Formação para Equidade



A mesma pesquisa mostra que, em um segundo momento, quando o ensino da escola tradicional passa a ser dado para ambas turmas, os alunos do subúrbio apresentaram uma evolução grande enquanto os alunos da escola tradicional continuaram no mesmo nível, ou seja, o aprendizado ficou estável. Baseada nesta pesquisa de mais de 20 anos, Rachel criou uma metodologia de ensino chamada de “Complex Instruction”, adaptada como “Ensino para equidade” em português.

A metodologia foi desenvolvida nos EUA para favorecer a aprendizagem em salas de aula heterogêneas, tendo como fundamento a pesquisa de que todos são capazes de aprender matemática em altos níveis. Rachel adaptou várias questões aos exercícios de matemática, trazendo questões cotidianas aos exercícios, estimulando o aluno a chegar à resolução do problema.

O resultado foi um aumento no grau de aprendizagem da matemática, sem que os estudantes tivessem de decorar fórmulas ou contas. Outra característica do trabalho é a divisão dos alunos por grupos de até cinco pessoas. Quando as atividades propostas pelos professores permitem o trabalho em grupo, a elaboração de hipóteses, a coleta de informações e a argumentação a respeito do processo, o nível de engajamento e aprendizado da classe aumenta.

Acreditando neste trabalho, Instituto Sidarta firmou parceria com a pesquisadora americana e vem trabalhando para desenvolver uma metodologia que se adeque à realidade brasileira. Não só adaptou a metodologia à sua equipe de profissionais e alunos, como criou o programa de formação de professores, baseado em estudos da neurociência aplicada à aprendizagem. Esta iniciativa teve adesão de alguns profissionais da rede pública de ensino que participaram do primeiro curso oferecido pelo Instituto Sidarta.

A principal característica é o trabalho em grupo e o fim das aulas expositivas. Os alunos são convidados a se organizar em grupos em que cada um tem uma função. O desafio é dado diariamente pelos professores que são estimulados a criar os exercícios, não apenas em matemática, mas em todas as disciplinas. Os alunos, por sua vez aprendem a trabalhar em grupo, dividindo tarefas. Estes educadores têm experimentado esta nova abordagem com seus alunos. Conversamos com o geógrafo, João Paulo Carneiro, professor da Escola Estadual Distrito de Maylasky, em São Roque e também do Instituto Federal de São Paulo – Campus São Roque. Sobre o curso oferecido “Ensino para equidade”, ele diz: “Gostei muito, porque eu já trabalho com estudantes em grupo e essa metodologia trabalha com a questão da formação dos papéis. Quando se define um papel para cada um, todos participam”.

Como funciona

Os grupos são divididos em papeis (funções): facilitador, harmonizador, monitor de recursos, repórter e controlador de tempo. Essa forma de divisão faz com que todos se integrem e trabalhem coordenados, cada um com sua função. A escolha do grupo é aleatória, mas controlada. Parte fundamental da metodologia é a premissa da diversidade e qualquer pessoa que for sentar para trabalhar junto será produtiva. Outra preocupação do professor é observar que a cada novo trabalho, os alunos se revezem nas funções para que todos sejam estimulados a participar e interagir.

Educadores do Sidarta – que vem utilizando a metodologia com seus alunos em todas as disciplinas desde abril – observam o aumento do interesse dos alunos, que sentem-se desafiados a pensar. Segundo os educadores, o conteúdo dos alunos está notoriamente mais aprofundado. “Estamos dispostos a errar, todo mundo no mesmo barco...”, diz Claudia Siqueira, Diretora do Instituto Sidarta.

Mas não são apenas os educadores que estão gostando do novo desafio, os alunos também:

Todo o início de bimestre eu faço uma assembleia para discutir os rumos pedagógicos do curso. Ensino para equidade foi aprovado por quase 90% dos meus alunos.”, conta João Carneiro.

Mas o desafio é maior do que uma ou algumas classes de alunos integrados e com bons resultados. João explica a dificuldade de se mudar a cultura do ensino

É difícil mudar a cultura de uma escola como professor. Existe uma pressão nas escolas do Estado para que se trabalhe em cima da apostila. Isso faz com que o aluno seja um reprodutor e não use a criatividade. Muitos dos colegas professores rezam a cartilha da apostila, daí a revolta dos estudantes.”

Na contramão, ele trabalha em cima de textos com seus alunos:

Estamos lendo “por uma outra globalização” de Milton Santos. A cada encontro os alunos liam um capítulo e eu aplicava exercícios relacionados a esse texto”, finaliza.

O trabalho é de formiguinha, se cada um cuidar da sua classe, aos poucos podemos mudar as políticas do ensino de forma inteligente. Com acompanhamento da Rachel Lotan, o curso “Formação para Equidade” é ministrado no Instituto Sidarta a todos os educadores e pessoas interessadas.



Fontes:

Instituto Sidarta

Sidarta.org.br

 João Paulo Carneiro, geógrafo e professor da Escola Estadual do Distrito de Maylasky, São Roque.

joaojeannine@gmail.com



 

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