Angélica solidária


A maternidade e a montanha russa da vida

 Respira, inspira.
Foi na meditação que Angélica, 43 – com corpinho e rostinho de 20 - , encontrou forças para lidar com os momentos difíceis da vida. Quem a assiste na TV - linda, leve e loura - mostrando a dentaria branca e reluzente na maior parte do tempo, e pensa que tanta alegria faz jus a uma vida perfeita, sem grandes batalhas pela frente, não sabe de nada.
A apresentadora lutou por meses contra o trauma de ter sofrido um grave acidente, em 2015, com os filhos, o marido e as babás das crianças.
O avião da família caiu e todos sobreviveram.
Um divisor de águas na história dela como mãe, mulher e ser humano.

A vida de Angélica sempre foi um livro aberto, formado por capítulos mais emocionantes e outros menos, mas que todos já leram e releram. Pegou na labuta cedo, foi da televisão para as telonas dos cinemas, gravou discos e cresceu junto com a criançada das décadas de 1980. Por opção, transformou seu programa infantil para um formato que agradasse toda a família e cresceu profissionalmente com isso. O reconhecimento aumentou e a legião de fãs se estendeu por gerações.
Bem sucedida, famosa e casadíssima há 12 anos com o apresentador global Luciano Huck, em pouco tempo, formou a sua prole de cabelos dourados, Benício, Joaquim e Eva, e comprova, diariamente, que nasceu para a maternidade, seja por escolha, seja por instinto. Está sempre com seus passarinhos protegidos embaixo das suas asas.
Natural de Santo André, flamenguista de coração e sagitariana com quase 7 milhões de seguidores no Facebook – conectadérrima – Angélica compartilha com o público momentos de trabalho e da vida pessoal, diariamente. Nunca teve dificuldades em ser autêntica e natural. Posta fotos maquiadas ou com olheiras sem qualquer preocupação. Talvez porque ela saiba que é dona de uma beleza natural e serena, conquistada, por incrível que pareça, com a maturidade, que bateu cedo em sua porta.
Prestes a completar 40 anos de carreira – já que começou com apenas quatro no programa do lendário Chacrinha – mergulha, atualmente, na proposta de conhecer de perto projetos sociais transformadores espalhados pelo Brasil, provando que os valores do ser humano estão acima de qualquer coisa, e com a meta de oferecer um rumo diferente ao seu programa, trazendo à tona temas como generosidade, amor e humanização.
Foi por essas e outras que ela foi a “nossa” estrela escolhida para estampar a capa da edição de maio da revista Tudo. A Angélica é pura inspiração. Pode crer.

Após 11 anos à frente de um programa para toda a família, você surge com uma nova proposta, que é falar sobre os projetos sociais espalhados pelo Brasil. Como tem sido essa experiência?
São várias coisinhas que gente vai captando. Os pequenos gestos que vão te marcando, como é o caso de não desperdiçar comida. Nós gravamos em um projeto, em que vimos o reúso de flores de casamento que são desperdiçadas; eles pegam, tratam e fazem doação para asilos. Eu passei a ter um olhar sobre as coisas, e o “Estrelas Solidárias” é isso. Estar ali praticando um ato solidário, como o voluntário, e aprendendo a viver denovo também. O caminho mais bacana para seguirmos é ajudar ao próximo, porque o mundo está muito confuso, vemos muito desamor. Poder incentivar as pessoas a olharem para o lado, e verem que tem alguém ali e que elas podem ajudar, é o máximo.

Você diria que essas atitudes influenciam no seu dia a dia?
Procuro passar isso para os meus filhos. Chego em casa e conto onde eu fui, e o que aconteceu. É a minha forma de tentar viralizar, em casa, o meu sentimento. Dá pra perceber que as pessoas que são voluntárias hoje, tiveram muito incentivo em casa, ou às vezes, os pais já faziam voluntariado. Se a gente começar a formar uma geração de pessoas mais solidárias, o mundo pode, daqui há algum tempo, ser diferente.

Em que momento você sentiu que era necessário mudar o formato do programa?
O programa vai fazer 11 anos no ar, e ele merecia este presente; e o público do “Estrelas” merecia algo novo. Era uma vontade minha, e da nova equipe que entrou no programa. Fico muito feliz por isso, porque temos que estar sempre renovando. A solidariedade é muito interessante para se despertar nas pessoas. Já me perguntaram se tinha a ver com alguma coisa que eu vivi, e não. Acho que nada é por acaso; nós acabamos atraindo coisas que são importantes, e eu acabei atraindo esse projeto sem ter programado.

O programa também atrai a terceira idade, e percebe-se que você tem uma certa empatia por eles.
Asilo é um negócio que me marca, porque sempre gostei muito de estar com idosos. Acho uma loucura nesse país não existir atenção com o idoso. As pessoas trabalham tanto e, às vezes, no fim da vida, ficam lá jogadas; é uma coisa que não consigo entender. Mas eu atraio as crianças também. O interessante desse novo formato é que me possibilita ir até o público. Eu parei de fazer programa com plateia desde o fim do “Vídeo Game”, há 4 anos, e eu nunca tinha ficado sem fazer programa de auditório antes. Estou revivendo esse contato, de estar junto das pessoas. Gravamos numa instituição com 700 crianças e tive a oportunidade de estar junto, ouvir o que elas querem, o que elas esperam. Eu sentia falta disso.

