Educação
“Nossa, ele fazia tão bem os números!”

Como se dá a relação da criança com o conhecimento – o que  é imposto não permanece!

Por Adriana Rodrigues Xavier


Certo dia, há alguns anos atrás, uma mãe me procurou na Escola e desabafou comigo sobre o filho de 4 anos:

“Nossa, ele fazia tão bem os números na escola em que estava e agora não o vejo mais fazê-los tão bem!”

Essa observação me trouxe uma enorme reflexão sobre o processo de apropriação dos saberes e sobre o significado desses conhecimentos para o desenvolvimento e para a vida de cada um. Eu me lembrei de quando o nosso querido Rubem Alves falava que a memória é como um escorredor de macarrão. Ela deixa ir embora tudo o que é desnecessário, assim como a água que restou do cozimento da massa. Assim é a nossa mente à mercê dos conhecimentos e das aprendizagens.

Conversando melhor com essa mãe e percebendo o movimento de seu filho na nova escola, duas coisas ficaram claras. A primeira, é que, com apenas uma ou duas semanas de aula, em meio às primeiras tarefas propostas, o menino tinha outros investimentos a fazer, tais como, no aspecto social (fazer amigos) e no afetivo (formar vínculos com a professora, com o espaço, pertencer ao lugar). Logo, “fazer bem os números” não era a sua prioridade, tampouco era a cobrança feita pela nova professora, que, muito adequada, sabia das necessidades emergentes do seu novo aluno.


 
A importância do vínculo na aprendizagem Acreditem neles, invistam também!


Ele não aprendia nada, na hora de fazer a lição de casa era um tormento! Não sabia o que fazer...Na Escola, vivia triste, de lado e quando eu ia conversar, todos me encaminhavam para fono, psicólogo, psicopedagoga...Minha rotina era marcar sessões, avaliar, pesar os valores, distâncias, logísticas etc... No ano seguinte, meu filho mudou de professora. Eu já estava calejada de tanto sofrer, procurando encontrar alguém que me desse uma esperança...Certo dia, cheguei um pouco mais cedo na Escola para buscá-lo e vi uma cena no mínimo inusitada: a professora nova e meu filho, sentados no banco do jardim da Escola. Eles conversavam...Ela sorria, ele gesticulava, falava...Fiquei observando de longe e então me aproximei e o chamei. A professora sorriu, se levantou junto ao meu filho, veio em direção a mim, me cumprimentou e então eu o levei para casa.


No carro, senti um brilho diferente em seu olhar, mas não quis fazer perguntas. Sabia que algo estava acontecendo.

Eu começava a perceber meu filho mais atento na hora das lições, comentando as coisas que aconteciam em sala de aula. Claro, as dificuldades continuavam, mas de um jeito diferente. Agora, havia um interesse, uma iniciativa diante das propostas de atividades...

Engrenamos na fono e na psicopedagoga, mas agora o trabalho fluía de uma maneira mais assertiva, produtiva!

O que aconteceu? O que mudou?

A resposta é:

Alguém olhou para o meu filho e começou a investir na construção de um vínculo!

Essa professora não queria saber do que já haviam falado dele, das dificuldades...Ela queria conhecê-lo e descobrir o que ele sabia, o que ele gostava...

Assim, meu filho cresceu e apareceu!

Hoje, ele continua sendo acompanhado, mas consegue participar de tudo junto com os amigos e o mais importante, está feliz!

Agradeço a essa querida professora!

Carta de uma mãe publicada em uma rede social recentemente!

Inspirados neste relato, podemos refletir sobre a importância do vínculo no processo de ensino-aprendizagem.

A criança necessita ser vista! A gente aprende onde se sente acolhido e querido! A gente devolve o que elaborou depois que confia, que acredita! Isso é vínculo! É uma mão sempre presente que não desiste e investe, não sossega... Busca sempre um viés, um caminho para agregar, para estimular, para trazer aquela criança para si!

Isso não se ensina em nenhuma faculdade! Faz parte da pessoa e também não pode ser cobrado de ninguém....

Estamos em férias! Logo, logo as aulas vão recomeçar!

Professores, reabasteçam-se de inspiração porque uma nova turma vai chegar!

Pais, procurem conhecer, olhar nos olhos dos professores de seus filhos! Acreditem neles, invistam também!

A vocês, crianças, só desejo brincadeiras e muitas descobertas!

É tempo de criar vínculos, de cultivar relações....

Vamos mudar histórias, inclusive as nossas!

Um bom ano a todos!

Deixo uma dica de um filme muito interessante para aprofundar a reflexão deste tema tão importante:

Acreditem neles, invistam também!

 
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