Educação
QUANDO VIER A PRIMAVERA

Uma coluna diferente

 
Ao invés de uma coluna sobre Educação, que talvez seria o que você, leitor, esperava, a colunista da revista Tudo, Adriana Rodriguez destinou esse espaço a uma linda homenagem para uma educadora e grande amiga. Elisa Nico que partiu recentemente. E aqui está o adeus de sua colega de trabalho, de alunos, pais de alunos e familiares.
Um singelo tributo para alguém que merece o mundo todo.

Se foi em uma tarde qualquer, sem alarde, sem trombetas, simplesmente se foi. Ainda guardo a sua voz firme e carregada de tantos significados para mim nos últimos áudios do WhatsApp.

Eu colaboro escrevendo para a revista TUdo desde 2014, e era para ela que eu mostrava meus textos antes de entregá-los à redação. Assim era a parceria; de encorajamento, validação, incentivo. Esse mês será diferente.

Dona da intervenção pontual, firme, mas carregada de afeto e de vínculo, tinha na sala de aula o seu templo, o porto seguro de quem lá ancorava o lugar das aprendizagens. Mudou vidas; sabia sempre o que fazer; sensível, olhava lá na frente. Um dia cheguei em sua sala e ela estava cortando as unhas de um menino. Perguntei o que estava havendo e ela respondeu:
“Ele só corta comigo!”
Era isso e muito mais...
A responsabilidade de um professor diante dos seus alunos é imensa! Uma palavra, uma ação. Coisas simples da rotina, do cotidiano, se não forem bem encaminhadas, tratadas, podem reverberar, tomar um tamanho equivocado e negativo na vida de uma criança. São no mínimo quatro ou cinco horas diárias de convívio, corpo a corpo, sob o mesmo sol, sob o mesmo frio. E ela estava lá, com os seus, recebendo e entregando, consolidando de um jeito artesanal, pessoal e intransferível.

Um dia ela me ligou chorando, lendo um relatório de fim de ano de um aluno. A cada frase um soluço. O momento de entrega de um grupo sempre é mais forte, mas doído. Ela sentia e tudo bem sentir.

Dessa vez ela entregou o grupo e seu foi. Não foi notícia do jornal, nem esse evento vai se tornar feriado nacional, mas, para mim, e para muita gente, naquela tarde que de repente se calou, alguém muito especial partiu.

Pode ser que você, leitor, nem imagine de quem estamos falando, mas acredite: alguém muito importante nos deixou; uma pessoa comum, uma professora de uma Escola da região, mas o fato aqui é trombetear para quem puder e quiser ouvir, que é nessa relação aparentemente comum do dia a dia, na escola, entre professor e aluno, que residem os mais profundos aprendizados e as mais intensas e singulares experiências; as trocas que ficam para a vida.

Dessa vez, despeço-me deixando uma canção abaixo, muito querida por ela e lembrada pelas crianças para homenageá-la:


Um dia cheguei em sua sala (de aula) e ela estava cortando as unhas de um menino. Perguntei o que estava havendo e ela respondeu:
“Ele só corta comigo!”



 
Saber esperar Leia +

Num dia destes, eu estava com minha filha na padaria perto de casa quando se aproximou um cachorro diferente. Ela então me perguntou: “ Mãe que cachorro é esse? Como chama esse tipo de cachorro?” Ela, do jeito dela, queria saber a raça do cãozinho. Eu não sabia ao certo, também fiquei curiosa, então digitei algumas palavras em um site de pesquisa no celular e logo apareceu o nome que queríamos descobrir.

Entrei no meu túnel do tempo e voltei aos anos 80, na sala de aula da quarta-série quando a professora dizia:

Pessoal, tem um trabalho para entregar sobre o tema ENTRADAS E BANDEIRAS.

A pesquisa deve ser feita em papel almaço com cabeçalho.”

Eu me lembro que nessas ocasiões, minha mãe me levava a uma biblioteca do bairro. Eu ficava lá praticamente a tarde inteira e junto com a bibliotecária, selecionava livros sobre o assunto pedido pela professora. Depois de copiar muitos trechos desses livros no caderno, chegava em casa e passava à limpo no papel almaço!!! Alguém conhece ou se lembra desse papel? Tinha com pauta e sem pauta...

