Moda
Vista-se de boas intenções


Começou a época do ano em que tudo é festa. Dane-se a austeridade dos regimes que consumiu meses de seu sacrifício. Danem-se as rígidas regras de etiqueta que engessaram o seu modo espontâneo de ser. A hora é agora. Deixe o politicamente correto de lado. As festas de fim de ano são o momento ideal para se entregar de corpo e alma ao open food e ao open drink. Só não vale comer e beber em excesso como se aquela fosse a última refeição da vida.

Entretanto, tem algo que não vale a pena deixar de cumprir de jeito algum: o dresscode dos eventos que irá frequentar. Você pode até sair carregando suas sandálias de salto nas mãos de tanto dançar e voar as tranças por aí, mas chegar ao evento sem elas, calçando rasteirinhas, nem pensar!

Cada festança, sarau ou regabofe do nosso epílogo anual merece um traje à altura do evento. Se o assunto é a churrascada da firma, deixe as joias de lado e se entregue à descontração. De nada adianta calçar um salto agulha, se montar dos pés à cabeça, se o chão é um gramado de campo de futebol. Você terá cometido penalidade máxima e será a primeira ser escalada para sair ralando na boquinha da garrafa. Não orna. Nem adianta insistir. Em festas de empresa quanto mais discreta você for, melhor para o seu currículo vitae. Deixe a sua presença ser notada pela sua alegria e não pelo floral fúcsia de sua saia envelope.

Agora, se o rodenir for a noite e se tratar de um elegante baile de formatura, esta é a hora de lacrar! Onde a música rola solta e as luzes ajudam você a brilhar, vale se jogar nos paetês, valorizar seus atributos naturais e se entregar à sorte dos acontecimentos. Só não exagere no make up, pois o verão não perdoa máscaras de cílios e delineadores baratos. Pense bem antes de borrar sua biografia. O passado é uma sombra impossível de demaquilar.

Festas em família merecem atenção especial. Nelas você irá encontrar pessoas que, mesmo portando o mesmo sobrenome, muitas vezes, são a antítese do seu modo de ser. Toda cautela é pouco para evitar pequenos desentendimentos entre uma coxa de peru e outra. Ok, você quer ser notada por todas as suas catorze primas,  pois acha que esta é a ocasião perfeita para esbanjar o sucesso adquirido em horas à fio na academia de ginástica. Até aí, nada de errado. Mas uma santa comemoração como a ceia de Natal na casa da nona não é o local ideal para vestir o look que Nicki Minaj usou no clipe Anaconda. Nem Gaga ultrajaria.


 
A consciência que se veste

O inverno nem foi rigoroso aqui nos trópicos, mas bateu em você uma vontade de levar para passear aquele casaco, que foi uma pechincha, comprado no bazar benemerente? Entendo, ficou só na vontade. Até por que você não é louca de sair por aí ornando as peles de mink e virar alvo móvel do Peta (People for the Ethical Treatment of Animals). Eu sei que quando se veste você pensa em estilo, beleza, conforto, sensualidade, praticidade, elegância, charme... Mas saiba que existem pessoas que aliam a tudo isso o senso de bem comum e preservação. Acorde: o que está na moda, agora, é salvar o planeta!

Mais do que nunca os estilistas estão aliando suas ideias de tendências da estação às campanhas e organizações voltadas a boas causas. A mais conhecida é a do Câncer de Mama, lançada nos Estados Unidos pelo Conselho de Designers de Moda da América, em virtude da morte da jornalista de moda Nina Hyde, amiga do designer Ralph Lauren, criador do logotipo da campanha. Atualmente, o Brasil é o responsável por metade da arrecadação mundial só com a venda das camisetas com o alvo azul.

O termo preservar, tão usado na moda, não significa mais manter as suas roupas cheirosas e livres de traças. A moda apropriou-se deste verbo e vem colocando você como agente desta mudança de comportamento. Mas para que isso aconteça você tem que comprar, além da ideia, casacos e mochilas feitos em lona de caminhão reaproveitada, calças de algodão orgânico cultivado por pequenas comunidades do Ceará, bijuterias elaboradas com borracha de pneu ou bolsas produzidas com garrafas pet. Mas alto lá! Não fazer parte desta onda não significa que você é uma inimiga do planeta! Pior que consumir roupas que não fazem parte deste exército fashion da salvação, é pregar uma cultura que propaga a liberdade impondo regras de comportamento rigorosos com códigos de conduta que servem mais à uma nova indústria de consumo do que à verdadeira consciência ambiental.

Sem falar que ser politicamente correto é caro pra xuxu! A roupa pode até ser confeccionada com material reciclado, mas o preço não. Tente fazer uma refeição 100% orgânica e tire a prova: seu orçamento irá às alturas. A não ser que você faça parte de uma comunidade naturista que consome o que planta e colhe, cultivar hábitos que combatam a agressão à natureza é caro demais!

Então, antes de aderir completamente à um estilo vegano de ser, que tal começar aos poucos? Uma amiga que ama alimentação natural mas que acha um absurdo o preço dos produtos, introduz em suas refeições diárias pelo menos um alimento saudável e adequado ao seu paladar e ao seu bolso. Se no cardápio, por exemplo, é a abobrinha a líder na lista de alimentos com mais agrotóxicos, ela compra a orgânica. Simples assim!

Na moda podemos seguir o mesmo princípio. Antes de vestir um look completo feito de materiais que não agrediram o meio ambiente, vista a sua consciência de boas intenções. Ela irá transformar a sua essência e determinar as suas escolhas construindo o seu futuro.


Celso Finkler

Celso Finkler é publicitário, pós-graduado em psicobiofísica

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