Por Uma Infância Com Mais Tempo Para Os Tatus-Bolinha! Leia +



Então, conversa vai, conversa vem, ele contou dos seus planos, do seu pai, da sua mãe, da sua irmã, que comprou sua motinho vendendo cookies, enfim, seus novos interesses, seus amigos. Enquanto falava, os olhos estavam atentos ao redor, observando os agora pequenos, como um dia ele também foi, naquele mesmo lugar, carregando seus baldinhos, chamando as professoras para contar um ou outro feito recente.

Em meio a muitas lembranças, Luigi deu uma volta na Escola e depois se despediu prometendo voltar e trazer seus biscoitos deliciosos.

Depois da visita, fiquei refletindo sobre as minhas memórias da infância... o que ficou, do que eu me lembro, do cheiro da lancheira, de pegar minhoca na terra com meu amigão inseparável lá no colégio Santa Catarina, na Mooca. Eu me lembro dos esconderijos com a minha irmã, nós duas rindo à beça enquanto ouvíamos a minha mãe chamando: “Hora do banho, vou achar vocês!”

Conversando com meu marido, ele, que teve infância simples no interior, conta das cidades cravadas no barranco que ele e o amigo construíam: “Nós éramos ‘caminhoneiros’ passando por várias cidades e comíamos marmita. Minha mãe levava para nós!”

Assim era o faz-de-conta...

É essa reflexão que eu proponho hoje! O que ficou para você e o que será que vai ficar para o seu filho? A cada dia vivido, sei que nós, como pais, buscamos uma infância boa, com estrutura, com tudo de bom. Pensamos na alimentação, lemos artigos sobre o comportamento infantil, investimos no melhor calçado, viagens e tudo mais.

Sim, mas onde quer que nossos filhos estejam, o que quer que eles comam ou vistam, enfim, para eles, suas buscas serão as mesmas, independentemente do contorno que dermos, o interesse será sempre o de viver seu tempo fazendo o que mais necessitam fazer: brincar! Assim vão crescendo e aprendendo, ressignificando suas hipóteses e vivências, tecendo suas memórias!

Claro, nós vamos continuar investindo em uma boa infância, mas precisamos nos certificar a cada escolha, a cada cena, de preferência, nos perguntar de vez em quando se, em meio a tudo, a poesia teve espaço!

Algo como...

Que a brincadeira com a caixa tenha mais força do que o deslumbramento com o sapato que veio nela...

Que o encantamento com o caminho seja mais forte do que a certeza da chegada...

Enfim, que entre as letras, números e outras coisas, tenhamos algum tempo para os tatus-bolinha!!!

A impressão que tenho, como educadora, é a de que esse tempo está se esvaindo, está perdido em coisas sem sentido para a criança e o que é urgente fica para depois. Se pensarmos assim, a infância vai seguir querendo seu espaço, mesmo que ele aconteça aos 20 ou 30 anos de idade.

Pensemos nisso com dedicação, assim como diz a educadora Renate Keller Ignácio, nessa frase poderosa:

“A criança que brinca a partir de si mesma, se acalma, respira profundamente e entra num estado de bem estar, onde ela sente uma profunda confiança na existência. Esta confiança se transforma na idade adulta em fé na vida, em fé em si próprio e no seu destino.”

Encerro com a poesia do querido Manoel de Barros:

“Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos.”

A infância bate à porta com tudo o que ela tem direito e pede espaço para acontecer! O que nós encontramos em nosso quintal e o que será que nossos filhos vão encontrar?

Vou pensar nisso. E vocês?

Leiam mais sobre Manoel de Barros. Vejam dica abaixo:

Memórias Inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros/ Ed. Planeta

 

Fonte:

Adriana Rodrigues Xavier é pedagoga, psicopedagoga e diretora pedagógica da Escola da Carol.

coordenação@escoladacarol.com.br

 

 

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