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A primeira pessoa a conversar com a Tudo foi a professora de informática, Márcia Ribeiro Paganella, 50, casada com João,  pai de seus dois filhos, Fernando, 32 e William, 29, e avó de um menino de dois anos.

“Com 16 anos conheci  João. Minha mãe era muito severa, eu tinha medo dela. Eu estudava em uma boa escola e era informada sobre métodos anticoncepcionais, porém o que me impedia de usar era a vergonha de comprar, mas principalmente o medo que minha mãe encontrasse. E também era inconsequente e achava que “não iria acontecer nada”.

Engravidei com 17 anos. Quando peguei o resultado do exame de gravidez, fiquei apavorada, com medo... recorri a uma tia e pedi para que ela contasse para a minha mãe sobre o que estava acontecendo. A espera que minha mãe chegasse foi torturante, quando ela chegou, foi pior do que eu imaginava. Uma das coisas que ela me falou foi "Não quero ver seu filho nem pintado de ouro!”. Meu pai aparentemente aceitou tudo calado, o que me deixava ainda mais triste, pois imaginava que o tinha decepcionado.

O meu marido, na época namorado, não demonstrou, mas eu sei que ele ficou tão assustado quanto eu. Pois ele estava em um trabalho temporário e logo estaria desempregado. Não tinha condições de manter uma família. Mas sempre me apoiou e esforçou-se para encontrar um emprego melhor.

Como a reação de minha mãe, eu resolvi ir morar com ele, na casa dos seus pais. Minha sogra se manteve reservada, mas fui bem acolhida pelo meu sogro e cunhados. Foi um período muito difícil.  Meses depois minha mãe pediu para eu voltar a morar em casa. Casei e fui morar na parte de baixo da casa deles.

Quando o bebê nasceu meus pais, mudaram de atitude e ele passou a ser a grande alegria de minha mãe e até hoje ela demonstra muito amor por ele.”, diz Márcia.

 

Quando Paulo Guabiraba dos Santos, discotecário da TV Cultura, casou-se com Lilian, em 1985, ela estava grávida do Tiago de 7 meses e meio. Paulo tinha 19 e ela 16.

“No começo foi muito complicado, pois não tínhamos quase nada. Dormíamos até os 7 meses de gravidez dela em uma cama de solteiro. Eu era auxiliar de discoteca e ganhava um pouco mais de 1 salário e meio e ela não estava trabalhando. Meu sogro pagou o aluguel por um ano, depois ficamos por nossa conta. Comecei a trabalhar em dois empregos.”, narra Paulinho.

 

A história do advogado, Ricardo do Nascimento foi bem diferente.

Casou-se com a mãe de Gabriela aos 18 anos, em 1987. Ela estava grávida e eles eram apaixonados. Segundo ele, foi a coisa mais maravilhosa que aconteceu, se tornou um verdadeiro pai babão.

“Fazia tudo dentro de casa, trocava fralda, dava banho, mamadeira.”

Quando chegava em casa, dedicava-se a Maria Gabriela. Ele e a mãe viveram muito bem por 12 anos, até o divórcio, mas hoje ainda tem um relacionamento saudável. Ele conta que até hoje ele e a filha, que está com 28 anos e é dentista, são muito ligados.

 

É fácil falar deste assunto depois de anos que se passaram, pois as pessoas se adaptam às situações e os filhos crescem. Mas para quem está vivendo no momento, não é nada fácil, como é o caso contado pela psicóloga Lucia Amaral, de paciente seu, Bruno (nome fictício),  de 17 anos.

“Pai-adolescente há seis meses. Namoro adolescente no Colégio, primeiras descobertas sexuais do casal, que tinha um relacionamento desde os quinze anos. Havia um controle rígido dos pais e as relações sexuais eram sempre de forma fortuita, oportunista em muitas delas não havia uma preservação suficiente para evitar a gravidez. Dentro desse quadro aconteceu à gravidez, a surpresa foi geral. Depois do susto, bronca dos pais, o apoio familiar foi irrestrito em ambas as famílias.”

 

Apesar das diferenças de classes sociais e gerações das histórias contadas, os problemas enfrentados são muito parecidos.

 

“Eu senti que tive que amadurecer rapidamente e aprender a ser adulta e mãe ao mesmo tempo. Mas interrompi meus estudos e minha carreira profissional.

Considero um fator positivo eu ser jovem e ter energia para cuidar de um bebê, para mim não era sacrifício passar a noite acordada cuidando dele que foi doente, teve problemas de saúde e necessitava de muita atenção. Lembro que eu o fazia dormir cantando as músicas de rock da época.