Quantas etapas para se conseguir uma informação...havia um ritual...havia um tempo, uma espera! Era a época da Barsa, da Enciclopédia Conhecer. Pessoas iam de porta em porta para vender esses livros com vários volumes e encadernação nobre!!! Livros cheirosos, bonitos...

Continuei viajando, refletindo e me lembrei de que nessa época também havia poucas lanchonetes de fast food. Nós morávamos na Mooca, mas esporadicamente íamos ao Jack in the box perto da Sears na Zona Sul para comer. Era algo único, um passeio diferente, eu e meus irmãos adorávamos...mesmo sendo fast, nem era tanto assim, a gente se demorava, conversava...esperava...

E as fotos então? A gente comprava os filmes de 12, 24 ou 36 poses, tirava as fotos com a câmera e então ia até a loja para revelá-las. Só depois conferíamos como as imagens tinham ficado...Nossa, quanta espera!!!!




E se eu fosse escrever, exemplos é que não me faltariam...

Tudo bem, o tempo passou, as coisas mudaram muito de lá prá cá e é claro que deve e continuará sendo assim...tem que haver evolução não é???

Mas e agora? Como podemos ensinar a arte da espera para nossos pequenos??? Se estamos imersos a esse tempo onde tudo é instantâneo e em que tudo muda tão rápido e quase nada permanece?

Há que se trabalhar esse aspecto sim, sem espera...

Porque engatado na atmosfera da impaciência e da urgência sem sentido, está a intolerância, a ansiedade, o desespero e a insegurança.

Daí eu penso no que as Escolas representam hoje em dia e as vejo cada vez mais com essa missão, de serem de certo modo, lugares atemporais onde se regula, se mantém, se garante o que nunca pode ser mudado... As relações, os valores, os processos, o sentido da busca pelo conhecimento e sua mobilização de modo que ele esteja de fato presente na vida das crianças.

Entre os amigos com o grupo na Escola, é preciso esperar a vez de falar, os pequenos cantam a musiquinha do lanche antes de comer, e se o que foi pensado para acontecer naquele dia necessitar de uma parada para se conversar sobre algo que deve ser debatido, o grupo para, discute, se acomoda de novo e segue, mesmo que no dia seguinte seja preciso retomar algumas atividades que ficaram pendentes no dia anterior. Mas é claro que o componente social contribui para que as coisas possam ser conduzidas assim...

Em casa o ritmo é outro, há mais concessões e as crianças irão se empenhar para que seus desejos sejam atendidos...Esse é o seu papel, romper as barreiras, os limites, é o que elas têm feito desde o nascimento. À família cabe a delicada tarefa de continuar sendo aquele porto seguro, onde se chega e se retiram os sapatos apertados do mundo em troca dos chinelos, mas ao mesmo tempo ela também deve dar continuidade à sua função de educadora, de mentora...

Vamos pensar sobre isso? O ano está só começando e muitas ações podem fazer a diferença para que nossas crianças reúnam recursos e encontrem na espera, um lugar menos aflitivo, desconfortável e frustrante, mas sim, a percebam como um espaço quase terapêutico para respirar, para ouvir, para ir a fundo... um espaço onde o destaque é o percurso e não somente a chegada!

Quem sabe de vez enquanto possamos ligar pros amigos de fixo pra fixo ao invés de mandar mensagem por whats app?

Se a Escola das crianças for pertinho, que tal um dia desses irmos à pé? Enquanto conversamos?

E que bom se conseguíssemos fazer um trabalho de pesquisa da Escola indo a uma biblioteca de verdade, com muitos livros na prateleiras?

E se pudéssemos incentivar nossos filhos a sustentarem suas escolhas? Terminarem o que começaram, pois às vezes também é preciso esperar para ver se gostamos de algo, muitas vezes é preciso investir, tentar mais um pouco para gostar, aprofundar, conhecer mais, reconhecer!!!

É isso!!!

Deixo como dica um vídeo para inspirar e uma biblioteca para visitar!

Como é a primeira vez que nos “vimos” em 2017, aproveito para desejar a todos um lindo ano!!!!!

https://www.youtube.com/watch?v=UU5-hkBH2rw

caminhando com Tin tin”

Biblioteca Mário de Andrade

Horário(s) Segunda a sexta, das 8h30 às 18h30; sábado, das 10h às 17h.

Endereço

próximo da estação Anhangabaú do metrô

Avenida São Luís, 235, 01046-001


Telefone (11) 3256-5270

 

Fonte: Adriana Rodrigues Xavier

 
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