp. Meu telefone é de tecla. O máximo de modernidade que eu cheguei foi o fax. Duvido que alguém possa ter cinco mil amigos. Não tem mesmo. Eu prefiro ter dois ou três.
Nossa! E como funciona a sua relação com os fãs?
Acho que construí porque não tenho internet (risos). Ao invés de me dedicar a milhares de pessoas na internet, dedico-me a quatro ou cinco pessoas que são a minha família.
Fazia mais de 10 anos que eu não fazia comédia e estava procurando uma. A comédia é uma coisa ingrata porque você pode rir de algo e não gostar. Você pode rir e achar uma bobagem, sair vazio ou não se envolver. Então, tinha que ser uma comédia boa. Encontrei essa, muito bem escrita e que faz você refletir pelo menos cinco minutos até o estacionamento. A Baixa Terapia é interessante, tem conteúdo e humor inteligente.
Eu venho fazendo isso há mais de 30 anos. Preocupo-me bastante com a formação de público. Uma das coisas mais importantes que a gente pode fazer como contribuição social é dar subsídios ao público, para que ele possa ver outras peças. No meu espetáculo, a plateia pode acompanhar os ensaios desde o primeiro dia de leitura, pois abrimos para o público – cerca de 800 pessoas acompanharam todo o processo de criação deste espetáculo. Nós abrimos também os bastidores e mostramos o que tem por trás da cortina; como é o maquinário, como os atores circulam por ali, como o cenário se movimenta, onde ficam as roupas. O público passa a ter uma outra visão. Fazemos bate papos com a plateia todos os dias depois dos espetáculos e oferecemos apresentações com acessibilidade, uma vez por mês, com tradução em libras e distribuição de tablets para a plateia, com a legenda em português de tudo o que é dito.
Não tenho nada a ver com o Coronel Afrânio. Foi um personagem fabuloso, mas foi mal compreendido porque as pessoas se baseiam só no estereótipo. Não entenderam que, lá dentro, existia um cara muito mais perigoso, que foi aparecendo ao longo da trama. Quanto a peruca, as pessoas se incomodaram porque adoram o meu cabelo branco.
Eu adoro essa cerveja, e recomendo. É uma cerveja muito boa. Diz que é machista quem ainda não bebeu a cerveja. Experimentem.
Dificilmente tenho tempo livre. Digo que sou um ótimo espectador. Fico até três, quatro horas da manhã vendo séries. Tenho o hábito de ler e leio bastante. Gosto muito de viajar com a família e vou sempre que posso. Alugamos um ônibus, se precisar, e partimos em 10, 12 pessoas. Adoro ir ao teatro e ao cinema, apesar de cinema estar um pouco chato por causa das pessoas, que não vão mais para ver o filme e sim para tirar foto e falar ao telefone.
Estou sendo obrigado a praticar esportes por causa de um problema na coluna, e não existe saída a não ser fazer musculação, fortalecer os músculos e emagrecer. Mas faço mesmo por obrigação. Antes, toda vez que eu pensava em praticar esportes, ficava deitado até esse pensamento passar.
Eu acho que quem faz teatro no Brasil é do tipo que não desiste nunca. Se a gente não tivesse esperança tinha parado com isso, porque é bobagem você tentar modificar a cabeça das pessoas se você não acredita. Eu ainda acredito, assim como todos os meus colegas que ainda tem coragem de produzir uma peça no Brasil, creem que esse cenário possa ser mudado. Temos muitos desafios pela frente e confio que a gente chegue lá.
Quem se lembra?
O primeiro papel de Fagundes em novelas, o Cadu de “Bel-Ami”, na TV Tupi, surgiu por causa da baixa audiência da novela. Tiraram o autor, Ody Fraga e chamaram o Teixeirinha (Teixeira Filho), que matou metade do elenco. Fagundes veio no elenco dele.
Você sabia?
Que no início da carreira, Fagundes trabalhava na TV, no teatro e ainda vendia enciclopédias de porta em porta. “O esforço e a dedicação dele me impressionaram”, disse o diretor Dennis Carvalho ao Jornal Extra. ­

A equipe da Revista Tudo chegou ao TUCA – Teatro da Pontifícia Universidade Católica uma hora antes do combinado. A ideia era tomar um café enquanto o relógio não marcava as 20 horas, horário agendado para a entrevista com Antônio Fagundes, que chegou pontualmente para atender alguns jornalistas e fãs. A peça Baixa Terapia, protagonizada por ele, e que tem emergido na mídia, marca o retorno do ator na comédia, momento significativo de sua carreira, já que estava com saudades de fazer o seu público sorrir. Fagundes prestigiou a Tudo e a equipe. “Vou atender outra pessoa primeiro e, assim, teremos mais tempo juntos”, disse ele.


Antônio da Silva Fagundes Filho.

De onde vem o da Silva e de onde vem o Fagundes?!

Silva Fagundes é uma única e tradicional família paulistana, formada por cristãos novos, vinda de Portugal e estabelecida em Bragança Paulista. Tem até árvore genealógica.

 

Você se declara agnóstico. Você segue firme nisso?! Mudou de opinião?! 

 

Você estudou no Colégio Rio Branco e foi lá que despertou para o teatro. Como foi esse processo?

 

São mais de 40 tramas pela Globo. Sabemos que esta é uma pergunta meio clichê, mas gostaríamos de saber qual foi a que mais tocou você. A mais gostosa de interpretar.

 

Você chegou a ficar alguns anos afastados da TV?! O que houve?

 

Você é internauta? É do tipo que está sempre conectado, olhando o celular? Qual a sua relação com as mídias sociais?

Procuro não ter. O fã, assim como qualquer pessoa, deve ter uma distância. Aliás, é ele que deve ter uma relação comigo.

 

Você está na peça Baixa Terapia com a Alexandra, sua namorada, com a Mara Carvalho, sua ex-esposa, e com o seu filho. Fale um pouco desta família linda e unida que você construiu. 

 

Apesar de já ter saído bastante informação na mídia sobre a peça, gostaríamos de saber a sua impressão sobre esse trabalho? O que mais atraiu você nessa história?

 

Vocês oferecem uma interação diferente com o público, certo? Conte um pouco disso: ensaios abertos, tour pelos camarins. Isso foi uma estratégia de marketing ou uma forma carinhosa de presentear o público?

 

Velho Chico foi um sucesso! É verdade mesmo que as pessoas se incomodaram com a sua peruca? O que o Antônio Fagundes tem do coronel Afrânio?

 

A gente não pode esquecer que você também é garoto propaganda das Proibida! Inclusive estão falando por aí que a marca é machista. O que você acha disso? É cervejeiro? 

 

O que curte fazer no tempo livre, em São Paulo?

 

 

Cuida da saúde? Faz dieta? Prática esportes?

 

É Lava Jato, é Carne Fraca. Qual a sua opinião sobre o atual cenário do nosso país? Você é patriota? Tem esperança? É do tipo que não desiste nunca?



 
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