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Assim como na produção de novelas, programas de televisão, comerciais publicitários e filmes para o cinema, trabalhar em uma atividade onde o belo, glamuroso e surreal devem ser apresentados com muita leveza e naturalidade, exige esforço, dedicação, suor e muita ralação.

Regra número um: acordar cedo. O desfile pode estar marcado para o início da noite, mas às 6 da manhã a produção já está a postos ao telefone checando tudo. Para que as nossas lindas modelos estejam esfuziantes na passarela, uma equipe com inúmeros profissionais acorda no cantar do galo para fazer a engrenagem funcionar. Desde a confirmação das peças que serão usadas no desfile – se correspondem ao manequim das modelos (sim, porque são feitas exaustivas provas de roupas para que as peças caiam impecáveis nos corpos maravilhosos de cada uma delas) - até a checagem dos cabeleireiros e maquiadores que irão dar cor e volume ao espetáculo, tudo deve ser milimetricamente calculado, pensado, estudado e ensaiado para dar certo. Mas o improvável, quando menos se espera, pode acontecer.

Certa vez, fui convidado a assistir o desfile de uma grande marca de moda jovem. O evento era no Rio de Janeiro, às 20 horas de uma segunda-feira. Eu, sempre ocupado que sou, trabalhei todo o expediente e, mesmo assim, decidi me jogar na ponte aérea para ver se conseguia assistir ao menos o finalzinho do show (mentira, queria mesmo era ir à festa bafônica que seria dada após o desfile).

Toca-pra-lá! Entrei no primeiro táxi e, a despeito da sorte, pensei: "Valeu a pena ter vindo. Talvez ainda pegue alguns minutos do desfile".

O carro parou em frente à porta de entrada do local. Desci. Dois seguranças, nervosos, me receberam com muita expectativa pois estavam aguardando alguém muito importante chegar. Viram o meu ingresso, o do número 01, e, um deles, com ar de surpresa e satisfação, avisou pelo rádio: "pode iniciar o desfile pois a pessoa chegou". Eu, sem entender absolutamente nada, entrei rapidamente segundos antes das portas serem fechadas, as luzes apagadas e o show iniciar. Sabia que algo de errado estava acontecendo, mas os minutinhos de pessoa-importante ofuscaram a minha racionalidade e me embriagaram de uma sensação gostosa digna de um super-star.

O desfile foi um arraso. Na passarela, as tops esbanjaram beleza e, aparentemente, tudo andava bem.

Dias depois, fiquei sabendo que a grande marca de moda jovem rompera o contrato de desfilar no Rio de Janeiro simplesmente porque os seguranças do desfile não deixaram a proprietária da marca entrar no evento. Era ela a pessoa importante que estavam esperando. Mas para eles, o número um, era eu!

Viram como, as vezes, um simples detalhe pode colocar em jogo todo o trabalho realizado por uma equipe? Uma ficha técnica detalhada nas mãos das pessoas certas, após a devida identificação, teria resolvido o mal entendido em instantes. Para os seguranças é natural penetras quererem entrar e se identificar como donos disso e daquilo. Então, nem deram bola.

Lindas, magras e… mortas de fome! Nossas tops muitas vezes exageram na dieta nos dias que antecedem as suas aparições nos grandes eventos de moda. Infelizmente não por vontade própria, pois o mercado da moda é cruel e cada milímetro pode representar a ascensão ou queda de uma top model no ranking internacional das catwalks. Inúmeras vezes presenciei bastidores de grandes desfiles onde só havia água e bolachas cream cracker para comer. Em um deles, água e banana, combinação insólita, para não dizer esdrúxula. Agora vocês entenderam o por que das caras de mau humor das modelos, ao desfilar? Sua avó estava certa. Cara feia pra mim é fome, diria ela. Já as celebridades que são convidadas para desfilar, o tratamento é outro, é claro. Será que é por isso que entram na passarela sorridentes, alegres e muitas vezes até dançando? Aposto que sim.

Vale o quanto pesa. Assim como em qualquer profissão, existem profissionais que são contratados a peso de ouro. Mais isso é a exceção e não a regra. Na maioria das vezes, nossas modelos desfilam por cachês irrisórios que, descontadas as taxas de suas respectivas agências que as representam, mal dá para pagar o aluguel. Mas então o que faz com que cada vez mais jovens decidam se dedicar ao mundo da moda, da passarela e da fotografia? Fama e fortuna não deve ser.

Independente do posto que poderá alcançar, desfilar proporciona boas experiências para quem decide usar a beleza de seu corpo à serviço da moda. O mercado internacional é bastante receptivo ao padrão estético das brasileiras. Desfilar lá fora, como se fala entre as modelos, coloca as jovens frente-a-frente a novas culturas, idiomas e experiências que poderão formar a sua conduta e caráter para enfrentar as responsabilidades da vida.

Mas só 15 minutos? Como vocês puderam ver, muito trabalho tem de ser realizado para que 15 minutos aconteçam feito mágica diante de seus olhos. Do desenho das roupas à passarela, meses passam voando até você ter o privilégio de desfrutar daquele caimento perfeito, do tecido exclusivo, da estampa única que vestirá quem ousar fazer parte deste show. Porque vestir-se sim, também é um evento: do simples, do sofisticado, do sóbrio, do extravagante. Você se veste do jeito que quiser, como quiser. Diferente das modelos profissionais, a sua passarela é a vida e é nela que você deve brilhar, sempre!

 

 

 

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