Andy Serkis: mestre do corpo, gênio do cinema

Ele quer Oscar! Ele está no Brasil! Ele foi entrevistado pela equipe da TUdo!
Toda essa ansiedade é porque ficar pertinho de Andy Serkis dá aquele frio na barriga, afinal, é ele quem dá vida – emprestando a sua interpretação, seu olhar, gestos e talento - aos maiores personagens digitalizados do cinema, como o esquisitão Gollum, de Senhor dos Aneis, e o primata protagonista César, de Planeta dos Macacos – A Guerra, terceiro e último longa-metragem da trilogia.
Demos apenas dois exemplos de uma nada modesta lista de celebridades virtuais que fizeram de Andy um cara mundialmente reconhecido como pioneiro na técnica de capturar movimentos, uma verdadeira sofisticação computadorizada.
O cinquentão britânico, casado com a atriz Lorraine Ashbourne, é pai de três filhos, mora em Londres e é humilde ao dizer que teve uma formação convencional. Andy começou a lapidar a sua carreira em 1984, interpretando personagens de Willian Shakespeare e, hoje, carrega no currículo o ofício de especialista em performance de captura de movimentos.

Pensa que é fácil? Fazer o que o mestre faz depende de uma parafernália sem fim: são uniformes de malha com pontos de referência, capacetes com câmeras voltadas para o rosto e uma série de outras geringonças que ajudam a captar, inclusive, pequenos gestos como o mexer da sobrancelha.

Em São Paulo, a coletiva de imprensa com Serkis aconteceu no Shopping Eldorado e o entrevistado era só sorrisos.

Também pudera. O ator está rindo à toa com os 220 milhões de dólares atingidos nas bilheterias mundiais com seu último filme.
Planeta dos Macacos, que citamos acima, estreou dia 14 de julho e Andy veio até aqui para divulgar o longa, dar um salve aos brasileiros e, claro, bater um papo com a gente.

Confira!


Como Andy mesmo diz, “O ator realmente se transforma em outra pessoa”. Desde então, o inglês vem dando vida, as criaturas mais famosas no mundo cinematográfico. Por ele, já passou “King Kong”, “As Aventuras de Timtim”, “Star Wars – O Despertar da Força”, e atualmente as três últimas franquias de “Planeta dos Macacos”.

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REVISTA TUDO - A tecnologia na captura de movimentos mudou muito desde que você interpretou Gollum/Smeagol em “Senhor dos Anéis” (2002) no cinema. Como você analisa essa evolução tecnológica?
ANDY SERKIS – É importante entender a captura de movimento. Ela é uma ferramenta e não um gênero. O ator realmente se transforma em outra pessoa. Não se captura apenas a parte física, mas as expressões do rosto, o áudio e tudo que envolve a interpretação. Eu aprendi a manusear o meu corpo. Há alguns anos, esse processo era feito em etapas. Filmava-se os movimentos do ator com uma câmera de 35 milímetros e, em seguida, o material era levado para ser editado em um computador por animadores. Nós tínhamos que repetir os movimentos dentro e fora do set. Quando eu interpretei Gollum/Smeagol (Senhor dos Anéis, 2002) não era fácil capturar as expressões faciais. Já em King Kong (2005) consegui trabalhar com marcadores, mas só em estúdio. Quando começamos a trabalhar Tintim (As Aventuras de Tintim, 2012) também. No Planeta dos Macacos (A Guerra) conseguimos levar a câmera e a tecnologia para o ar livre, em tempo real, com outros atores em cena, interagindo. Essa inovação faz com que a interação entre os personagens seja feita como em qualquer outra filmagem. Essa tecnologia avançada possibilitou melhor qualidade, por exemplo, nos pelos dos animais, na neve que cai. Ela consegue esmiuçar a performance dos atores. Quando trabalhamos com essa tecnologia é importante pesquisar os movimentos. Quando o Steve Zahn (Macaco Mal) começou o trabalho, ele pesquisou. Aliás, esse ator é brilhante! Quando estávamos gravando, era difícil me manter sério, já que ele é do meio cômico. Na maior parte eu sofria bastante, estava sempre apanhando, sendo atacado, tinha uma intensidade muito grande, mas tudo isso ajuda com o personagem.



Esse tipo de atuação nos parece muito mais difícil e complexo do que o tradicional. Aliás, motivo pelo qual muitos acreditam que suas interpretações são dignas de Oscar.
Com certeza existe um preconceito, porque as pessoas se recusam a entender essa tecnologia. A percepção está mudando um pouco, alguns já até reconhecem. Os membros mais velhos do Golden Globe Awards e do Oscar se recusam a entender. Mas é só ver os bastidores. Não é só colocar uma roupa específica, porque a atuação precisa acontecer ali. Quando vou interpretar um personagem, procuro estudar sobre ele. Como ele age, o que ele sente. Foi assim com o César também. A única coisa diferente é a maneira como essas imagens são captadas. Mas a essência é a mesma. Quem sabe daqui uns cinco anos conseguiremos mudar isso. Nós temos muitos jovens que acompanham e gostam dessa tecnologia; muitos fãs estão sempre conectados ao que está acontecendo. Fizemos pela primeira vez, no Reino Unido, uma peça teatral (A Tempestade, de Shakespeare) onde o ator usa um traje de captura de movimento sendo projetado em tempo real, em avatares. Seus personagens surgem em cortinas de fumaça. Conseguimos transmutar o personagem. É mais uma experiência de vida, onde você está inserido e fazendo parte do que está acontecendo.