Então você está gostando desse contato com o público novamente?!
É um barato. É muito gostoso porque todo mundo parece que já te conhece. Eu uso crachá com o meu nome, porque as crianças não sabem quem sou de verdade, afinal, não faço programa pra criança há muito tempo, mas é muito confortante ser recebida como se fosse parte da família.

Eles têm muita curiosidade sobre a sua família?!
Eles perguntam muito. As crianças adoram o Luciano, e me pedem pra mandar beijos; as vovozinhas também, e falam dos meus filhos, e dizem que eles são tão bonitinhos. É diferente do contato que sempre tive com a plateia, porque é uma conversa ao pé do ouvido.

Diante desse novo desafio, você também terá que passar mais tempo longe da família, viajando. Você pretende levar os filhos?
Eu os carrego comigo quando dá e, atualmente, no período escolar, não tem como. Quando fazíamos o “Estrelas” de férias em janeiro e julho, eles iam comigo; de qualquer forma, agora são viagens bem mais curtas, em que eu consigo ir e voltar no mesmo dia. Não incluo meus filhos nos programas. Por enquanto, eles estão só observando. Esse projeto que visitei as crianças, que eu comentei, me arrependi de não os ter levado, porque eles iriam adorar. Se tiver oportunidade e tempo, vou levá-los porque é importante o exemplo. Espero que o programa deixe uma mensagem bacana para o público e para os meus filhos.

E como tem sido a sua participação em relação aos projetos escolhidos? Você tem colocado a mão na massa?
É o que mais estou gostando de fazer. Claro que nós temos que mostrar o projeto, conversar, fazer entrevistas com as pessoas, mas o mais legal é ser voluntário. É legal poder fazer, carregar a caixa, e sentir na pele o que as pessoas fazem. É interessante observar alguém sair de casa, doar o seu tempo e o seu suor por uma pessoa que nem conhece. As instituições são muito especiais, mas quando tem idosos, fico mais sensibilizada. Gravamos em duas diferentes: uma mais carente e outra um pouco menos. Me chamou a atenção a solidão dos idosos, independente da condição financeira, e fiquei refletindo sobre isso. A instituição que visitamos, e falamos sobre o desperdício de alimentos, também me tocou, porque você se dá conta de que aquela maçã, que você só comeu um pedaço e jogou fora, pode ser a única refeição de alguém.

Você sempre esteve envolvida com esse tipo de projeto, ou é a primeira vez?
Eu sempre estive envolvida com campanhas, mas nunca tinha participado de algum trabalho assim, colocando a mão na massa. E estar ali doando meu tempo está me motivando muito. Nas redes sociais vemos muitas campanhas, e a gente ajuda às vezes sem falar que está ajudando, porque as pessoas acabam julgando, falando que estamos querendo aparecer. Sempre tem um espírito de porco pra tumultuar a campanha, mas o importante é ajudar o outro sem se importar com o que as pessoas vão achar.

Você comentou que sempre teve vontade de fazer esse tipo de programa, quem são as pessoas que te inspiraram?
Eu me inspiro vendo pessoas boas, me inspiro nos meus filhos. Eles inspiram a gente a querer um mundo melhor, e fazer mais pelo outro. Às vezes, assistindo ao jornal, a gente perde um pouco a esperança, mas ao vermos pessoas que tiram o pouco que tem para dar ao outro, pensamos: “Poxa, o futuro dos meus filhos vai ser legal, porque existe gente boa, mas às vezes dá medo, e você se questiona de que forma será o futuro deles”.

Você e o Luciano são pessoas muito bem-sucedidas. Por conta da violência, em algum momento vocês pensaram em sair do país?
Olha, a nossa vida é toda aqui. Confesso que quando viajamos com as crianças, e normalmente é para fora do Brasil, fazemos para ter uma vida mais tranquila e tal. Percebemos a diferença, que é grande, principalmente com algumas questões como cidadania e educação como, por exemplo, das pessoas atravessarem a rua tranquilamente e as outras respeitarem. Isso tudo mexe um pouco com a gente, mas é um pensamento que vem e vai embora. Somos brasileiros e moramos aqui, os nossos filhos serão criados aqui, nosso trabalho é aqui. Nós temos que tentar ser melhor, porque aqui é o nosso país; no entanto, temos a oportunidade de viver dois meses por ano essa outra realidade.

Quando você diz que fica mais tranquila quando viaja, é porque você também gosta desse anonimato?
Eu adoro! E gosto principalmente também, pela convivência com os meus filhos. Por ver eles soltos na rua, poder andar e brincar, porque aqui não tem a menor condição. Não por serem conhecidos, e nem são na verdade, mas pela violência mesmo. Se você vai ao shopping, tem medo de ser assaltado no estacionamento. É uma coisa que nem parece real. Por mim, tudo bem porque eu nasci e cresci nessa coisa das pessoas me conhecerem, então tanto faz, mas pra eles eu vejo que faz muita diferença.

Em 2018, a Grande Rio vai homenagear o Chacrinha, e nós sabemos que ele fez parte da sua vida. Você pretende voltar a desfilar?
Total! Eu gosto de assistir, mas pela televisão. Durante muitos anos, eu saía, às vezes, em duas escolas. Eu acho lindo, maravilhoso, tem muita energia, mas confesso que eu ando com um pouco preguiça. Mas é claro que se me chamarem, pelo Chacrinha eu vou.







 

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