A devoção de Vladimir Brichta ao teatro

Por Ester Jacopetti

Vladimir Brichta é veterano na televisão, mas foi no teatro que deu os primeiros passos, e consequentemente surgiu a oportunidade de fazer sua primeira novela, em 2001 (Porto dos Milagres). Com o mesmo frescor, ele mantém seus personagens vivos na memória das pessoas, mas é no teatro que o ator se reencontra e, ao mesmo tempo, surpreende o público quando foge de personagens estereotipados. “Muitos falaram que eu estava num tom diferente, mas alguns não acompanharam o meu trabalho no cinema, ou no teatro. Mas, tudo bem também. São públicos diferentes. Eu estava realizando um tipo de linguagem, que frequento desde o início da minha trajetória. Para o público de televisão, de fato aquilo é novo, é surpreendente. Eu me beneficiei disso. Fiquei muito feliz com o retorno do público e da crítica”, comentou ele, sobre o sucesso de seu personagem em “Justiça”, que tinha em seu DNA uma dramaticidade intensa. Sua última novela foi “Belíssima” em 2005, após 11 anos de trabalhos, e passar por uma crise profissional, dedicou-se especialmente as séries. Mas dessa vez Vladimir não resistiu, e voltou como protagonista em “Rock Story”, com um personagem que tem o rock and roll nas veias, e leva a vida sem limites. Quanto a maturidade profissional, Vladimir faz uma avaliação positiva, não só sobre sua carreira, mas como a mudança na linguagem no teatro, cinema e televisão foram importantes para construí-lo como pessoa. “Estou me achando melhor. Evoluímos, em termos de linguagem. Isso me agrada muito. Sinto-me bem à vontade voltando às novelas, nesse momento”, disse. Completo apaixonado pelo teatro, ele não esconde o entusiasmo pelos palcos. “A magia se dá muito mais pela hipótese. Não precisamos de ultrarrealismo. Você pega um caixote, e ele vira uma cadeira, um trono, ou uma mesa. Isso tem desdobramentos na própria atuação. O teatro continua sendo o lugar mais libertário para atuar, mesmo a TV e o cinema experimentando muita coisa nova”, pontuou.

REVISTA TUDO - Normalmente os atores trabalham com um coach para ajudar na composição dos personagens. Quais são as técnicas que os telespectadores não veem, que o ator precisa desenvolver?

VLADIMIR BRICHTA - Para criar um personagem, temos que buscar referências, e acho importante não enxergá-lo longe de mim. Muitas pessoas usam o coach, para decorar texto, e não só criar um personagem. Eu não costumo trabalhar assim, mas tive, por exemplo, influências externas. Participei de uma preparação com Eduardo Milewicz, que a emissora promoveu por três semanas. Eu só consegui, durante a primeira semana, porque estava gravando “Justiça”, mas foi o suficiente para entender, o tom que eles pretendiam seguir na novela (Rock Story). Ao mesmo tempo em que penso no personagem, costumo perguntar aos diretores, qual o tom que eles querem imprimir. Procuro referências na linguagem, porque é importante sabermos de que forma vamos abordar. A partir daí, vem as referências externas. E a ideia de buscar dentro de mim o que me aproxima do personagem, me agrada muito. No caso da novela, pensei em como tornar o rock mais íntimo, próximo, assim como o instrumento, e começar a pincelar as reações e os comportamentos. O Gui Santigo tem um temperamento mais explosivo, impulsivo. Eu tento buscar isso em mim. Pensando no próprio palco, tenho referências de pessoas, que são mais impulsivas durante um show, e no rock muitas delas são. Não tenho um método especifico. Preocupo-me com o tom do projeto, que é o mais importante para enxergar esse perfil de maneira mais clara.

Intercalar projetos na televisão, entre séries e novelas, têm sido uma opção agradável aos seus olhos? Os personagens de séries costumam ser mais atraentes?

Na verdade, não é de caso pensado. Foram as opções que surgiram ao longo desses anos, que me fizeram tomar esses rumos. Às vezes uma série pode ser mais interessante, do que uma novela, e vice e versa. Não penso muito na questão do formato não. É claro que a abordagem desses trabalhos, é um pouco diferente, porque cada um deles têm tempos para elaboração. Talvez as minisséries, deem a oportunidade de se aprofundar em determinadas questões, e discussões que tendem inclusive, um aprofundamento do personagem. A novela segue um padrão mais específico. Neste momento, estou em um folhetim com viradas e grandes acontecimentos comuns ao formato, mas fazendo um personagem, bastante amplo, com uma dimensão trágica também. Essa é uma busca minha, independente do que eu esteja fazendo, tento dar uma dimensão mais humana possível. A não ser, obviamente, que eu esteja fazendo humor. Quando a abordagem é realista, tento dar sempre esse aspecto mais humano. Quero que as pessoas consigam enxergar, de fato, alguém ali, e não um tipo.