O primeiro show de rock que o meu filho foi, eu fui acompanha-lo, eu sabia todas as músicas certamente me diverti muito mais que ele.”, conta Marcia.

 

Lucia diz que seu paciente - de uma situação financeira familiar mais estabilizada - contou com o apoio de seus pais. Mas o excesso de responsabilidade mexeu com sua autoestima. Ele não se considerava capaz de assumir todas as responsabilidades que se impunha, como, querer morar com a namorada grávida, educar a criança, manter a relação dentro de uma nova perspectiva – a de casado, trabalhar e estudar. Sempre se questiona sobre o futuro do seu filho já que ele tem que assumir responsabilidades de um adulto mesmo sendo um adolescente. E ao mesmo tempo lamenta por não estar vivendo uma fase igual e dos seus amigos. Foi-lhe imposta responsabilidade de assumir um posto na empresa familiar, coisa que ele nunca se interessou, pois estava sendo preparado para intercambio e possível universidade fora do Brasil.

 

Ricardo não teve problemas financeiros, o que permitiu que tivesse um ótimo relacionamento com a paternidade, mesmo com 18 anos. Ele já trabalhava no escritório de advocacia da família, onde está até hoje. Por outro lado, lembra-se de algumas dificuldades emocionais por falta de estrutura psicológica, em alguns momentos.

 

Já Paulinho precisou trabalhar em dois empregos para conseguir sustentar a família.

“Só consegui me livrar do aluguel no ano de 2000, quando mudei de São Paulo e fui morar em Francisco Morato interior de São Paulo, Lá comprei um terreno e comecei a construir minha casa. Nessa época, já tinha  três filhos, o Tiago, a Talita e o Diego. Tiago tem um filho de 12 anos e uma enteada de 7 anos; a Talita, um filho de 7 anos e o Diego ainda esta solteiro e irá concluir a faculdade de engenharia neste fim de ano.”

 

Márcia – que tinha parado de estudar para ter o filho – voltou aos estudos aos 35 anos: “ Me formei em Licenciatura em Computação e,  como professora de escola técnica tinha contado com adolescentes, trabalhava em uma escola particular e dava curso em um bairro pobre.

O fato de, naquele ano, eu estar com duas alunas grávidas (uma de 15 e outra de 16 anos) de diferentes classes sociais, me preocupava, pois mesmo depois de mais de trinta anos, adolescentes ainda passavam por essa problemática, ainda mais com as doenças sexualmente transmissíveis dos dias atuais. Isso me motivou a criar um projeto de conscientização para oportunizar meus alunos a informarem-se e entender a realidade deste problema universal, que é a gravidez precoce.”

Hoje Marcia tem um blog sobre o assunto e instrui  seus a alunos falaram com muita propriedade sobre o tema.

 

“A lição que eu aprendi com isso é que por maior que seja a dificuldade temos que encarar tudo da melhor maneira. Se minha mãe tivesse me apoiado, me acolhido, eu teria sofrido menos e certamente todos também. Por isso, hoje, eu sempre apoio os meus filhos em suas decisões, mesmo que eu não concorde, conclui Márcia.

 

“Não adianta dramatizar a situação, mas informar esses jovens. As estatísticas nos mostram que na maioria dos caos a relação não dura mais que o primeiro ano do nascimento do bebê, ocorrendo uma amizade do casal.”,  explica a psicóloga Lúcia.

“Não podemos pensar que todos os garotos, pai-adolescente, são irresponsáveis e espertalhões, contudo muitas vezes são vistos na sua própria família como otários, pois não usou preservativo, na família da menina são vistos como monstros que estragou a vida dela. A maioria tem projetos de vida, estudo, tem sonhos, mas tudo muda quando acontece a gravidez. Os garotos ficam tão apavorados quanto as meninas. Meu paciente pensou que sua vida fosse acabar. Entrou em uma leve depressão onde só desejava dormir e não acordar mais. Teve uma sensação de pânico que seu desejo era de fugir, ir para outro mundo e viver outra realidade. Suas novas responsabilidades, trabalho, casamento, a passagem da adolescência para a vida adulta o assustou intensamente.”, finaliza Lucia.

 

Fontes:

 

Marcia Paganella

Professora de informática

Blog do projeto:

http://blogquest-gravidez.blogspot.com.br/

Lucia Amaral

Psicóloga

 

Ricardo do Nascimento

advogado

 

Paulo Guabiraba

Discotecário

 

 

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