Em “Planeta dos Macacos – A Guerra”, o César volta com alguns conflitos pessoais. Como você trabalhou essas questões de personalidade?
A verdade é que esse filme trata justamente sobre empatia. Ele tem a habilidade de nos colocar no lugar do outro. Essa é a abordagem do filme, desde o início. Os macacos são uma ótima metáfora para isso, porque apesar de sermos 3% geneticamente diferentes deles, os vemos completamente diferentes. Vivemos num mundo contraditório. O mundo está sofrendo e existem problemas sobre diferenças. Todos os personagens do filme são moralmente dúbios. Não tem vilão ou mocinho. O César matou o amigo dele (Koba, Toby Kebbell) e agora é afetado por essa decisão. Ele se encheu de ódio e é onde ele perde a empatia. O César consegue olhar nos olhos do Coronel (Woody Harrelson), que ele quer matar, e finalmente reencontrar a empatia. As pessoas conversam comigo e ficam emocionadas quando veem os macacos sendo atacados, agredidos, mortos. Elas se conectam com a violência de uma forma muito real. Estamos acostumados a ver violência gratuita, então, a partir desse aspecto, acredito que é muito importante. O diretor (Matt Reeves) conseguiu fazer o César um personagem com defeitos, apesar de ser um bom líder e conseguir resolver conflitos. Mas, na verdade, o que o César não havia entendido era esse ódio que o Koba tinha dos humanos, porque ele (César) recebeu muito amor dos pais humanos. Já Koba foi torturado e traumatizado porque fizeram experimentos com ele. Por isso, quando o César entra nessa jornada do ódio, da vingança, ele passa a entender o lado do Koba. Sinto-me muito privilegiado de passar essa mensagem para milhões de pessoas e, ao mesmo tempo, entretê-las e as fazer pensar, sentir e se conectar com o assunto. Desenvolvemos uma grande história e não há nada previsível. O que é bastante raro num filme blockbuster. Existe uma exaustão e, muitas vezes, os filmes não trazem nada de novo. “Planeta”, não é assim. É inovador. Essa história é construída a partir do nosso tempo atual.

Essa é a terceira vez que você interpreta o César no cinema. O que mudou desde o primeiro, que aconteceu em 2011, até os dias de hoje e quais foram os principais desafios?
O mais cansativo, preciso confessar, foi fazer o César mais novo. No segundo filme, tivemos a preocupação de tornar crível macacos que falam. É quando surge o nascimento da língua e o César se torna cada vez mais parecido com os humanos. É um personagem muito inteligente e nós desenvolvemos a questão da linguagem. Não foi um processo muito fácil. Passamos pela linguagem de sinais e, em seguida, é introduzido a fala, mas ela ainda não é bem pronunciada. Cheguei a usar um protetor bucal para dar o tom de voz para o personagem. Existe uma diferença em termos de articulações nesses dois filmes. O personagem evoluiu não só na parte física. Eu queria mudar o César como líder. Você percebe que ele anda praticamente em pé quase o filme todo. Ele está sempre ereto. Ele é muito humano. Nós buscamos a importância do que afeta a nossa memória física. Eu queria que ele tivesse essa mesma sensação. Adoro esse universo. Como eu disse antes, é a metáfora. Claro que o Matt é um dos melhores diretores com quem eu já trabalhei. E para ele, o que interessa é a performance do ator. Todo movimento é gerado a partir da perspectiva da performance. A câmera segue essa perspectiva do César. Foram cinco meses trabalhando no Canadá, dentro de uma roupa nada confortável.

Com essa tecnologia é possível viver qualquer outro personagem, até mesmo nessa trama. Você toparia, caso surgisse o convite?

Porque não?! Se surgir um personagem no qual eu me conecte, com certeza eu faria. O César é um ser humano na pele de um macaco mas, que de certa forma, é excluído. Esse filme vai tocar as pessoas e emocioná-las. Elas serão educadas a não julgarem o próximo.

Você já falou algumas vezes que enxerga o César como um líder. Para interpretá-lo você buscou inspiração em alguém?
No segundo filme, procurei me inspirar em alguns personagens emblemáticos da história real para dar o tom de liderança que o César precisava ter. Nelson Mandela foi líder de um movimento que sempre prezou pela liberdade do seu povo e de uma sociedade mais igualitária. Mergulhar nessas questões me fez pensar profundamente nisso e me colocou nessa posição de analisar. É um filme que tem filosofia e ação. Um filme de guerra entre macacos e humanos. Na minha visão, o César está levando o seu povo para a terra prometida.

Além de atuar, você também está envolvido num projeto como diretor. O que você pode falar sobre esses novos trabalhos?
Sempre tive vontade de dirigir e tive a sorte de trabalhar com essa tecnologia, porque fiquei dos dois lados. Peter Jackson (premiado roteirista) foi um grande mentor. Quando criei minha própria empresa, (The Imaginarium Studios) a ideia era essa. Se você acha que é difícil fazer o rosto de um ser humano se parecer com a um macaco, tente imaginar uma cobra, uma pantera. Nós estamos trabalhando num novo projeto (Jungle Book) e o ator Christian Bale fará uma pantera (Baguera), Benedict Cumberbatch fará o tigre (Shere Kahn) e a atriz Cate Blanchett interpretará uma cobra (Kaa). Eles estão sensacionais! Eu farei o urso Balu, um personagem bastante complexo. Estamos nos preparando também para lançar outros projetos. Um filme que se chama “Respirar”, que conta a história de Robin (Andrew Garfield) um sujeito que teve poliomielite mas acabou vencendo a doença numa época em que a cura era dificílima. Ele reafirma a vida. É extraordinário! Nós temos uma academia, onde atores podem treinar a técnica e recebemos vários estudantes de tecnologia para estágios.


Alguns trabalhos famosos da Filmografia de Andy
As Aventuras de Tintim 2 – Prisioneiros do Sol
Star Wars – O Despertar da Força
Hobbit
King Kong






 

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