Ao longo dos anos, a televisão evoluiu, assim como outros meios de comunicação. No caso do teatro, como você enxerga essa evolução na questão da linguagem com o público? Ficou mais fácil agradar a massa?

Nós vivemos constantemente em transformações. Hoje, nós observamos que a televisão está cada vez mais próxima, pelo menos para nós brasileiros, do cinema; e falamos muito dos Estados Unidos, e acho interessante a comparação. O que foi produzido na teledramaturgia norte-americana, tem origem no cinema. Aqui, as novelas vêm das radionovelas, do teleteatro. Nós temos tradição de televisão, mas diferente da norte-americana. Recentemente passamos a observar que o cinema começou a influenciar e perder talentos para a televisão, que começou a produzir com nível de investigação, que era mais comum no cinema. A televisão norte-americana fez isso com as séries, e acabou influenciando o mundo inteiro que as consome, assim como consumia o cinema americano. No Brasil também, e a TV passou a produzir flertando com essa velocidade da informação, com nível de aprofundamento, e quebra de alguns estereótipos do herói e mocinha. É válido quebrar e subverter uma fórmula. Sair da zona de conforto, na qual estamos acostumados a produzir. Outro ponto importante, é que o cinema passou a ser digital, assim como a TV. Ou seja, em termos de tecnologia, nos igualamos. O que acabou interferindo na linguagem, e toda essa dinâmica, técnicas televisivas e audiovisuais, afetam também o teatro contemporâneo. O teatro parte do pressuposto que aquele público, está acostumado a ir ao cinema, e ver televisão, e mais do que isso, a usar os seus próprios meios, como o celular, tanto para filmar, quanto consumir. A ideia do “faz de conta”, nunca foi tão clara. A magia se dá muito mais pela hipótese. Quando subimos ao palco, acreditamos que quando a cortina se abrir, o público irá reconhecer imediatamente o personagem. Não, ele vai olhar e ver um ator, talvez o reconhecerá de algum trabalho na televisão, do cinema, ou peça. Acredito que a proposta e a linguagem na atuação, se dão muito pela sugestão, que é muito mais do que definitiva. Ela provoca e instiga o expectador a concluir o entendimento sobre o personagem. Não precisamos de ultrarrealismo. Podemos brincar com sugestões, para que o público complete o entendimento. Você pega um caixote, e ele vira uma cadeira, um trono, ou uma mesa. Isso tem desdobramentos na própria atuação. O teatro continua sendo o lugar mais libertário para atuar, mesmo a TV e o cinema experimentando muita coisa nova.

Sua última novela foi em Belíssima (2005). Como está sendo esse retorno às novelas?

Pois é, já se passaram onze anos. Desse tempo pra cá, muita coisa mudou. Estou me achando melhor. Talvez por causa da minha maturidade profissional e a experiência que acumulei. Tem a ver com o próprio desenvolvimento da televisão, em si. Hoje em dia, trabalhamos com o mesmo equipamento que usamos no cinema. Evoluímos muito, em termos de linguagem, e estamos num lugar bem interessante. Sinto-me bem à vontade, voltando às novelas nesse momento da TV.

Nesse período você ficou bastante focado no humor. Poderia afirmar que esse é o tipo de gênero que te agrada?

Curiosamente, desde quando eu comecei em 2001, fiz bastante humor na televisão. Mesmo nas novelas, eu estava envolvido com o núcleo cômico. Passei onze anos longe, mas estava fazendo séries de humor. Foi bom, porque é um universo que me agrada. Eu gosto e sei fazer. Mas está sendo bacana voltar, numa trama na qual eu não sou responsável pela parte do humor. É legal até para o público de televisão, que me acompanha há bastante tempo. Eles irão me ver de outro jeito, em outro gênero. É uma troca muito boa, saudável.

Como tem sido interpretar um roqueiro? Você comentou que as pessoas irão te ver de outro jeito. O que elas podem esperar?

