EMPATIA BEM DEBAIXO DOS NOSSOS OLHOS Leia +



Já no carro, voltando para casa, perguntei a ela o que havia acontecido e mamãe contou que aquela criança, de uns 11, 12 anos, estava chutando um cachorrinho vira-latas que pedia comida aos clientes que saíam da padaria.

Voltei para casa pensando e, até hoje, não me esqueci da cena. Eu me lembro que naquele dia, tentei me colocar no lugar do cachorrinho, com fome, sozinho e sentindo dor e medo.

Mais tarde, já na Escola, trabalhando como professora, observei outra cena, dentre tantas do dia a dia. Duas meninas estavam brincando, quando uma delas arrancou uma folhinha de uma planta. A outra criança mostrando tom de indignação em sua voz disse:

Não faça isso! Você iria gostar se alguém arrancasse o seu cabelo”?

Embora o discurso possa ser interpretado como uma frase feita, repetida dos adultos, de alguma maneira, essa criança fez naquele momento a intervenção cabível a ela diante do repertório o qual ela tinha acesso e, é claro, do julgamento que ela fez do fato em si.

Refletindo sobre essas lembranças, algumas tão remotas outras mais próximas, comecei a pensar sobre o impacto que nossas atitudes podem ter nesse mundo, diante do olhar de uma criança.

No caso da cena da padaria, por exemplo, ela teve minha mãe como portadora de um determinado valor, de um princípio que é o de não maltratar os animais. Claro que hoje penso: “Será que os pais da criança que chutou o cachorro ficaram bravos com minha mãe por essa atitude (digamos ousada) ou os mesmos concordaram com ela e também repudiaram a atitude do filho? Parei para pensar nisso e esse tema renderia uma bela discussão, mas hoje quero falar sobre empatia.

Sim! Essa capacidade fascinante que temos em nos colocar no lugar do outro e que a criança também tem! É isso mesmo! Apesar de estarem mais focados neles mesmos, os pequenos conseguem perceber o outro e o mundo a sua volta, tanto a partir de um ímpeto que podemos chamar de instinto, quanto a partir do tom que o adulto que o acompanha dá a qualquer situação.

Beijar o dodói que o papai fez, colocar água para a borboletinha que está quase desfalecendo no chão, fazer carinho na mamãe que chora. Toda essa poética infantil que parece comum no dia a dia, carrega sentimentos fortes, nobres e grandes virtudes, tais como a solidariedade e a empatia.

É possível nutrir essas virtudes, ouvindo a criança, ajudando-a a verbalizar o que ainda não consegue, nomeando alguns sentimentos, mediando conflitos com assertividade e, acima de tudo, investindo e confiando nela!

Sabem aquelas plaquinhas em que está escrito: Sorria, você está sendo filmado? Pois é... com criança por perto também é assim; desde bebês eles nos ouvem, conhecem nosso tom, nosso gesto, assim vão reunindo suas impressões sobre o mundo e adaptando-se a ele. A palavra adaptação, aqui, não é no sentido de conformidade com o mundo, mas sim, no sentido de compilar repertório suficiente para ter autonomia e escolher o que fazer em diversas situações.

Podem me chamar de otimista, mas tenho enxergado um mundo que parece tentar redescobrir o que é de fato necessário para a formação de um ser humano. Desde as escolas e suas reflexões e ações acerca dessa questão, até grandes empresas que buscam não só funcionários bem formados e informados, mas também aqueles com capacidade de adaptação, de se relacionar com o outro, vejo essas mudanças e penso que as corriqueiras cenas da infância nunca mereceram tanto a nossa atenção.

Há que se ter espaço e tempo para se viver e experimentar esses nobres sentimentos.

Dica de leitura:

Inserir a imagem do livro em algum cantinho.


Adriana Rodriguez Xavier – pedagoga e psicopedagoga
Adrianardz73@hotmail.com

 

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