Essa trama tem muito, de novela das sete, além de ter muita música. Isso traz um frescor muito bom. Temos uma juventude muito talentosa, envolvida com música. A novela, fala um pouco da mudança de geração, o que é bacana. O Guilherme é um roqueiro meio decadente. É no meio de um conflito que ele descobre que tem um filho, que também é talentoso, e cria uma “boy band”, pra voltar às paradas e competir com o arquirrival, que é o personagem do Rafael Vitti. É legal dizer que eu sou o coroa da novela, eu tenho quarenta anos, e dois filhos. Tem um encontro de gerações que é muito bom. Cada um, se alimenta do outro.

O público desse horário é bem diversificado, inclusive tem muitos adolescentes. Você está preparado para esse público?

Eu estava gravando com o Nicolas (Prattes) e uma menina pediu pra tirar uma foto com ele. Ela disse: “Tio, posso tirar uma foto com você?”. O Nicolas me olhou sem entender. Eu disse: “Dessa menina, você já é tio”. Já crescemos tio de alguém. Não sei se estou preparado para o público adolescente. Não sei o que vai ser. Eu tinha um público dessa idade, na época de “Tapas & Beijos”. Eu não faço ideia, do que eles irão achar de mim. Se eu virar o tiozão roqueiro, vou ficar bem feliz.

E já que você comentou sobre música, o que ela representa para você?

Sempre gostei de música e já fiz alguns musicais no teatro, cantei no cinema, e na televisão também. A música é muito presente, e ouço sempre que possível. Esse personagem me provocou uma grande pesquisa, porque o que é rock nos dias de hoje?! Eu tive que buscar minhas referências, e ao invés de só tentar buscar, também procurei escutar coisas antigas. Bandas como: Legião Urbana, Titãs, Ira, Paralamas do Sucesso, Lobão e muitas estrangeiras também. Esse personagem não deixa de ser um presente, porque me aproxima muito desse elemento, chamado: música. O Gui é guitarrista e cantor. Na parte de canto, já foi mais fácil, mas voltei a fazer aulas porque é preciso exercitar. A música de abertura da novela, sou eu quem estou cantando. O nome é “Nossa Hora”. Eu gravei numa boa. Agora, para tocar foi um pouco mais complicado. Eu toco violão bem fajuto, e achei que poderia ajudar, mas é muito pouco, porque tem um jeito especifico, de tirar o som da guitarra, que não é parecido com o violão. Infelizmente não fui capaz de tocar ao vivo também.

Como você descreveria o seu personagem?

Ele tem um temperamento mais explosivo, que brinca um pouco com o estereótipo do roqueiro. É muito rico para o personagem, porque ele é impulsivo. Os erros que ele acaba cometendo são mais pela impulsividade. É bacana fazer, porque consigo ver a curva do personagem. Pra fazer o Gui eu me inspirei no Johnny Depp, porque ele também tem uma banda. Peguei um pouco dele. Comentam que eu estou parecido com o Chris Cornell (Guitarrista do Audioslave). Achei parecido mesmo, e cheguei até ler algumas biografias e tudo mais. Eu tomo todo o cuidado para não deixá-lo caricato, e saberia se isso acontecesse.

Quando deu os primeiros passos na carreira, como foi a sua preparação?

Eu não tive uma preparação, no início da minha carreira. Hoje, os novos atores têm um aparato muito grande. Essa geração é muito boa, porque eles estão interessados. Não sabem uma porção de coisas, mas sabem outras. A minha geração, não se preparava para musicais no passado. Nos preparávamos para atuar. Eu cantava, e dava uma dançadinha, meio roubada (risos). Eu não me preparei. Nessa época, não existia escolas para diferentes gêneros, mas hoje tem. Essa geração, precisa buscar o único de cada um, como artista. Compreende?! As ferramentas, elas têm.

As mudanças não foram apenas na questão de praticar aulas de guitarra e voz, mas também no visual que está super radical...

As tatuagens são do personagem, são duas. Elas são feitas de silicone, e duram em média uma semana. Estou usando brinco também. Em casa, o pessoal estranhou um pouco. Eu já tinha a orelha furada. O menor olhou o brinco e falou que gostou. O cabelo, dei uma mudada. O comprimento é todo meu, mas coloquei um volume, tipo um aplique. Quando eu fiz “Justiça” eu estava com o cabelo que lembrou minha adolescência (risos). Eu tive cabelos assim, dos doze aos vinte anos, cumpridos e loiros. É engraçado porque eu trabalhei na praia, em um quiosque com a minha mãe. Nós vendíamos coco, e esse universo praiano, era muito familiar pra mim, não é distante.

Você já comentou que fazer seriados e deixar as novelas um pouco de lado, não foi de caso pensado, mas de certa forma, foi uma decisão sua?

Foi uma opção minha, sim. Quando terminei “Belíssima”, entrei em uma crise pessoal, de trabalho. Percebi que eu não estava feliz. Era uma época, que eu queria me dedicar mais ao teatro, que é de onde eu venho. Fiz duas peças. Não demorou muito, e surgiram vários convites para fazer séries. Em cinco anos, eu havia feito cinco novelas. Surgiu uma, mas não fiz. Fiz “Tapas e Beijos” e segui o meu caminho. Fiz “Justiça”, e agora essa novela. E ainda tem “Zózimo”, que é uma série do Mauro Wilson, sobre um detetive que se passará nos anos 50. Aceitei participar dessa trama, porque amei o enredo. Gosto de me desafiar. Não consigo tocar ao vivo a guitarra, e fiquei puto da vida.

Mas você sentia uma cobrança por parte do público?

Cobravam muito, mas enquanto eu estava em “Tapas e Beijos”, pararam um pouco. As pessoas ficam intimas, né?! Hoje em dia, me cobram a volta do seriado (risos).

Acredita que seu personagem em “Justiça” foi um divisor de águas na sua carreira?

Pode ser. Muitos falaram que eu estava num tom diferente, mas alguns não acompanharam o meu trabalho no cinema, ou no teatro. Mas, tudo bem também. São públicos diferentes. Eu estava realizando um tipo de linguagem, que frequento desde o início da minha trajetória. Para o público de televisão, de fato aquilo é novo, é surpreendente. Eu me beneficiei disso. Fiquei muito feliz com o retorno do público e da crítica. O elenco era realmente o ponto alto desse projeto, e também, de eu sair um pouco da chave do humor na televisão. O grande público assiste televisão e vai pouco ao cinema e teatro. Eles conhecem o meu trabalho, através do humor. Não deixou de ser para mim, um exercício e uma oportunidade de poder trocar, e o público me ver num gênero diferente. “Justiça” foi uma série inovadora e ousada. Quando recebi o convite, aceitei na hora. A trama foi muito bem elaborada. As histórias eram pesadas, e o público teve a oportunidade de ver a mesma cena, mas de um ponto de vista diferente. É o exercício de julgar. Pra mim é justo e correto, mas pra outra não. Então, na verdade, reverbera um pouco esse estilo que cada um de nós temos uma opinião sobre o que é correto, diferente. Você pode exercitar, na linguagem. Esse projeto foi um trunfo.

Foi nessa série que você e a Adriana (Esteves), depois alguns anos voltaram a atuar juntos...

Pois é. Depois de tanto tempo, né?! Mais de dez anos. Nosso último trabalho na televisão juntos, foi na novela “Kubanacan” (2003). Sempre vibrei com as coisas dela. E, nós sem esperarmos que fosse acontecer, virou realidade.

Falar sobre o trabalho, é bom para a relação de vocês?

Ah, é bom, mas também tem a hora de parar, de colocar um filme, sair pra jantar, encontrar os amigos, namorar. Antes de eu ser marido dela, eu era um grande admirador do trabalho da Adriana. Fã, admirador mesmo! Não tem como eu ignorar o fato, de que ela realiza um grande trabalho. A reciproca, modéstia parte, é a mesma. Gostamos do que o outro faz. Eventualmente, se fala que um casal compete entre eles, mas não existe isso entre nós. Nos estimulamos, provocamos no melhor sentido.

O fato de você estar emendando um trabalho no outro, causa certa preocupação em relação ao desgaste da imagem?

Não, não. Eu não apareço em tudo que é canto. Fazer duas novelas seguidas, é uma coisa que desgasta muito mais, do que estar em seriados, que foi exibida no mês passado.

Como você lida com as questões das redes sociais?

Eu não tenho nenhuma conta em nenhuma rede social. Não sou eu. Divulguem isso.

Seu personagem tem um filho fora do casamento, e se relaciona com uma fã...

Se eu tenho um filho fora do casamento?! Eu não (risos). Não me relacionei com fã não. Quando eu comecei a namorar a Adriana ela falou que era minha fã. Não sei se isso conta (risos). Mas eu também era fã dela.

O que tem do Vladimir que começou a carreira em 2001 em “Porto dos Milagres”, para o de hoje?

O encanto pelo o que eu faço. Mesmo! De TV já são quinze anos, nesse período eu já errei, acertei e cansei. Mas, hoje posso dizer que estou muito mais próximo daquele frescor, vontade, tesão mesmo do trabalho, que eu tinha quando entrei no Projac pela primeira vez. Eu tenho o mesmo encanto daquela época.

 

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